Portugal de morte a Sul – um roteiro inusitado

Por: Raquel Fonseca a 2025-10-31

Rafaela Ferraz

Rafaela Ferraz

Rafaela Ferraz é escritora e investigadora independente. Licenciada em Criminologia e Mestre em Medicina Legal pela Universidade do Porto, é coautora do livro Death and Funeral Practices in Portugal (Routledge, 2022), uma obra pioneira que oferece uma visão abrangente sobre a evolução das práticas funerárias portuguesas. O seu trabalho tem sido publicado em revistas estrangeiras e nacionais, como Atlas Obscura e Hyperallergic, nos EUA, History Today, no Reino Unido, e Shifter e Almanaque em Portugal. Mantém o podcast O Que Queres Ser Quando Morreres?
Um dos seus primeiros artigos, que investigava a intrigante história da cabeça preservada do assassino Diogo Alves, atingiu estatuto viral.

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Rafaela Ferraz afirma, nas primeiras páginas do seu livro, que não pensa muito na morte. É, no entanto, a morte quem guia a sua viagem em Portugal de Morte a Sul (Quetzal, 2025), pelos vários lugares do nosso país onde podemos contemplar os que já partiram. Mas não vá ao engano: este não é um mero guia turístico com um twist macabro, mas sim uma obra que resulta da pesquisa aprofundada e precisa da autora, investigadora formada em Criminologia e mestre em Medicina Legal — escrita com uma boa dose de humor e irreverência.

A autora, co-autora do livro Death and Funeral Practices in Portugal, da Routledge, e responsável por um museu virtual de pagelas fúnebres, esclarece a sua afirmação inicial com a confissão de que, apesar de não pensar muito na morte, pensa nos mortos. São eles os protagonistas silenciosos deste livro, não aqueles notáveis pelo dramatismo ou excecionalidade da sua morte, mas os que, depois desse inescapável evento, ganharam uma nova vida, um lugar de exposição. 

Aqui incluem-se não só aqueles expostos em grande destaque, mas também os que encontramos nos sítios mais mundanos, como os cemitérios por onde é iniciado este “guia de viagens últimas.” Visitamos também as capelas dos ossos, os locais de culto dos corpos “incorruptos”, e, por fim, vamos numa visita ao museu, conhecer os corpos classificados, estudados e preservados sob o olhar científico. 

Se procura um programa temático para este fim de semana de Halloween, aproveite o Dia de Todos os Santos e, de forma mais pertinente ainda, o Dia dos Finados que se segue, para visitar alguns destes lugares onde a morte não é tabu. Há muito para ver, e por isso preparámos este roteiro para si — nas palavras de Rafaela Ferraz: “o tempo de quem nos espera é longo, mas o nosso é curto.”

 

1. Cemitério da Lapa, Porto

É pelos cemitérios que Rafaela Ferraz inicia o seu guia, contando-nos sobre a história que levou à sua proliferação como o destino derradeiro dos falecidos de qualquer cidade. É uma configuração que podemos tomar por garantida, mas cuja origem remonta a 1835, quando um decreto proibiu os enterros no adro e interiores das igrejas e transferiu os mortos para cemitérios públicos. A mudança, ainda que sanitariamente necessária, transformou o luto: tornou-o menos comunal, mais silencioso e privado.

Estes cemitérios oitocentistas, como Cemitério da Lapa, inseriam-se no movimento do romantismo, com um pendor quase macabro pelo dramatismo, e refletem as desigualdades da cidade dos vivos — os monumentos funerários das elites contrastam com as campas rasas dos mais pobres. tornou menos comunal o luto, pessoas a comprarem campas umas para as outras. A autora menciona também o Cemitério do Prado do Repouso, também no Porto, o mais antigo cemitério público desta cidade, a propósito de uma história comovente sobre uma mulher, alegada trabalhadora do sexo que, em 1868, compra um jazigo perpétuo para outra mulher (amiga, amante, colega… não é sabido), salvando-a de uma campa rasa e anónima num gesto de generosidade.

 

2. Capela dos Ossos, Faro

De seguida, o guia leva-nos ao sul, até à Capela dos Ossos de Faro, anexa à Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. A autora caracteriza, com humor, este conceito como tendo nascido “de uma súbita perceção de que os cadáveres podem ser usados como matéria-prima para uma nova vaga de design de interiores”. Mas, como explorado amplamente no capítulo dedicado as estas capelas, é um pouco mais complicado do que isso. 

