Vivemos o ano inteiro como se a Terra não mudasse. Negamos os ciclos, não apenas por negligência, mas por ignorância acumulada ao longo de gerações. A nossa sorte? Não serem assim tantas gerações. A revolução industrial e o êxodo rural em massa aconteceram há pouco mais de 100 anos em Portugal. Se compararmos este período com a existência do ser humano na Terra, percebemos facilmente que é apenas uma migalha na vasta relação temporal que temos com a Natureza e com os ciclos. Dos quais, aliás, somos parte intrínseca.
Um pouco por todo o país, os nossos avós e bisavós deixaram as terras onde cresceram para procurarem melhores condições de vida nas cidades. Naquele tempo, viviam-se dificuldades reais nas zonas rurais. A escassez de alimentos, a dureza do trabalho e a promessa de uma vida melhor contribuíam para uma transformação visceral da sociedade portuguesa.
Não aprofundando aqui as questões históricas nem as político-sociais que nos trouxeram até este estado de desconexão, parece-me importante percebermos uma coisa: as pessoas não fugiram da Terra nem da Natureza. As pessoas fugiram das condições precárias que a sociedade foi criando ao longo dos anos. Para mim, compreender isto fez toda a diferença. Saindo do paradigma de que a terra é má e a vida rural é dura e difícil, consegui, aos poucos, entender que o problema não está na vida no campo, mas, sim, na forma como a abordamos. As respostas a estas questões, fui encontrando ao voltar às minhas raízes, um passo de cada vez.
As pessoas não fugiram da Terra nem da Natureza. As pessoas fugiram das condições precárias que a sociedade foi criando ao longo dos anos.
No meu livro Voltar às Tuas Raízes, não proponho que esse regresso seja feito de um lugar bucólico ou idealizado. Proponho antes uma reconciliação. Uma redescoberta das maravilhas que todos os dias o mundo natural nos oferece e da forma incrível como somos parte dele, tanto quanto uma ave canora ou uma erva daninha.
Como referia no início, não passaram assim tantos anos desde a grande mudança e, por isso, voltar às nossas raízes pode ser mais simples do que parece. Uma das evidências mais claras dessa ligação é a necessidade vital de respeitarmos o nosso ritmo circadiano. Cresci a ouvir o ditado: "deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer".
Muito antes de a ciência explicar a importância do sono, já a sabedoria popular reconhecia que, sem descanso adequado, a saúde e o crescimento ficam comprometidos. Vivemos tão desconectados, debaixo de luzes artificiais e sem tempo para usufruir do tempo… Atarefados, com horários restritos, passamos os dias a cumprir tarefas. Mesmo quando procuramos contacto com a Natureza, fazemo-lo, muitas vezes, com um objetivo utilitário: corer para perder calorias, caminhar porque deve ser. Aos poucos, vamos perdendo uma das mais belas capacidades humanas: a contemplação.
Para voltarmos às nossas raízes, temos primeiro de as compreender. As plantas espontâneas, também chama de ervas daninhas, são, para mim, uma porta de entrada incrível para esse caminho de compreensão. Ainda nas nossas vidas atarefadas, é raro pararmos para apreciar verdadeiramente o que nos rodeia. O mundo verde é uma dessas partes da nossa existência que, tantas vezes, negligenciamos e que, culturalmente, fomos ensinados a menosprezar. No entanto, muitas das plantas que hoje chamamos daninhas fizeram parte da farmácia natural da Humanidade durante milénios.
Mesmo quando procuramos contacto com a Natureza, fazemo-lo, muitas vezes, com um objetivo utilitário: correr para perder calorias, caminhar porque deve ser. Aos poucos, vamos perdendo uma das mais belas capacidades humanas: a contemplação.
