Em março deste ano, Portugal perdeu aquele que muitos consideravam o maior escritor vivo da língua portuguesa. António Lobo Antunes deixou uma obra que resistirá ao tempo, atravessando géneros literários e universos artísticos.
A edição deste mais recente volume da sua obra, a antologia Livro de Poemas (Leya), é prova disso: reúne textos escritos por Lobo Antunes ao longo dos anos, alguns dos quais foram musicados e cantados por músicos de renome como Carlos do Carmo, Kátia Guerreiro, Cristina Branco e Vitorino. Outros dos poemas editados neste volume provêem de edições originais em volumes singelos, como Letrinhas de Cantigas (editado na Dom Quixote, 2002), Fados: Mulher (Dom Quixote, 2017) e Diálogos (na extinta Escritor, 1998), na qual escreveu para pinturas de José Luís Tinoco.
O poema de abertura do livro foi gentilmente cedido por António Lobo Antunes para o espetáculo António e Maria, com textos da sua autoria adaptados por Rui Cardoso Martins e representação de Maria Rueff, em cena no Teatro Meridional entre 2015 e 2017. Já o soneto No tempo em que de amor viver soía, glosando um poema de Camões, foi apenas divulgado por António Lobo Antunes numa entrevista concedida à imprensa portuguesa em 2017. A intenção deste Livro de Poemas é a de atribuir a todos estes textos uma unidade possível.
Convidamo-lo a ler alguns dos versos selecionados deste tão especial volume, lançado hoje.
VALSA VIENENSE
Porque és o retrato dos meus olhos
Onde as fontes do sol vêm beber
Este mar de setembro azul perfeito
Que nas pedras acaba de morrer.
Porque na noite clara do teu peito
A lua é só um pássaro ferido
E as palavras nascem dos meus dedos
Carregadas de sonho e de sentido.
Porque és a cor dos rios em cada fonte
No silêncio da terra desvelada
Lágrima orvalho pétala horizonte
Onde se abre verde a madrugada.
(pág. 38)
NÃO DISSE NADA AMOR
(bolero)
Não disse nada, amor, não disse nada:
Foi o rio que falou com a minha voz
A dizer que era noite e é madrugada
A dizer que eras tu e somos nós.
A dizer os mil rostos de Lisboa
Ao longo do teu rosto se te beijo.
À luz de um pombo chamo Madragoa
E Bairro Alto ao mar se te desejo.
Não disse nada, amor. Juro, calei-me:
Foi uma voz que ao longe se perdeu.
Cuidei que era Lisboa e enganei-me
Pensei que éramos dois e sou só eu.
(pág. 48)
CANÇÃO PARA A MINHA FILHA ISABEL ADORMECER QUANDO TIVER MEDO DO ESCURO
(berceuse)
Nem sombra nem luz
Nem sopro de estrela
Nem corpinhos nus
De anjos à janela
Nem asas de pombos
Nem algas no fundo
Nem olhos redondos
Espantados do mundo
Nem vozes na ilha
Nem chuva lá fora
Dorme minha filha
Que eu não vou embora
(pág. 54)