“Linhas paralelas que não tardaram a encontrar-se porque a vida não é assim tão geométrica.”
- in Crónica dos Bons Malandros
Esta semana despedimo-nos com tristeza de Mário Zambujal, figura inconfundível do jornalismo e literatura portuguesa. O autor, cronista e jornalista, nascido em Moura, no Alentejo, em 1936, deixa-nos com 90 anos, a dez do seu centenário.
A sua estreia na literatura, em 1980, veio a tornar-se um dos livros que mais o definiu enquanto autor: Crónica dos Bons Malandros acompanha uma quadrilha de pequenos criminosos que planeia um audacioso assalto ao Museu Gulbenkian, um golpe que promete mudar as suas vidas mas que, como seria de esperar, não corre exatamente como planeado. O romance ganhou uma longa vida para além do livro: foi adaptado ao cinema por Fernando Lopes em 1984 e inspirou também uma série televisiva realizada por Jorge Paixão da Costa e um musical.
Este foi um dos romances recentemente celebrados com edições comemorativas do Clube do Autor, em conjunto com mais dois dos seus mais emblemáticos títulos, Dama de Espadas e Cafuné. Estas edições contam com um prefácio de luxo: Gonçalo M. Tavares assina o de Crónica dos Bons Malandros, Rita Ferro apresenta Dama de Espadas, e Marcelo Rebelo de Sousa escreve sobre Cafuné. Esta reedição, testemunho do caráter intemporal da obra, foi motivada pela intenção de marcar as 9 décadas de vida de Mário Zambujal, celebradas menos de uma semana antes do seu falecimento. A iniciativa permanece como homenagem ao precioso legado deste autor incomparável.
Para além da sua presença indispensável nas nossas estantes, relembramos o início da sua carreira no jornalismo desportivo, na RTP e nos jornais: numa entrevista com o Clube de Jornalistas, do qual foi diretor entre 2007 e 2001, conta as longas jornadas de trabalho até às 3 e 4 da manhã no diário A Bola. Mais tarde, passou pelo Diário de Lisboa, conduzindo reportagens em viagem — incluindo na União Soviética, realizada em pleno Estado Novo — e foi chefe de redação d’O Século, função que detinha durante o 25 de abril de 1974.
Na mesma entrevista, com Eugénio Alves, Maria Flor Pedroso e Paulo Martins, fala da realidade de trabalhar no meio jornalístico nos tempos de censura. Nas suas palavras: “Ser desalinhado não significa que não seja nem carne, nem peixe, porque como cidadão sou um homem de Esquerda.” No entanto, reconhecia em si a virtude de ser um agente de conciliação: “O Cunha Rego, no DN, disse uma vez que eu era um daqueles gajos que, quando há um incêndio e está toda a gente de cabeça perdida, pergunta “onde está a chave da porta, para sairmos daqui?”. Eu procurava a chave. Não digo isto por achar que sou bestial. Continuo a ser um conciliador. (…) Convivi com pessoas que iam desde o marcelismo até uma esquerda mais avançada, muito avançada.”
O olhar curioso, aberto e conciliador teve o seu reflexo e expressão maior na escrita. Nos seus livros encontramos o mesmo humor ágil e a mesma atenção às pessoas na sua heterogeneidade, às suas manias, fragilidades, aventuras e desventuras. As suas personagens — tantas vezes “malandros” e sonhadores — oferecem ao leitor uma observação do mundo repleta de ironia, mas sempre afável.
Um autor e homem único, que iremos para sempre recordar com a maior saudade.