Três poemas de Eugénio de Andrade para os mais novos

Por: Beatriz Sertório a 2024-01-19

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, nasceu a 19 de janeiro de 1923 no Fundão. Manteve sempre uma postura de independência relativamente aos vários movimentos literários com que a sua obra coexistiu ao longo de mais de cinquenta anos de atividade poética. Revelou-se em 1948, com As Mãos e os Frutos, a que se seguiria, em 1950, Os Amantes sem Dinheiro. Os seus livros foram traduzidos em muitos países e ao longo da sua vida foi distinguido com inúmeros prémios, entre eles o Prémio Camões, em 2001. Morreu a 13 de junho de 2005 no Porto, cidade que o acolheu mais de metade da sua vida.

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“Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia.” Assim escreveu o poeta Eugénio de Andrade “[e]m Louvor das Crianças”, no livro Rosto Precário

No dia do seu 101º aniversário, recordamo-lo com três poemas do livro Aquela nuvem e outras escrito para os mais novos, com palavras, sons e versos que lhes falam das coisas simples do mundo.


Faz de conta

–  Faz de conta que sou abelha.
–  Eu serei a flor mais bela.

– Faz de conta que sou cardo.
– Eu serei somente orvalho.

– Faz de conta que sou potro.
– Eu serei sombra em agosto.

– Faz de conta que sou choupo.
– Eu serei pássaro louco,

pássaro voando e voando
sobre ti vezes sem conta.

– Faz de conta, faz de conta.


Andanças do poeta

Pelo céu cor de violeta,
que lindo,
que lindo vai o poeta.

Pôs uma camisa branca
e sapatos amarelos,
as calças agarradinhas
são da feira de Barcelos.

Pelo céu vai o poeta.
Sobe, sobe de bicicleta.


Aquela nuvem

— É tão bom ser nuvem,
ter um corpo leve,
e passar, passar.

— Leva-me contigo. 
Quero ver Granada.
Quero ver o mar.

— Granada é longe,
o mar é distante,
não podes voar.

— Para que te serve
ser nuvem, se não
me podes levar?

— Serve para te ver.
E passar, passar.

 

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