Temos de admitir: a proposta de voltar às origens é cada vez mais sedutora. Com rotinas diárias regidas por luzes fluorescentes mais do que pelo ritmo do sol, e presos a vícios, aparentemente incuráveis, nos nossos telemóveis, não há ritmo circadiano que aguente. A desconexão com o mundo natural e a sensação de que algo está errado é cada vez mais difícil de sacudir.
Perante esta crise, a narrativa romântica que se monta em vários quadrantes da vida pública é de que já nada é como antigamente: as refeições não são feitas de raiz, compram-se no supermercado; as crianças já não passam tempo com os pais (e, crucialmente, com as mães), e, pior, vivem vidas tristes nos meios urbanos, sem a experiência de correr pelas colinas selvagens, livres e cheias de vigor. Também já não são educadas como dantes, e o cíclico desprezo pelas gerações mais novas ganha aqui uma dimensão algo tenebrosa, de saudosismo por infâncias mais disciplinadas. O que apetece (a alguns), perante um mundo cada vez mais intangível, é voltar ao que está provado que resulta (para alguns): o modo de vida baseado em tradições ancestrais — ou a nossa melhor fantasia sobre o que isso significa.
É exatamente esta tendência, materializada nas redes sociais com o crescimento do conteúdo dito trad (diminutivo de “tradicional”), que serve de premissa a Caro Claire Burke na construção do alucinante e viciante Yesteryear. A protagonista e narradora do livro, Natalie Heller Mills, é, de forma mais ou menos assumida, uma tradwife cristã. Este termo, central no livro de Burke, é uma aglutinação popular do termo trad com a palavra wife (esposa), utilizado depreciativamente pelos críticos do movimento tradicionalista. Natalie vive uma vida retro, na sua quinta pitoresca num vale do Idaho, com os seus cinco adoráveis filhos, o galinheiro onde vai buscar ovos frescos todas as manhãs, um marido provedor (leia-se, rico) e uma cozinha rústica onde prepara pão de massa-mãe perfeito.
O que apetece (a alguns), perante um mundo cada vez mais intangível, é voltar ao que está provado que resulta (para alguns): o modo de vida baseado em tradições ancestrais — ou a nossa melhor fantasia sobre o que isso significa.
Mas será que a Mrs. Mills vive realmente da forma que apregoa? A realidade é um pouco diferente. Por detrás dos armários rústicos, escondem-se todos os luxos da vida moderna: micro-ondas, máquina de lavar loiça, aquecimento elétrico, provavelmente uma air fryer… e todos os meses a matriarca peregrina ao hipermercado Target, qual caçadora-recolectora da América moderna. Na quinta Yesteryear, além da impecável família nuclear, moram duas amas, muitos trabalhadores agrícolas e uma produtora. Produtora? Sim, porque parte do dia a dia desta família tradicional inclui a gravação de horas de conteúdo para a conta de Natalie, seguida por milhões nas redes sociais, e é preciso ajuda para o editar. Se ninguém filmou a manteiga a ser batida, será que realmente foi batida? Natalie não quer correr riscos.
O livro de Burke não se limita, no entanto, a satirizar a hipocrisia da vida moderna: a história é alavancada por uma reviravolta ironicamente deliciosa (para quem tiver o hábito de ficar feliz com o infortúnio alheio). Um dia, Natalie acorda de manhã e algo está errado. “Está um frio de rachar!”, “A luz foi-se abaixo.” — pensa a nossa protagonista. “Porque é que o gerador não está a funcionar?” A dada altura, apercebe-se, com profundo horror, de que se encontra numa realidade alternativa da sua quinta, com versões quase idênticas dos seus filhos e marido. E esta versão aparenta estar congelada no século XIX.
Num ambiente esquálido e escuro, rodeada de pessoas que não são bem a sua família, mas que insistem que ela é a deles, entra em pânico. Tenta fugir, sem sucesso, e, no processo, enfrenta a raiva do seu “marido”: agora, está num matrimónio verdadeiramente à antiga. Valores pró-natalidade, obediência cega e muitas, muitas tarefas domésticas, repartidas entre ela e as filhas. Lavar a roupa faz os seus dedos sangrarem, o pão de massa-mãe nunca sai bem. Os dias passam e o desespero cresce, assim como a inquietação. Estará num reality show? Será um castigo divino?
A linha temporal novecentista é intercalada com o presente. É contada a história do casamento impulsivo com Caleb, que se revela uma união incompatível. Testemunhamos a naturalmente dominante e estoica Natalie a refletir que seria mais feliz se tivesse “nascido homem”. Em contrapartida, Caleb viveria um papel mais tradicionalmente feminino sem grande dificuldade — para horror da esposa, o sonho dele é ser educador de infância. Natalie quer obedecer ao marido, mesmo que este não esteja interessado em mandar nela. Podiam complementar-se, mas, tragicamente, sair da convenção dos padrões de género está fora de questão.
Na sua “nova” vida, Natalie tem a oportunidade de repensar o quanto quer realmente viver assim. Mais do que o artifício da aparente viagem no tempo, a construção desta personagem é o coração de Yesteryear. A juventude marcada pela exclusão, evocativa de Carrie, de Stephen King, prepara o terreno para o fervor calculista com que planeia a sua vida — valendo-lhe, em algumas recensões ao livro, comparações a Amy Dunne, de Em Parte Incerta (Gone Girl, no título original). Natalie não é uma tradwife cliché: conhece o marido enquanto estuda Teologia em Harvard, com uma bolsa conseguida a muito custo. Nessa universidade, julga as suas colegas não apenas pelo comportamento libertino, mas pela falta de inteligência, espírito e propósito que lhes atribui.
É com uma destas colegas, Reena, que desenvolve uma ligeira obsessão. Muito depois da faculdade, fantasia sobre o que ela estará a fazer em cada momento, o quão deprimente a sua vida em Nova Iorque deve ser e quanto invejaria o seu dia a dia bucólico. Imagina que a ex-colega a observa. A performance para um público invisível é recorrente: quando Natalie tem a sua primeira filha, e expressa à sua mãe que se sente incapaz de lidar com o que tanto quis, a mãe explica-lhe que, nestes momentos, “imaginava que estava a ser observada”, acrescentando: “Quem é o nosso Senhor e Salvador senão o membro original da audiência das nossas vidas?” (p. 168).
Assim, a verdadeira reviravolta de Yesteryear é de que a vida de Natalie é uma fabricação desde o início, independentemente da realidade da sua travessia temporal. O romance de estreia de Burke oferece-nos uma análise perspicaz da condição feminina, humanizando o ponto de vista de uma mulher com quem geralmente hesitaríamos em nos identificarmos. A premissa é forte: mesmo antes de o livro sair, Anne Hathaway já estava a licitar sobre os direitos da adaptação, que ganhou. A adaptação cinematográfica, protagonizada por esta atriz, deverá chegar nos próximos anos.
Caro Claire Burke
Caro Claire Burke tem uma licenciatura da Universidade da Virgínia e um mestrado do Bennington College. É coapresentadora do podcast de política e cultura Diabolical Lies. Yesteryear é o seu romance de estreia.