André Carrilho já nos habituou a entrar-nos olhos dentro com as suas ilustrações e cartoons incisivos e provocatórios. Condensa pedaços da nossa realidade em traços cheios de mundo, histórias que são tão verdade que não precisam de palavras para serem contadas.
Lê-se na sinopse de um dos seus livros que “o seu autor é alguém muito lúcido, bem atento à realidade circundante”. Se dúvidas houvesse. Depois de Em Lume Brando (2002), Inércia (2014), Dejá Vu (2016) e Atrito (2019), entre outros, chega este mês às livrarias a vibrante A Menina com os olhos ocupados. A menina com os olhos ocupados não vê a carrinha dos gelados, os cãezitos com que se cruza na rua, os amigos. Nem sequer vê girafas, golfinhos, piratas, discos voadores e montanhas-russas. No dia em que o seu telemóvel se parte, ela levanta a cabeça e descobre o mundo que tem estado à sua espera.
Ao folhearmos estas páginas, a memória tropeça num poema de Nuno Júdice que diz "É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe". A menina somos todos nós, independentemente da nossa idade. Habituámo-nos a dedicar quase todo o espaço dos nossos olhos aos ecrãs que dominam as nossas rotinas, de tal forma que, por vezes, não há espaço para o mundo. E deixamos de ver os diferentes sabores do céu ao fim da tarde, o bailado improvisado dos pássaros, as rugas que nascem nos sorrisos que amamos, o vento a dançar nas árvores, o desconhecido que nos sorri, os amigos que nos sabem de cor. E o mundo, fora dos nossos olhos ocupados, continua o seu ritmo. Fechamos o livro e lembramos a pergunta de Einstein: "Pensas mesmo que a Lua não está lá quando não estás a olhar para ela?"
A menina com os olhos ocupados, de André Carrilho, foi a obra vencedora da 25ª edição do Prémio Nacional de Ilustração, anunciado pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas na passada terça-feira, dia 14 de setembro.