Costuma dizer-se que por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher. E por trás de uma grande obra?
Foi em 1935 que Eileen O'Shaughnessy e Eric Arthur Blair (George Orwell) se conheceram, numa festa, e se apaixonaram de imediato. Depois de uma noite inteira a conversar, conta-se que George Orwell expressou ao anfitrião da festa o seu desejo de casar com Eileen, tendo feito o pedido meras semanas depois. Nascida em South Shields, em Inglaterra, em 1905, aquela que passou ser conhecida como Eileen Blair era licenciada em Literatura Inglesa, pela Universidade de Oxford, e mestre em Psicologia Educacional, tendo trabalhado como revisora e dactilógrafa. Para além disso, também escrevia - sobretudo, poemas - mas abandonou as suas aspirações literárias no momento em que conheceu Orwell.
Desde aí, Eileen voltou os seus esforços para o marido, negligenciado as suas próprias ambições para que o homem que amava e admirava pudesse perseguir as suas. Tendo desistido de uma carreira como psicóloga, devotou, desde então, todo o seu tempo e criatividade a ajudá-lo a tornar-se um escritor de sucesso. Orwell, que, na altura, trabalhava numa livraria em part-time, de modo a conseguir financiar as suas obras, tinha já escrito três romances, mas nenhum deles tinha alcançado o sucesso pretendido. Com a ajuda de Eileen, desistiu finalmente do trabalho na livraria e dedicou-se à escrita a tempo inteiro, tendo publicado a maior parte das suas obras mais importantes durante os anos em que estiveram casados. Para além de dactilografar as suas obras, tratar sozinha da quinta e dos animais que tinham a seu cuidado (os dois tinham, entre outros animais, uma cabra chamada Muriel, como uma das cabras de A Quinta dos Animais), durante os vários períodos em que a saúde débil do marido o obrigava a ausentar-se, e de o ter seguido para Espanha quando este combateu na Guerra Civil, Eileen deixava sugestões na parte de trás das páginas que Orwell escrevia, e debatia com ele ideias para as melhorar.
Eileen Blair, em 1937.
Embora não tenha chegado a conhecer os dias áureos da carreira literária do marido, tendo morrido em 1945 durante uma cirurgia (mesmo antes da publicação de A Quinta dos Animais), recentemente, tem vindo a ser reconhecida a sua importância na carreira de Orwell. Para além da influência que se acredita que terá tido na escrita da fábula que garantiu a fama do autor - não só na escolha do nome da cabra Muriel, mas no próprio tom divertido do texto, atípico na obra de Orwell e que abundava nas cartas que Eileen lhe escrevia; e nas habituais sugestões que lhe deixava em todas as suas obras - , vários críticos e biógrafos argumentam que foi num poema seu que o reputado autor encontrou inspiração para a criação da sua obra-prima, 1984. Intitulado End of the century, 1984, foi publicado em 1934 (um ano antes de os dois se conhecerem); na revista da escola que Eileen frequentava na altura, narrando um futuro distópico no qual os académicos, sem necessidade de ler livros, sabem 'apenas aquilo que devem' (know just what they ought), conduzindo, assim, a uma espécie de 'cremação mental'.
O popular romance distópico, 1984, o último livro que Orwell publicou em vida, seria publicado em 1949, no mesmo ano em que viria a falecer, vítima de tuberculose. Apesar de três meses antes se ter casado pela segunda vez, e pese embora Eileen tenha morrido quatro anos antes da publicação deste que foi considerado um dos 100 melhores romances de sempre, parte de si viverá para sempre nas obras de George Orwell; e, possivelmente, estas nunca teriam alcançado o reconhecimento que alcançaram se nunca tivesse existido Eileen.
Partilhamos consigo o poema End of the century, 1984.
End of the century, 1984
Death Synthetic winds have blown away
Material dust, but this one room
Rebukes the constant violet ray
And dustless sheds a dusty doom.
Wrecked on the outmoded past
Lie North and Hillard, Virgil, Horace,
Shakespeare’s bones are quiet at last.
Dead as Yeats or William Morris.
Have not the inmates earned their rest?
A hundred circles traversed they
Complaining of the classic quest
And, each inevitable day,
Illogically trying to place
A ball within an empty space.
Birth Every loss is now a gain
For every chance must follow reason.
A crystal palace meets the rain
That falls at its appointed season.
No book disturbs the lucid line
For sun-bronzed scholars tune their thought
To Telepathic Station 9
From which they know just what they ought:
The useful sciences; the arts
Of telesalesmanship and Spanish
As registered in Western parts;
Mental cremation that shall banish
Relics, philosophies and colds—
Mañana-minded ten-year-olds.
The Phoenix Worlds have died that they may live,
May plume again their fairest feathers
And in their clearest songs may give
Welcome to all spontaneous weathers.
Bacon’s colleague is called Einstein,
Huxley shares Platonic food,
Violet rays are only sunshine
Christened in the modern mood.
In this house if in no other
Past and future may agree,
Each herself, but each the other
In a curious harmony,
Finding both a proper place
In the silken gown’s embrace.