Várias formas de ser mãe

Por: Rita Caetano a 2024-06-26

Guadalupe Nettel

Guadalupe Nettel

Guadalupe Nettel, nasceu na Cidade do México, em 1973, estudou Línguas e Literaturas Hispânicas e, em 2008, concluiu um doutoramento em Ciências da Linguagem na EHECS de Paris. É membro do Sistema Nacional de Creadores de Arte mexicano, autora de três livros de contos e do romance El huésped, finalista do Prémio Herralde, em 2005. Foi traduzida em francês, holandês, alemão, inglês, checo, esloveno e sueco. Os seus livros obtiveram vários prémios como o Antonin Artaud e o Anna Seghers.

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Três mulheres que vivem a maternidade de forma diferente são as protagonistas do novo romance de Guadalupe Nettel, um dos nomes incontornáveis da nova literatura da América Latina. A história verídica de uma amiga, que descobriu que a sua filha não sobreviria ao parto, foi o ponto de partida para um livro incisivo e muito atual que nos faz pensar nos tabus que ainda persistem na vida das mulheres e nas relações com quem as rodeia. Mas este é também um livro sobre a força da amizade e do suporte que as mulheres podem ser umas para as outras, mesmo quando as opiniões sob determinado tema divergem. 
 

A maternidade pode ter muitas faces esta é a mensagem principal do livro A Filha Única, finalista do Booker Internacional 2023. Mas, nele, Guadalupe Nettel, um dos nomes grandes da nova geração de escritores da América Latina, aborda também temas como a amizade, aquilo que a sociedade espera de uma mulher, as relações com os outros, o medo da perda, os desafios que os filhos impõem aos pais e os sentimentos de culpa através da história de três mulheres: Laura, Alina e Doris, personagens fortes e tão humanas como nós. Ainda que a sociedade continue a romantizar a maternidade, ela tem pouco de cor-de-rosa e pode ser mesmo um grande fardo, e a autora salienta isso de forma inequívoca. “Em A Filha Única, Guadalupe Nettel retrata com grande veracidade a vida tal como a encontramos no dia-a-dia, levando-nos ao coração das únicas coisas que realmente importam: a vida, a morte e as nossas relações com os outros. Tudo isso está contido na experiência da maternidade, que este romance explora e profunda”, realça a escritora francesa Annie Ernaux, que tanto tem escrito sobre a vida das mulheres de forma sublime. 
 

No centro da trama, está Laura, que é também a narradora que nos dá a conhecer as outras duas. Laura não quer ter filhos e diz-nos isso logo no início do livro: “Durante anos, tratei de convencer as minhas amigas de que reproduzirmo-nos era um erro irreparável. Dizia-lhes que um filho, por muito terno e doce que fosse nos momentos bons, representaria sempre um limite à sua liberdade, um peso económico, para não falar do desgaste físico e emocional que causam: nove meses de gravidez, outros seis ou mais de amamentação, muitas noites sem dormir durante a infância, e depois uma angústia constante ao longo da adolescência.” Alertando ainda para o facto de a sociedade obrigar as mulheres, e não os homens, a cuidar dos filhos e isso significa muitas vezes sacrificar a carreira, as atividades solitárias, o erotismo e o próprio casal.
 

Para Laura, a decisão está tomada, tanto que, quando o ex-namorado começou a falar de ter filhos, laqueia as trompas para não correr riscos. No seu regresso à Cidade do México, sugere a Alina, a sua grande amiga que conheceu em Paris, que faça o mesmo. Mas a antes partidária dessa mesma visão da vida, mudou de ideias e confessa a Laura que está a tentar engravidar e que, para o conseguir, põe até a hipótese de fazer uma inseminação artificial. Num primeiro momento, Laura sente-se traída e acha que é o fim da amizade entre as duas, mas não foi isso que aconteceu, e acompanha a gravidez de perto. Tudo corre bem até que, ao oitavo mês, se percebe que o cérebro de Inês não se desenvolveu como deveria. Os médicos não têm dúvidas: a filha de Alina não irá sobreviver ao parto e o casal entra num processo de luto antes do nascimento. Não querendo levantar muito o véu, dizemos-lhe apenas que a bebé sobrevive. Para saber mais, terá de ler o livro... 
 

Olhemos agora para Doris, a braços com uma depressão e uma sombra do que foi no passado, quando encantava com a sua voz. É a vizinha de Laura, viúva e mãe de uma criança problemática de 8 anos, pela qual a narradora começa a sentir algum carinho, apesar de não gostar de crianças. São os gritos, os insultos do pequeno à mãe e os estrondos de coisas a partir que a fazem reparar naquela família peculiar e bater à sua porta. Descobre, então, que Nicolás trata a mãe de forma violenta, repetindo o que viu o pai fazer e que Doris não tinha força para combater esse destino de violência tão comum a tantas mulheres por este mundo fora. O descontrolo que se vivia naquela casa faz com que Laura assuma um papel maternal para ambos, sobretudo para o pequeno. Sem perceber bem como, começa a cozinhar para ele, a levá-lo ao parque e a cuidar dele. Mais uma vez a autora realça a amizade entre mulheres na relação entre Laura e Doris. 
 

A Filha Única, livro que surpreende e se lê de uma assentada só, dá-nos a conhecer três mulheres de grande densidade emocional. Com uma escrita direta, Guadalupe Nettel conta-nos a vida como ela é, sem subterfúgios. Da obrigatoriedade da maternidade à ideia de mãe perfeita; da violência doméstica à critica a quem não quer ser mãe, da vida à morte, o livro bate em vários tabus da sociedade associados ao sexo feminino. 
 

Banda Sonora

Enquanto lê A Filha Única, aconselhamos a ouvir as músicas que vão sendo mencionadas na história, a saber: Should I Stay or Should I Go, dos The Clash; Here Comes Your Man, dos Pixels; Happy Together, dos The Turtles; Coleur Café, de Serge Gainsbourg. 

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