Sujata Bhatt é uma poetisa de muitas culturas: nesta entrevista, fala das suas viagens e da forma como influenciaram a sua escrita, e concede-nos acesso ao “mundo privado e interior” da escrita de poemas. Esta entrevista foi realizada pela The Poetry Archive: a única instituição filantrópica dedicada exclusivamente à produção, aquisição e preservação de gravações em que poetas de relevo recitam a própria poesia. Além disso, possui um extenso arquivo de material suplementar e de apoio sobre poetas e respetivas obras.
Porque é a poesia importante para si?
Creio que a poesia é importante porque enriquece o nosso ser interior. Pessoalmente, não consigo imaginar viver sem ler, nem sem escrever poesia, por isso, para mim, a poesia é tão importante como o oxigénio ou a água. Não consigo encontrar um valor utilitário para a poesia; não posso afirmar, nem acho que alguém possa, que a poesia vai curar o cancro ou pagar as minhas contas, mas oferece algo que não é mensurável.
Como começa a planear um novo poema?
No meu caso, o começo de um poema varia sempre. Às vezes, pode ser uma imagem, algo com que sonho ou algo que presencio. Também pode começar com um verso: muitas vezes, tenho o primeiro verso de um poema e não sei aonde me levará, mas, geralmente, se escrever o verso e me concentrar nele, ocorrem-me outros versos com que posso trabalhar. Por vezes, um poema também pode ser inspirado numa peça musical ou numa experiência — por exemplo, viajar já tem levado a poemas inesperados. Por isso, não existe só uma coisa — quase tudo pode inspirar um poema, até ler o jornal. Posso ler sobre algo a que posso dar resposta com um poema.
(...) Sinto-me estrangeira onde quer que esteja, e acho que esse sentimento me dá uma perspetiva diferente da vida e de qualquer cultura, incluindo a minha.
Qual é a relação entre a voz que utiliza para falar e a voz que utiliza na escrita?
Acho que há um tipo de diálogo que pode ser alcançado na escrita que não é atingível na fala, e, naturalmente, a poesia utiliza ainda metáforas e nuances subtis de linguagem que não costumam surgir quando falamos. Creio que, quando estamos a escrever, ou quando eu estou a escrever, estou quase em transe, e não estou ciente de onde as palavras ou imagens vêm, simplesmente, surgem, por isso, não penso nelas de forma consciente. Acho que, num poema, entramos num mundo muito privado e interior que permite tratar os temas mais íntimos, ou aludir a eles, e creio que uma conversa não permite alcançar esse estado de quietude ou concentração.
Lê os poemas em voz alta quando os está a escrever?
Sim, leio — leio os meus poemas em voz alta quando os estou a escrever, aliás, preciso de o fazer para perceber se o poema está a funcionar ou como está a evoluir. Quando termino o primeiro rascunho, tenho de me ouvir a lê-lo para ver como soa e se tropeço nalguma parte; depois, também gosto de o ler a uma pessoa amiga, para que ela também possa escutar os sons, e pode ser que ouçam algo que me escapou. No meu caso, o som, o significado e o tom do poema, além do tema, todos esses elementos se juntam organicamente. Quando um poema está a funcionar bem, e eu atinjo aquele nível de concentração que resulta na escrita de um poema, tudo sai mais ou menos da forma como eu quero, quando está mesmo a funcionar, e chego a ritmos e sons inesperados nos quais não tinha pensado. Claro que, às vezes, tenho de o aperfeiçoar, mas a matéria-prima já lá está ao meu dispor.
Porque opta por escrever em inglês?
Escrevo em inglês porque o inglês se tornou na minha língua. Em criança, na Índia, andei num colégio inglês, e também viajava muito entre os Estados Unidos e a Índia. Por isso, na verdade, aprendi inglês pela primeira vez nos Estados Unidos, quando tinha cinco anos; pouco tempo depois, regressei à Índia, onde continuei a frequentar um colégio inglês; é por isso que escrevo em inglês. A minha língua materna é o gujarate, e, em alguns dos meus poemas, misturei gujarate e inglês, por diversos motivos que têm mais que ver com o poema em si do que com qualquer outra coisa. Ou talvez o poema reflita a forma como penso, ou reflita determinada parte da minha vida; por isso, nalguns poemas, utilizei ambas as línguas, mas sinto mesmo que o inglês é a minha língua, como acontece com muitos outros escritores indianos.
De que modo as várias culturas influenciam a sua obra?
A minha obra é um reflexo da minha vida, por isso, aquilo que vivi e testemunhei permeia os meus poemas. Por exemplo, se tivesse vivido a vida toda na Índia e nunca tivesse saído do país, os meus poemas seriam muito diferentes. Não teria escrito sobre a Alemanha, não teria escrito sobre Itália, ou Inglaterra ou os Estados Unidos, nem teria escrito sobre experiências que aconteceram nesses lugares, por vezes, nas paisagens naturais desses países. Sinto-me estrangeira onde quer que esteja, e acho que esse sentimento me dá uma perspetiva diferente da vida e de qualquer cultura, incluindo a minha. Por isso, sim, as minhas viagens e ter vivido em tantos lugares diferentes marcaram e influenciaram muito a minha escrita.
Assista ao vídeo original da entrevista:
Conteúdo da entrevista © The Poetry Archive, utilizado com a autorização de The Poetry Archive:
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