Três poemas de Manuel Alegre

Por: Maria João Viegas a 2026-05-12

Manuel Alegre

Manuel Alegre

Manuel Alegre nasceu a 12 de maio de 1936, em Águeda. Estudou em Lisboa, no Porto e na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi campeão de natação e ator do Teatro Universitário de Coimbra (TEUC).
Em 1961 é mobilizado para Angola. Preso pela PIDE, passa seis meses na Fortaleza de S. Paulo, em Luanda, onde escreve grande parte dos poemas do seu primeiro livro, Praça da Canção. Em outubro de 1964 é eleito membro do comité nacional da Frente Patriótica de Libertação Nacional e passa a trabalhar em Argel, na emissora Voz da Liberdade. Regressa a Portugal após o 25 de Abril de 1974.
Dirigente histórico do Partido Socialista desde 1974, foi vice-presidente da Assembleia da República, de 1995 a 2009, e membro do Conselho de Estado.
A sua vasta obra literária, que inclui o romance, o conto, o ensaio, mas sobretudo a poesia, tem sido amplamente difundida e aclamada. Foram-lhe atribuídos os mais distintos prémios literários: Grande Prémio de Poesia da APE-CTT, Prémio da Crítica Literária da AICL, Prémio Fernando Namora e Prémio Pessoa, em 1999. Ao seu livro de poemas Doze Naus foi atribuído o Prémio D. Dinis. Em 2014, recebeu o Prémio Amália da Fundação Amália Rodrigues e, em 2016, o Prémio Vida Literária da APE e o Prémio de Consagração de Carreira da SPA. No mesmo ano, foi atribuído o Grande Prémio de Literatura dst ao seu livro de poemas Bairro Ocidental. Em 2017, foi distinguido com o Prémio Camões e, em 2019, com o Prémio Vida e Obra da SPA. Em 2021, quando recebeu o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa. Memórias Minhas recebeu o Grande Prémio de Literatura Biográfica Miguel Torga APE/CM de Coimbra.

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Celebramos hoje, dia 12 de maio, o nonagésimo aniversário de Manuel Alegre, uma das vozes mais marcantes da literatura portuguesa contemporânea.

Natural de Águeda, o poeta, romancista, e figura incontornável na política portuguesa destacou-se, desde cedo, pelo seu contributo para a oposição e combate à ditadura do Estado Novo. Perseguido pela PIDE e mais tarde exilado em Argel, colaborou com a emissora Voz da Liberdade, ligada à resistência antifascista portuguesa. Retornando a Portugal após o 25 de Abril, contribuiu para a redação da Constituição de 1976, e manteve uma longa carreira política enquanto dirigente do Partido Socialista, chegando a ocupar o cargo de vice-presidente da Assembleia da República e membro do Conselho de Estado, sustentando continuamente uma intervenção cívica que atravessa também a sua escrita.

Com uma vasta obra literária que transcende décadas, profundamente ligada a temas como o amor, a liberdade, a memória e Portugal, a sua escrita continua a tocar e atravessar gerações de leitores, e a ocupar um lugar fundamental na literatura portuguesa. Reconhecido por obras como os seus romances Jornada de África (1989) e Cão Como Nós (2002), tal como os seus versos encontrados em Praça da Canção (1965) e Livro do Português Errante (2001), foi eleito vencedor dos prestigiados Prémio Pessoa em 1999, e o Prémio Camões em 2017.

Para assinalar esta data, homenageamos Manuel Alegre reunindo três dos seus poemas.

Abaixo el-rei Sebastião

É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

— O Canto e as Armas, 1967.

Abril de Abril

Era um Abril de amigo Abril de trigo 
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus 
Abril de novos ritmos novos rumos. 

Era um Abril comigo Abril contigo 
ainda só ardor e sem ardil 
Abril sem adjectivo Abril de Abril. 

Era um Abril na praça Abril de massas 
era um Abril na rua Abril a rodos 
Abril de sol que nasce para todos. 

Abril de vinho e sonho em nossas taças 
era um Abril de clava Abril em acto 
em mil novecentos e setenta e quatro. 

Era um Abril viril Abril tão bravo 
Abril de boca a abrir-se Abril palavra 
esse Abril em que Abril se libertava. 

Era um Abril de clava Abril de cravo 
Abril de mão na mão e sem fantasmas 
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

— Originalmente publicado em 1981; incluído em País de Abril: Uma Antologia, 2014.

Coisa amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

— Coisa Amar (Coisas do Mar), 1976.

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