Em Uma Valsa com a Morte — Ou o pouco que sei sobre música, literatura, melancolia, espiritualidade e a minha avó, João Tordo tenta chegar ao outro lado do fio imaginário. Pelo caminho, toca as notas de medos e dores, passados e presentes, numa melodia de apaziguamento, com o passado e consigo próprio. Pelo caminho, percebemos que é também do pouco que sabe sobre nós que fala. Do seu projeto musical, MARIA GIBSON, depois de "Lamento", pomos a tocar "Águas Passadas", para afinar os verbos.
Este é um livro sobre as (suas) dores de crescimento?
João Tordo: Não exatamente, embora elas estejam patentes no livro. É um livro de reflexões sobre vários temas que foram atravessando a minha vida. Alguns de maneira mais próxima, outros por intermédio de outras pessoas. Acho que o fundamental foi tentar encontrar os pontos comuns entre a minha experiência e a experiência humana mais vasta, a de todos nós.
Disse numa entrevista que escrever um romance é “uma espécie de ato de equilibrismo”. Escrever estes ensaios foi o quê?
Foi um ato de chegar ao outro lado desse fio imaginário. Quando a nossa avó morreu em dezembro do ano passado, todos estes temas, aparentemente desgarrados, em que eu vinha trabalhando há três anos (desde o Manual de Sobrevivência de um Escritor), vieram à tona e encontraram o fio condutor.
O que o desconcerta mais: “o desespero ou a comédia que nos atravessa, pelo simples facto de estarmos vivos”?
As duas coisas são os lados da mesma moeda. Não existe um sem o outro. O desespero levado ao extremo conduz ao cómico, e vice-versa.
Este livro lê-se com um certo desconforto porque, às tantas, estamos também nós, leitores, a passar a vida em análise e a conversar com os nossos fantasmas e a rever medos e ajustes que fomos (e vamos) fazendo ao itinerário. Era um objetivo assumido?
Não, realmente o meu objetivo era pôr-me a mim a pensar sobre certos temas que me parecem universais, tal como diz o Camus: o único e grande problema que urge resolver é o do suicídio, isto é: porque é que achamos que vale a pena aqui estar, e porque ficamos? É uma questão que está diretamente relacionada com a Morte e as suas manifestações em vida, nomeadamente o Belo (através da música e literatura, por exemplo, também abordadas no livro) e o Medo, também abordado.
Escreveu que um dos aspetos mais recompensadores de uma profissão dita criativa é assistir ao reflexo do que fazemos nos outros. Sobre o reflexo do que faz, há alguma história que o tenha marcado especialmente?
São muitas histórias para poder escolher apenas uma. Lembro-me de há pouco tempo uma pessoa dizer que conheceu o marido através de um livro meu. Estavam os dois acidentalmente a ler livros do mesmo autor (eu) quando se conheceram, e meteram conversa por causa disso.
Da leitura deste livro fica-nos uma forte melancolia agarrada à pele. Não pude deixar de recordar as palavras de O’Neill (Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,/ que o absurdo, mesmo em curtas doses,/ defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!). É já uma melancolia de estimação, esta que o João partilha com o leitor?
Acho que a tristeza e a melancolia têm sido rejeitadas pela sociedade contemporânea e a proliferação de manuais de autoajuda que incentivam a positividade tóxica só desajuda. Estar triste (ou o estado de melancolia) advém de perder ou abdicar daquilo que precisamos de perder para crescer e evoluir e mudar. Logo, são absolutamente necessários caso o adulto queira crescer e ganhar unidade consigo próprio.
“A vantagem da idade e do Tempo é que, a partir de certa altura, as coisas já não importam tanto” (Uma Valsa com a Morte). O que lhe importa realmente agora?
Importa-me, sobretudo, a serenidade. Não creio que ande aqui para ser feliz ou triunfar a toda a hora; mas a serenidade, quando se encontra alguma, permanece debaixo do tumulto da vida, e é muito importante cuidar dela e mantê-la.
Diz, a certa altura, que “o ser humano precisa de tempo para fracassar”. O que diria o João do presente ao João dos vinte e poucos anos?
Que estava tudo bem, que faz parte do percurso isso que estás a passar agora, e que muitas vezes encontramos o nosso destino no caminho que fazemos para o evitar.
Se este livro trouxesse consigo um aviso “acompanhar com…”, qual seria a banda sonora recomendada?
MARIA GIBSON! [risos]
"Como escreveu Ortega y Gasset — e talvez seja esta a súmula deste livro: ‘Porque a vida é um verdadeiro caos onde uma pessoa anda perdida(…)’"
João Tordo, Uma Valsa com a Morte
Como é que alguém que sofre “da enfermidade da Razão”, como assumiu num dos ensaios, lida com o caos?
Lido olhando para ele com a maior compaixão possível. O caos raramente é exterior. Normalmente, é uma função do próprio indivíduo que está desorganizado. Portanto, se está dentro de mim, eu consigo lidar com ele.
O que há ainda por fazer?
Livros, séries de televisão e mais livros. À parte isso, tempo com família e amigos e pouco mais. As horas não chegam para muito mais coisas. Nos últimos anos tenho abdicado — ora aí está, a perda é necessária ao crescimento — de alguma da vida errante que costumava ter. Das viagens constantes. Quase me obriguei a ficar parado, e ver o que acontecia. E o que aconteceu é que ganhei paz e a minha consciência apaziguou-se.
O que gostaria que os seus sobrinhos dissessem sobre si, daqui a algumas décadas?
O tio João era muito fixe.
E os seus leitores?
O João era muito fixe.