As capelas de ossos, que em parte surgem da necessidade de exumar os corpos sepultados nas igrejas para criar espaço para novos defuntos, desafiam o tabu ocidental que mantem os restos mortais longe do nosso olhar: os relatos de visitantes de fé protestante refletem experiências de puro horror. A capela de Faro, com o seu teto vermelho-cereja, decorado com caveiras e motivos florais, foi descrita pelo historiador Paul Koudounaris como “uma das mais estranhas” que alguma vez tinha visto, notável pelo arranjo preciso e ordenado dos ossos, no que autora chama uma “obsessão neoclássica”, aliando o rigor decorativo ao caos da morte.

A autora, contrariando o instinto mais imediato de julgar, elogia os visitantes que tiram selfies junto da parede forrada com caveiras, colocando a sua cabeça entre elas num gesto algo cómico. Segundo ela, estas pessoas têm “a cabeça no lugar”: respondem corretamente à intenção desta e outras capelas dos ossos, a de nos relembrar da nossa mortalidade, e do quão parecidos somos com os que vieram antes de nós e já partiram. Nas célebres palavras que decoram a porta de uma outra célebre capela de ossos portuguesa, a da Igreja de São Francisco, em Évora: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”.

 

3. Capela do Cemitério Paroquial, Arcozelo

De seguida, o roteiro debruça-se sobre os corpos ditos incorruptos, supostamente invulneráveis à corrupção da morte, e que permanecem conservados em perfeição beática. Um exemplo que podemos visitar nos dias de hoje, está numa capela do cemitério da localidade de Arcozelo, perto de Espinho. Aqui podemos visitar Maria Adelaide de São José e Sousa, em carne e osso. A curiosa história da santidade desta mulher , que tem vários vestidos de noiva mas nunca casou, é contada por Rafaela Ferraz, começando pela descoberta da sua incorrupção durante uma exumação rotineira. Desde o coveiro indiferente, até às “beatas motineiras” que fizeram da canonização de Maria Adelaide (não reconhecida pela autoridade da Igreja, mas sim pelo seu culto popular) uma missão fervorosa, vale muito a pena ler. O corpo da “Santinha”, rodeado de 'ex-votos' dos que lhe são fiéis, já não conserva a pureza de outrora, mas é possível prestar-lhe uma visita.

São também mencionados os dois corpos que, durante muito tempo, se encontravam pendurados na capela dos ossos de Évora, e que foram movidos recentemente para sarcófagos de acrílico - possivelmente em coincidência com a descoberta de que pertencem a uma mulher e uma criança, e não a dois homens com associação criminal, como anteriormente se assumia. Com esta associação de pecado em vida, vinha a suposição de que seriam impermeáveis à decomposição e passagem para a próxima vida como castigo, e daí a sua permanência em exposição, algo degradante, na capela. A notícia da recente canonização do jovem italiano Carlo Acutis, o “primeiro santo da geração millenial”, cujo corpo encerado e vestido com a sua sweat e calças de ganga favoritas se encontra exposto na Basílica de Santa Maria Maggiore em Roma, gerou algum debate quanto à imunidade do corpo santo à degradação da morte. A curiosa contradição entre a incorrupção como sinal de virtude, e por outro lado como sinal de pecado (como no caso dos dois cadáveres da capela de Évora) é uma questão há muito discutida, e abordada também por Rafaela Ferraz.


4. Igreja de Santo António dos Congregados, Porto

Continuando pelas igrejas e capelas que colecionam relíquias humanas, consideramos agora a categoria dos chamados “santos catacumbais” — corpos descobertos em catacumbas romanas, utilizadas pelos primeiros cristãos. Foram em grande número descobertos e retirados dos seu sepulcros subterrâneos no século XVI, num período em que a Igreja Católica, fragilizada pela Reforma Protestante, procurava reafirmar o seu esplendor através da materialidade da fé. Nesta secção, a autora faz uma ponte com o livro de fotografia Heavenly Bodies, de Paul Koudounaris, sobre os mártires da Europa Central, cujos ossos brancos e ornamentos dourados despertaram em muitos entusiastas do dark tourism um fascínio pelos santos das catacumbas.

Ferraz destaca a Igreja dos Congregados, no Porto, de frente à estação de São Bento: reza a lenda (e a legenda informativa no local) que ali repousam três papas, os únicos sepultados fora do Vaticano, São Clemente, Santo Eugénio e São Silvério, trajado à romana. As relíquias desta igreja estão dentro de urnas de vidro, e é sobre este último Silvério que a autora se dedica, investigando como é que este "papa" veio parar ao Porto.

Destaca-se também a pequena Capela de Nossa Senhora da Piedade, na Sé do Porto, que guarda as relíquias de Santo Aurélio e São Pacífico (não sendo no entanto possível entrar na capela) e o Palácio Caldas, em Lisboa, cuja capela alberga o corpo de São Vitório, um outro mártir cristão das catacumbas, vestido com todo o brio, com roupas bordadas a fio dourado e prateado.

