Tudo começou com uma ausência inesperada. Quando a americana Lilly Parla percebeu, já no aeroporto, que tinha deixado o telemóvel para trás, não teve outra opção senão embarcar sem ele. Apesar da ansiedade inicial provocada pela falta de contacto, acabou por passar cinco dias no Arizona sem notificações, mensagens ou ecrãs. Em vez disso, aprendeu a tricotar com o avô.
Por essa mesma altura, no outro lado do Atlântico, a neerlandesa Joëlle Hartog chegava a uma conclusão semelhante. Ao definir os seus objetivos pessoais para o ano, apercebeu-se de que muitos deles passavam por uma ideia simples: passar menos tempo ligada ao telemóvel e mais tempo presente no mundo à sua volta.
As duas mudaram-se para Lisboa há cerca de três anos e meio e conheceram-se por acaso enquanto tratavam da documentação necessária para viver em Portugal. Por total serendipidade, descobriram que moravam praticamente na mesma rua e tornaram-se imediatamente amigas. Quando souberam que o The Offline Club procurava representantes para lançar programas na capital portuguesa, decidiram, sem hesitação, candidatar-se.
O projeto consiste numa pequena iniciativa nascida nos Países Baixos, que rapidamente se expandiu para outras localizações, alargando de Amsterdão a Londres, Madrid, Berlim, Istambul, e até cruzando o mundo, em Bali. Entre centenas de candidatos, Lilly e Joëlle foram selecionadas para trazer o projeto para Lisboa.
A proposta é simples. O The Offline Club é um movimento que organiza encontros e atividades livres de telemóveis, criando oportunidades para ler, conversar, descansar, desenhar ou simplesmente estar presente, sem a mediação constante dos ecrãs. O interesse revelou-se de imediato. O primeiro encontro em Lisboa esgotou rapidamente, impulsionado pela divulgação nas redes sociais — uma ironia que talvez diga muito sobre o momento atual. Num mundo cada vez mais ligado, há quem procure precisamente o contrário: algumas horas para desligar.
Encontro "Craft Club" em Lisboa, The Offline Club
O sucesso de iniciativas como esta não surge por acaso. Nos últimos anos, a sensação de aceleração constante tornou-se numa das características mais marcantes da vida digital. Notificações, feeds infinitos e a expectativa de disponibilidade permanente fragmentam a atenção e criam a sensação de que estamos sempre a responder ao presente sem verdadeiramente o habitar.
Projetos como o The Offline Club podem ser entendidos simultaneamente como um sintoma e uma resposta cultural a uma das tensões mais marcantes da vida contemporânea: a dificuldade em desacelerar. Num mundo em que o digital se tornou num ambiente permanente de existência — no qual trabalhamos, socializamos, consumimos e até descansamos —, a proposta de estar offline adquire um significado que vai além da simples desconexão tecnológica. Trata-se de uma prática de desaceleração consciente, que procura recuperar uma forma de presença mais atenta ao imediato, menos fragmentada e menos condicionada pela lógica da urgência constante.
Além disso, para muitos, o silêncio, a ausência de estímulo constante e a falta de distração podem ser fontes de forte desconforto — revelando até que ponto a aceleração se tornou um padrão incorporado. Estar “parado” pode ser interpretado como perda de tempo, quando na verdade pode ser uma forma de reconfiguração da perceção. Ao criar contextos em que o desligamento é partilhado e socialmente legitimado, iniciativas como o The Offline Club ajudam a suspender temporariamente essas expectativas e demonstram que desacelerar não precisa de ser um ato solitário.
Talvez seja essa uma das razões para o sucesso crescente deste tipo de encontros. Num tempo em que a rapidez é frequentemente apresentada como inevitável, o The Offline Club recorda que o ritmo a que vivemos não é imutável. Desacelerar não significa fazer menos, mas, antes, recuperar a capacidade de estar plenamente presente naquilo que fazemos. E, para muitos, essa pode ser uma das formas mais raras — e mais valiosas — de liberdade contemporânea. É precisamente neste intervalo que se abre a possibilidade de recuperar algo muitas vezes perdido no digital: a sensação de tempo vivido em vez de tempo consumido.
A proposta também se inscreve numa reflexão mais ampla sobre uma certa “crise da atenção” que se tem vindo a observar. A nossa atenção tornou-se num dos recursos mais disputados da contemporaneidade. Plataformas digitais são especialmente desenhadas para maximizar o tempo de permanência, capturando o utilizador através de mecanismos de recompensa intermitente. Desligar durante algumas horas pode parecer um gesto simples, mas representa uma pequena interrupção num sistema construído para minimizar precisamente essas pausas — não se trata de uma recusa total do sistema, mas uma reconfiguração parcial da forma como nos relacionamos com ele.
As consequências desta dinâmica não se limitam, porém, à gestão da atenção individual. Grande parte da experiência digital contemporânea é mediada por dispositivos que, apesar de nos conectarem, também filtram e estruturam essa ligação. Conversamos através de ecrãs, reagimos através de emoji, organizamos encontros através de aplicações. Nada disto é intrinsecamente negativo, mas cria uma forma de relação que pode tornar-se altamente eficiente e, ao mesmo tempo, emocionalmente rarefeita. O The Offline Club, ao propor encontros offline, reintroduz a imprevisibilidade do encontro presencial: o olhar, o silêncio partilhado, a hesitação, a conversa que não é editada nem otimizada por algoritmos ou correções automáticas.
É precisamente aqui que a desaceleração deixa de ser apenas uma prática individual para assumir uma dimensão coletiva. Muitas pessoas não sentem dificuldade em desligar apenas por hábito ou dependência tecnológica, mas porque o próprio ambiente social incentiva a disponibilidade permanente. A expectativa de resposta imediata, a cultura da produtividade contínua e a ideia de que devemos estar sempre acessíveis tornam o descanso algo que parece precisar de justificação — ou merecimento.