O último mês de 2024 trouxe a notícia do falecimento de uma das vozes mais marcantes da poesia portuguesa contemporânea. Nascida Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, a 20 de abril de 1960, em Lisboa, foi sob o pseudónimo Adília Lopes que se tornou conhecida e admirada pelos leitores até ao fim dos seus dias, a 30 de dezembro de 2024. A poetisa, cronista e tradutora tinha 64 anos “adolescentes”, e deixa para trás uma extensa obra poética da qual se destacam títulos como Irmã Barata, Irmã Batata (2000), Manhã (2015), Bandolim (2016), Estar em Casa (2018), Dias e Dias (2020) e Choupos (2023).
No último livro que publicou em vida, Dobra (2024), reuniu toda a sua obra poética, incluindo alguns inéditos, como um derradeiro testemunho de que a sua poesia permanece viva mesmo após a sua partida. Afinal, como escreveu num poema, o plano em que se reinventou definitivamente, a sua história não acaba aqui: “A minha história/ é outra/ e começa agora/ Estou sempre/ a começar”. Recorde a poetisa Adília Lopes em três poemas.
i.
Só gosto das pessoas boas
quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy
sei lá o quê
se não são boas pessoas
não prestam
ii.
Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas
iii.
Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Cesário Verde, O Sentimento dum Ocidental
Se nós não morrêssemos nunca e eternamente
buscássemos e conseguíssemos a alegria aqui