 

5. Museu de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

O itinerário prossegue para novos palcos, desta vez os museus, cheios de suposta racionalidade. Fazemos a tour do Museu de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (visitável apenas por marcação prévia), onde se encontra o busto e o coração, preservado num frasco de vidro, de Vicente José de Carvalho (1792-1851), um dos fundadores da instituição que viria a ser a Faculdade de Medicina da cidade invicta. As antigas escolas de medicina possuíam salas de dissecação e gabinetes anatómicos meticulosamente organizados, cheios de peças de anatomia patológica, embriologia, preparados de anatomia fisiológica... “orgãos em frascos, portanto”, nas palavras da autora. Com o tempo, alguns destes espaços foram sendo transformados em museus.

O núcleo museológico da Faculdade de Medicina de Lisboa, no Instituto de Anatomia, por exemplo, chegou a colaborar com o Museu Nacional de Arte Antiga em várias exposições, mas hoje só pode ser visitado mediante marcação. Lá repousam, no meio de uma imensidão de espécimes duabiamente obtidos, alguns crânios ilustres (talvez não pelas melhores razões), como os de Francisco Mattos Lobo, Ambrósio da Costa e, claro, Diogo Alves. O célebre “assassino do Aqueduto”, cuja suposta cabeça preservada a autora ajudou a viralizar em 2017, é na verdade apenas um crânio numa estante, apenas osso. A cabeça num frasco, existe de facto, mas a sua identidade não é conhecida.

Ferraz reflete no início do livro, recordando a sua própria experiência universitária em Medicina, sobre o efeito deste contacto íntimo com a morte no contexto médico: “descobrir que afinal tenho um corpo – e que, por isso, tenho algo em comum com todos os cadáveres da Terra.” Um pensamento que contrasta com a curiosidade frenológica do final do século XIX, quando se acreditava poder ler a personalidade de um indivíduo nas protuberâncias do crânio, uma práica que realça as nossas diferenças e não semelhanças após a morte, e uma das motivações para conservar este tipo de specimens.

 

6. Museu Etnográfico da Sociedade de Geografia de Lisboa

Por fim, Ferraz aborda os corpos que se encontram muito longe do lugar em que foram originalmente sepultados, geralmente envoltos numa história colonial. No Museu Etnográfico da Sociedade de Geografia de Lisboa, podemos encontrar cinco ataúdes egípcios, pertencentes a sacerdotisas de Ammon — vazios, sem os corpos. Estas peças, escavadas no túmulo de Bab el-Gassus e inicialmente estudadas no Museu de Gizé, foram distribuídas em 1893 como presentes diplomáticos por dezassete países, entre os quais Portugal. Também no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, é possível visitar três múmias: Irtieru, Pabasa e Sukhetsahor. Este hábito de colecionar restos mumificados egípcios em museus ocidentais reflete a egitomania do século XIX, sendo muitas destas provenientes de coleções privadas, de europeus abastados, de pretensão cosmopolita, e que “se podiam dar ao luxo de possuir um pequeno pedaço do Antigo Egito.”

Também o Museu Nacional de História Natural e da Ciência reflete uma história de domínio imperial, com todas as suas obsessões pela frenologia antropológica. Este museu herdou dois milhões e meio de objetos do Instituto de Investigação Científica e Tropical, uma relíquia do Estado Novo extinta em 2015. O museu tem também a mais antiga coleção de esqueletos identificados em Portugal, recolhida nos cemitérios de Lisboa por Francisco Ferraz de Macedo, médico e antropólogo, o primeiro a criar este tipo de coleções osteológicas, que permitiam cruzar os ossos com os respetivos dados biográficos. Portugal alberga muitas destas coleções, com uma abundância considerada invulgar em proporção com a dimensão do país.

Nesta última secção de Portugal de Morte a Sul, a autora reflete sobre estas coleções de restos morais "dos outros", sobre o que deve ser um museu: de que forma podemos ter em conta o tempo que originou e fez chegar até nós estes materiais, sem descartar o contexto original e aquele em que nos são apresentados hoje? É uma reflexão extremamente importante, especialmente no caso dos vestígios humanos oriundos de territórios colonizados aquando da sua coleção, muitas veses para pesquisa antropológica ao serviço da dominação colonial. Estes seres humanos são desta forma objetificados pela lente desse olhar desumanizante, por vezes até aos dias de hoje. Rafaela Ferraz deixa-nos com uma questão, sobre este tipo de museus, cuja existência depende da exibição de património pertencente a povos colonizados: "Como é que um museu (...) pode estar em comunidade, ou comunicar de forma ética e profissional, se sempre que se move chocalham os bolsos com os ossos de pessoas feitas objetos?" e acrecenta, após algumas páginas: "Para quando uma unificação, uma repatriação, um retorno?"

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