“Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia.” Assim escreveu o poeta Eugénio de Andrade “[e]m Louvor das Crianças”, no livro Rosto Precário.
No dia do seu 101º aniversário, recordamo-lo com três poemas do livro Aquela nuvem e outras escrito para os mais novos, com palavras, sons e versos que lhes falam das coisas simples do mundo.
Faz de conta
– Faz de conta que sou abelha.
– Eu serei a flor mais bela.
– Faz de conta que sou cardo.
– Eu serei somente orvalho.
– Faz de conta que sou potro.
– Eu serei sombra em agosto.
– Faz de conta que sou choupo.
– Eu serei pássaro louco,
pássaro voando e voando
sobre ti vezes sem conta.
– Faz de conta, faz de conta.
Andanças do poeta
Pelo céu cor de violeta,
que lindo,
que lindo vai o poeta.
Pôs uma camisa branca
e sapatos amarelos,
as calças agarradinhas
são da feira de Barcelos.
Pelo céu vai o poeta.
Sobe, sobe de bicicleta.
Aquela nuvem
— É tão bom ser nuvem,
ter um corpo leve,
e passar, passar.
— Leva-me contigo.
Quero ver Granada.
Quero ver o mar.
— Granada é longe,
o mar é distante,
não podes voar.
— Para que te serve
ser nuvem, se não
me podes levar?
— Serve para te ver.
E passar, passar.