Podemos aprender muito sobre uma pessoa a partir da sua biblioteca, mas ainda mais por aquilo que guardam no interior dos seus livros. A este refúgio último dos leitores, dedicou Pedro Mexia este poema. Poeta, crítico e cronista, nascido em Lisboa em 1972, é também um leitor ávido e detentor de uma vasta biblioteca — física e intelectual — que inspirou o ensaio Biblioteca.
Neste dia em que celebra 52 anos, honramos o aniversário de um dos grandes intelectuais portugueses com a leitura de um poema da sua mais recente antologia, Poemas Reunidos (Tinta da China). Uma homenagem às coisas que se escondem no interior dos livros, desde sublinhados e anotações a marcadores e bilhetes de autocarro — para o poeta, “acasos mais importantes que a biografia.”
Dentro dos livros
Dentro dos livros
marcas de quando os lemos.
Bilhetes de cinema,
autocarro, apontamentos
com demasiadas
abreviaturas, folhas
que dizem «não esquecer»
e foram esquecidas.
Nesta tarde li este verso.
O romance na página 89.
Agrupar os eventos
por contiguidade, remissão,
a data muito precisa
destes acasos
mais importantes
que a biografia.