Das urtigas ao dente-de-leão, passando pelas silvas e pelos verbascos, o mundo vegetal brinda-nos todos os dias com ensinamentos maravilhosos. Embora hoje não o tenhamos tão presente, foram estas plantas que ajudaram os nossos antepassados a ultrapassar doenças, mal-estar e períodos de fome. Quando nos permitimos conhecer melhor este mundo verdejante e florido, o deslumbramento acontece inevitavelmente. Assim que começamos a querer nomear o que nos rodeia, percebemos que não há nada de anónimo na Natureza. E quando procuramos compreender melhor estas plantas, descobrimos que a grande maioria é comestível, medicinal ou ecologicamente importante. Este é, para mim, um dos primeiros passos para fazermos as pazes com o mundo natural. É mudar a nossa mentalidade de "a erva daninha que me quer prejudicar’", para "afinal, a Terra dá-me tudo de que preciso".
Esta mudança de perspetiva é também um convite ao abrandamento. No fundo, grande parte da correria em que vivemos nasce do medo, da desconfiança e da sensação permanente de escassez. Nessa correria, vamos perdendo o essencial e destruindo aquilo que, de facto, nos sustenta: a Terra.
Quando comecei esta jornada, em 2016, fui até à serra da Estrela, na esperança de aprender com as gentes mais velhas. Infelizmente, vi-me defraudada nessa busca. Foram os livros que acabaram por me acompanhar. Livros sobre plantas, sobre o campo, sobre as vivências rurais e sobre conhecimentos antigos que quase se perderam. Foi através deles que encontrei espaço para a contemplação e para o abrandamento. Lembro-me tão bem da sensação de chegar a um lameiro nas margens do rio Zêzere e, de repente, ver quase todas as plantas que estavam nos livros que me acompanhavam há anos!
Hoje, continuo a acreditar que é entre a leitura, a observação da Natureza e a experiência direta e a memória dos que vieram antes de nós que podemos, de forma consciente, Voltar às Nossas Raízes.
Fica, então, o convite para regressarmos, um passo de cada vez. Não ao movimento tresloucado que vivemos hoje em dia, sempre a correr para a próxima meta, mas ao movimento de voltarmos às nossas raízes, aceitamos o convite da Terra e reencontrarmos uma forma mais profunda de estarmos ligados a ela e, por consequência, a nós próprios. Um convite que parte do conhecimento que advém da experiência de quem se deu à Terra e à Natureza por inteiro nos últimos dez anos.
Hoje, continuo a acreditar que é entre a leitura, a observação da Natureza e a experiência direta e a memória dos que vieram antes de nós que podemos, de forma consciente, Voltar às Nossas Raízes.
Receita de Protetor Solar
Para fazermos um protetor solar, alguns óleos que podem ser úteis e potenciar o efeito de proteção solar são, por exemplo: óleo macerado de cenoura, óleo de calêndula, azeite, óleo de coco. Para esta receita, vamos usar apenas azeite, mas poderíamos substituir a mesma quantidade por qualquer um dos óleos acima referidos (com exceção do óleo de coco que, por ser mais denso, não deve ser utilizado sozinho).
Ingredientes:
• 50 g de azeite
• 8 g de cera de abelha
• 15 g de óxido de zinco
Como fazer:
1. Para a base, leva o azeite e a cera de abelha ao lume em banho-maria. Assim que tudo estiver derretido, desliga e retira do lume.
2. Junta o óxido de zinco quando a preparação estiver ligeiramente arrefecida.
3. Mistura bem e aplica na pele uns momentos antes da exposição solar.
O óxido de zinco é um mineral que protege o nosso corpo das radiações solares ao refletir os raios UVA e UVB, que podem ser prejudiciais à nossa saúde. O óxido de zinco também é um ingrediente comum nos cremes muda-fraldas e em fórmulas indicadas para peles sensíveis, porque apresenta características anti-inflamatórias.
Alice da Montanha
Nascida entre o Tâmega e o Ovelha, com olhos no Marão, Alice da Montanha cresceu no campo até aos 18 anos. Formou-se em Belas Artes, no Porto (2011–2016), com uma passagem por Itália, onde despertou para a saúde natural. Em 2016, com o marido, trocou a cidade pelo campo para aprender agricultura sustentável. Especializou-se em Naturopatia e Fitoterapia, unindo as plantas à arte. Mãe de dois filhos, com o terceiro a caminho, vive numa quinta, onde dá cursos online e presenciais de herbalismo.