Embora dedique a rotina dos seus dias à prática da medicina, é nas horas vagas que João Luís Barreto Guimarães se distingue como tradutor e poeta. Nascido no Porto em 1967, publicou o seu primeiro livro de poemas em 1989 (Há violinos na tribo), tendo já dezenas de livros publicados atualmente. Para além de ter recebido o Prémio Criatividade Nações Unidas em 1992, e o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa, foi ainda o vencedor do Prémio Livro de Poesia do Ano Bertrand 2018 com o livro Nómada - a escolha dos nossos livreiros e leitores e foi o primeiro autor não americano a ser reconhecido com o prémio Willow Run Poetry Book Award, pelo livro Mediterrâneo. A propósito do seu aniversário, celebrado hoje, 3 de junho, partilhamos três dos seus poemas.
Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?
in Luz Última
***
O casal da mesa do lado tocou nas palavras durante o
pequeno-almoço. Cumpriu-o indiferente sem incomodar o silêncio,
sem ter provado sequer uma curta vez que fosse do dissabor das
palavras.
O casal da mesa do lado já deve ter dito tudo.
in Poesia Reunida (Quetzal)
***
Só o amor pára o tempo (só
ele detém a voragem)
rasgámos cidades a meio
(cruzámos rios e lagos)
disponíveis para lugares com nomes
impronunciáveis. É preciso conhecer os mapas mais ao acaso
(jamais evitar fronteiras
nunca ficar para trás)
tudo nos deve assombrar como
neve
em Abril. Só o amor pára o tempo só
nele perdura o enigma
(lançar pedras sem forma e o lago
devolver círculos).
in Nómada