Já sorriu hoje? Todos os anos, na primeira sexta-feira do mês de outubro, assinala-se o Dia Mundial do Sorriso, um dia criado por Harvey Ball, inventor do ícone conhecido como smiley. Celebre-o a sorrir, com três poemas que evocam esta expressão que era, para José Saramago “a manifestação de uma sabedoria profunda” e a “única arma contra o absurdo” (Deste mundo e do outro).
I
parecia uma luz líquida que por vezes surge sem
se pedir (o espaço receio que sobra pelos nossos
olhos) labirinto de coisas parecia o movimento
local da brisa todo o trabalho ave da água liberta.
parecia claro sobre a madeira e por arder em cores
parecia o mundo em certos dias mas o som crescia:
as velas libertas deixavam sinais da longa espera
das flores sobre uma onda de sal madura (e cristal).
nunca a plena transparência do mundo compreenderá
esse sinal (nunca o compreenderá) nunca a plena
memória do mundo poderá compreender esse sinal.
não que cada Verão (cada distância ao coração) seja uma
janela (dois sorrisos) mas nem que mude o sentido das
chuvas sempre os muros serão espuma e o frio: riso
João Luís Barreto Guimarães in Poesia Reunida
II (Teu Sorriso)
Na maneira mais hábil
de sorrires
há o capricho hábil
duma faca
o sentido da lâmina
ou a marca
que deixas no rosto
sem sentires
Maria Teresa Horta in Poesia Reunida
III (O Sorriso)
Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade in O Outro Nome da Terra