Desafiámos os autores a partilharem connosco algumas leituras, levando até aos leitores o poder terapêutico da literatura. Nelson Nunes respondeu ao nosso desafio e leu um excerto de As Intermitências da Morte, de José Saramago.
Escritor e jornalista, Nelson Nunes é o autor dos livros Quem Vamos Queimar Hoje?, Isto Não é Um Livro de Receitas, Com o Humor Não se Brinca e Quando a Bola não Entra. Há dez anos a trabalhar na área da comunicação, foi jornalista da revista Focus, produtor na Rádio Renascença, investigador na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa e assessor do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol. Atualmente, é criativo na agência de storytelling True Stories e coapresentador e cocriador, em conjunto com Fernando Alvim, do podcast Com o Humor Não se Brinca. Autor de vários livros de não ficção, Preciosa é o seu primeiro romance.
"Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abralou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu."
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