Nome singular da poesia experimental portuguesa, Ana Hatherly faria hoje, dia 8 de maio, 95 anos. Natural do Porto, a sua vasta obra inclui poesia, ficção, ensaio, tradução, performance, cinema e artes plásticas. Mas foi sobretudo pelos seus poemas visuais e pelas suas “tisanas”, pequenos poemas em prosa que foram um trabalho constante da sua vida literária, que ficou conhecida.
Sobre o nome dado a estas divagações em prosa, recentemente reeditadas num único volume pela Assírio & Alvim, explicou a autora: «O que me parece que ainda não foi publicamente dito é que estas pequenas narrativas, que pertencem à área do poema em prosa, têm o título de Tisanas porque considero que são infusões e não efusões.» No dia do seu aniversário, recordamo-la com três excertos do livro Tisanas, que começam como começam os mais belos contos de fadas. Era uma vez…
16.
Era uma vez uma palavra que estava sentada à porta de casa quando passou um rato. Bela palavra diz o rato. Como ia com muita pressa deu-lhe umas dentadas e engoliu-a. Mal. A palavra ficou-lhe atravessada na garganta. Então os dentes começaram-lhe a crescer para dentro.
17.
Era uma vez uma chave que vivia no bolso de um homem. Durante muito tempo desempenhou com honestidade o seu trabalho de abrir portas. Até que um dia descobriu que todo o seu trabalho tinha consistido sempre em abrir portas que já estavam abertas. Quando descobriu isso lançou-se corajosamente para fora do bolso. Caiu no chão. Ficou ali. Passa uma criança vê a chave e diz que coisa tão engraçada para fazer um carrinho.
18.
Era uma vez uma cidade habitada por palavras em que cada uma vivia em sua casa com as portas fechadas mas constantemente se visitavam ou então saíam para a rua e passeando cruzavam-se com as outras palavras e saudavam-se mas com o crescimento progressivo da cidade as palavras quando saíam para a rua começavam a chocar umas com as outras e chocando-se retiravam-se encolerizadas e regressavam a casa mas já não regressavam como haviam saído e dentro de casa aumentavam por um efeito de cólera morosa e lembrando sempre as outras palavras começavam crescendo dentro de suas casas e da próxima vez que saíam para a rua já iam transformadas e quando encontravam outra vez as outras palavras passava-se outra vez a mesma coisa e regressavam a casa e continuam a crescer e sempre em direcções diferentes e cresciam de tal modo que já não conseguiam fechar as portas e novos braços abriam as janelas e a cólera subia pelas paredes e começavam a escavar o tecto e ligadas ao andar de cima entrelaçavam-se à palavra do outro apartamento que também estava encolerizada e já chegava até ao telhado e subia pela antena da televisão e gritava encolerizada com as palavras dos outros prédios já subindo pelo céu acima e toda a cidade estava aos gritos e já não havia mais espaço para as palavras crescerem a não ser emaranhadas umas nas outras e os seus gritos confundiam-se e as palavras estavam todas unidas irremediavelmente e gritavam todas ao mesmo tempo de modo que ao longe era um só grito enorme que mais longe se transformava num sussurro e de muito mais longe até não se ouvia nada.