'Yesteryear': o século XIX não tem filtros

Por: Raquel Fonseca a 2026-07-17

Caro Claire Burke

Caro Claire Burke

Caro Claire Burke tem uma licenciatura da Universidade da Virgínia e um mestrado do Bennington College. É coapresentadora do podcast de política e cultura Diabolical Lies. Yesteryear é o seu romance de estreia.

VER +

10%

Revista Somos Livros n.º 43 - Verão 2026
0,01€ 0,01€
PORTES GRÁTIS

10%

Yesteryear
18,85€ 16,97€
PORTES GRÁTIS

10%

Carrie
17,70€ 15,93€
PORTES GRÁTIS

30%

Em Parte Incerta
9,00€
30% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

20%

Gone Girl
14,86€ 11,89€
PORTES GRÁTIS

Temos de admitir: a proposta de voltar às origens é cada vez mais sedutora. Com rotinas diárias regidas por luzes fluorescentes mais do que pelo ritmo do sol, e presos a vícios, aparentemente incuráveis, nos nossos telemóveis, não há ritmo circadiano que aguente. A desconexão com o mundo natural e a sensação de que algo está errado é cada vez mais difícil de sacudir.

Perante esta crise, a narrativa romântica que se monta em vários quadrantes da vida pública é de que já nada é como antigamente: as refeições não são feitas de raiz, compram-se no supermercado; as crianças já não passam tempo com os pais (e, crucialmente, com as mães), e, pior, vivem vidas tristes nos meios urbanos, sem a experiência de correr pelas colinas selvagens, livres e cheias de vigor. Também já não são educadas como dantes, e o cíclico desprezo pelas gerações mais novas ganha aqui uma dimensão algo tenebrosa, de saudosismo por infâncias mais disciplinadas. O que apetece (a alguns), perante um mundo cada vez mais intangível, é voltar ao que está provado que resulta (para alguns): o modo de vida baseado em tradições ancestrais — ou a nossa melhor fantasia sobre o que isso significa.

É exatamente esta tendência, materializada nas redes sociais com o crescimento do conteúdo dito trad (diminutivo de “tradicional”), que serve de premissa a Caro Claire Burke na construção do alucinante e viciante Yesteryear. A protagonista e narradora do livro, Natalie Heller Mills, é, de forma mais ou menos assumida, uma tradwife cristã. Este termo, central no livro de Burke, é uma aglutinação popular do termo trad com a palavra wife (esposa), utilizado depreciativamente pelos críticos do movimento tradicionalista. Natalie vive uma vida retro, na sua quinta pitoresca num vale do Idaho, com os seus cinco adoráveis filhos, o galinheiro onde vai buscar ovos frescos todas as manhãs, um marido provedor (leia-se, rico) e uma cozinha rústica onde prepara pão de massa-mãe perfeito.

O que apetece (a alguns), perante um mundo cada vez mais intangível, é voltar ao que está provado que resulta (para alguns): o modo de vida baseado em tradições ancestrais — ou a nossa melhor fantasia sobre o que isso significa.

Mas será que a Mrs. Mills vive realmente da forma que apregoa? A realidade é um pouco diferente. Por detrás dos armários rústicos, escondem-se todos os luxos da vida moderna: micro-ondas, máquina de lavar loiça, aquecimento elétrico, provavelmente uma air fryer… e todos os meses a matriarca peregrina ao hipermercado Target, qual caçadora-recolectora da América moderna. Na quinta Yesteryear, além da impecável família nuclear, moram duas amas, muitos trabalhadores agrícolas e uma produtora. Produtora? Sim, porque parte do dia a dia desta família tradicional inclui a gravação de horas de conteúdo para a conta de Natalie, seguida por milhões nas redes sociais, e é preciso ajuda para o editar. Se ninguém filmou a manteiga a ser batida, será que realmente foi batida? Natalie não quer correr riscos.

O livro de Burke não se limita, no entanto, a satirizar a hipocrisia da vida moderna: a história é alavancada por uma reviravolta ironicamente deliciosa (para quem tiver o hábito de ficar feliz com o infortúnio alheio). Um dia, Natalie acorda de manhã e algo está errado. “Está um frio de rachar!”, “A luz foi-se abaixo.” — pensa a nossa protagonista. “Porque é que o gerador não está a funcionar?” A dada altura, apercebe-se, com profundo horror, de que se encontra numa realidade alternativa da sua quinta, com versões quase idênticas dos seus filhos e marido. E esta versão aparenta estar congelada no século XIX.

Num ambiente esquálido e escuro, rodeada de pessoas que não são bem a sua família, mas que insistem que ela é a deles, entra em pânico. Tenta fugir, sem sucesso, e, no processo, enfrenta a raiva do seu “marido”: agora, está num matrimónio verdadeiramente à antiga. Valores pró-natalidade, obediência cega e muitas, muitas tarefas domésticas, repartidas entre ela e as filhas. Lavar a roupa faz os seus dedos sangrarem, o pão de massa-mãe nunca sai bem. Os dias passam e o desespero cresce, assim como a inquietação. Estará num reality show? Será um castigo divino?

A linha temporal novecentista é intercalada com o presente. É contada a história do casamento impulsivo com Caleb, que se revela uma união incompatível. Testemunhamos a naturalmente dominante e estoica Natalie a refletir que seria mais feliz se tivesse “nascido homem”. Em contrapartida, Caleb viveria um papel mais tradicionalmente feminino sem grande dificuldade — para horror da esposa, o sonho dele é ser educador de infância. Natalie quer obedecer ao marido, mesmo que este não esteja interessado em mandar nela. Podiam complementar-se, mas, tragicamente, sair da convenção dos padrões de género está fora de questão.

Na sua “nova” vida, Natalie tem a oportunidade de repensar o quanto quer realmente viver assim. Mais do que o artifício da aparente viagem no tempo, a construção desta personagem é o coração de Yesteryear. A juventude marcada pela exclusão, evocativa de Carrie, de Stephen King, prepara o terreno para o fervor calculista com que planeia a sua vida — valendo-lhe, em algumas recensões ao livro, comparações a Amy Dunne, de Em Parte Incerta (Gone Girl, no título original). Natalie não é uma tradwife cliché: conhece o marido enquanto estuda Teologia em Harvard, com uma bolsa conseguida a muito custo. Nessa universidade, julga as suas colegas não apenas pelo comportamento libertino, mas pela falta de inteligência, espírito e propósito que lhes atribui.

É com uma destas colegas, Reena, que desenvolve uma ligeira obsessão. Muito depois da faculdade, fantasia sobre o que ela estará a fazer em cada momento, o quão deprimente a sua vida em Nova Iorque deve ser e quanto invejaria o seu dia a dia bucólico. Imagina que a ex-colega a observa. A performance para um público invisível é recorrente: quando Natalie tem a sua primeira filha, e expressa à sua mãe que se sente incapaz de lidar com o que tanto quis, a mãe explica-lhe que, nestes momentos, “imaginava que estava a ser observada”, acrescentando: “Quem é o nosso Senhor e Salvador senão o membro original da audiência das nossas vidas?” (p. 168).

Assim, a verdadeira reviravolta de Yesteryear é de que a vida de Natalie é uma fabricação desde o início, independentemente da realidade da sua travessia temporal. O romance de estreia de Burke oferece-nos uma análise perspicaz da condição feminina, humanizando o ponto de vista de uma mulher com quem geralmente hesitaríamos em nos identificarmos. A premissa é forte: mesmo antes de o livro sair, Anne Hathaway já estava a licitar sobre os direitos da adaptação, que ganhou. A adaptação cinematográfica, protagonizada por esta atriz, deverá chegar nos próximos anos.

Caro Claire Burke

Caro Claire Burke tem uma licenciatura da Universidade da Virgínia e um mestrado do Bennington College. É coapresentadora do podcast de política e cultura Diabolical Lies. Yesteryear é o seu romance de estreia.


Artigo publicado na edição de verão de 2026 da revista Somos Livros. Disponível online ou em qualquer uma das nossas livrarias.

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?

O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.