Na desordem internacional para a qual parece que caminhamos, as guerras sucedem-se e sobrepõem-se, fazendo do ruído e da propaganda a música de fundo. E qualquer voz que se levante contra as narrativas dominantes é rapidamente acusada. Francesca Albanese tem sido uma dessas vozes incómodas, com todas as consequências que isso acarreta. Em 2022, foi nomeada Relatora Especial das Nações Unidas para os Territórios Palestinianos Ocupados e, desde então, denuncia os crimes que se vivem diariamente na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, muito anteriores à resposta israelita aos ataques do Hamas de 2023. Em Israel e nos EUA, acusam-na de antissemitismo.
O que torna Francesca Albanese tão incómoda? O rigor dos números que apresenta e a fidelidade ao Direito Internacional, sua área de especialização. Também as histórias de vida que partilha: de homens, mulheres e crianças que vivem debaixo de uma ocupação permanente, vítimas do que não tem medo de designar por genocídio. Quando o Mundo Dorme, o seu terceiro livro, agora publicado pela Antígona, com tradução de Pedro Morais, é a síntese da sua indignação e luta pela dignificação do povo palestiniano. “A empatia é o cimento que nos une como Humanidade”, afirmou Francesca Albanese na Assembleia Geral da ONU, a 30 de outubro de 2024. “Pela primeira vez, sinto-me verdadeiramente indignada. Indignada pela indiferença. [...] Sinto-me indignada e desiludida, como frequentemente me acontece nesta sala, ao ver que muitos de vocês continuam a repetir o mesmo discurso. Naturalmente, condenamos o ataque do Hamas. Naturalmente, expressamos solidariedade com as vítimas israelitas. Naturalmente, exigimos a libertação dos reféns. Mas será possível que, depois da morte de quarenta e duas mil pessoas em Gaza, ainda haja quem não consiga sentir empatia pelos palestinianos?”
“Um livro que olha a Palestina de um ponto de vista jurídico, sem ser um livro de direito. Um livro que revisita os vários relatórios que escreveu, sem se tornar nenhum deles. Um livro cheio de informações históricas, mas longe de ser um livro de História. Um livro carregado de referências académicas, sem se transformar num estudo científico."
— Shahd Wadi, no prefácio de Quando o Mundo Dorme, de Francesca Albanese
O que singulariza Quando o Mundo Dorme é a combinação de dados pessoais, da autora e de vários palestinianos, com factos corroborados por instituições internacionais. Não se trata da defesa de uma ideia abstrata para uma determinada região, antes o resultado de um conhecimento do terreno por via direta e abrangente (Albanese viveu uma década em Jerusalém). “É um livro autobiográfico sem ser uma autobiografia”, escreve, no longo e informado prefácio que abre este livro, Shahd Wadi, escritora, investigadora e tradutora palestiniana há muito radicada em Portugal. “Um livro que olha a Palestina de um ponto de vista jurídico, sem ser um livro de direito. Um livro que revisita os vários relatórios que escreveu, sem se tornar nenhum deles. Um livro cheio de informações históricas, mas longe de ser um livro de História. Um livro carregado de referências académicas, sem se transformar num estudo científico. Não é nada disso, e, ao mesmo tempo, é tudo isso, este livro. Escrito a partir de um conhecimento profundo da questão palestiniana, com olhar crítico, consciência ética e amor.”
Quando o Mundo Dorme apresenta-se como uma reunião de “histórias, palavras e feridas” que cobrem as últimas décadas da Palestina. O livro divide-se em onze capítulos e, para cada um, Francesca Albanese isola uma pessoa que representa o tema abordado. E a jurista italiana não tem pudor em falar de si. Na introdução, recorda até os obstáculos que tem encontrado no exercício das suas funções e na divulgação dos seus relatórios. Além das sanções americanas, muitas conferências suas têm sido canceladas por pressão da diplomacia israelita ou de mecenas de universidades e outras instituições, sobretudo depois dos ataques do Hamas de 2023. Em Berlim, na Alemanha, chegou a fazer uma intervenção pública quase cercada pela Polícia Federal, mesmo gozando de imunidade diplomática.
"Não, não é um conflito: no máximo, pode ser visto como um conflito contra a Humanidade."
— Francesca Albanese, em Quando o Mundo Dorme
O argumento principal de Francesca Albanese, que aparece em diversos capítulos, é o de que “a crise em Gaza é hoje um sintoma de uma crise global”, dominada por um “sistema que decide por nós sobre questões determinantes para a nossa vida, sem que necessariamente nos ouça ou represente”. Isso está presente no fomento do trabalho precário, na promoção das redes sociais sem regulação ou na perpetuação dos privilégios das classes dominantes. Nesse sentido, a relatora da ONU vê na atuação de Israel um exemplo de “colonialismo de povoamento através de uma obra de destruição total, metódica e planeada". É também por isso que não gosta de usar a palavra “conflito” para retratar esta realidade. “O conflito requer duas partes vagamente comparáveis. Israel e a Palestina não o são”, argumenta. “Um é o ocupante, a outra, a ocupada; um é o colonizador, a outra, a colonizada, posta numa condição de subalternidade estrutural e vítima de um sistema de controlo e segregação. Não, não é um conflito: no máximo, pode ser visto como um conflito contra a Humanidade.”
Em cada história de vida desenham-se, assim, os contornos de uma situação limite. No segundo capítulo, a partir de Hind Rajab, morta aos seis anos dentro de um carro pelo exército israelita, quando já tinha pedido socorro ao Crescente Vermelho, descobre-se como se vive a infância na Palestina. Sobre as consequências da ocupação, no terceiro capítulo, fala Abu Hassan, uma das primeiras pessoas que Albanese conheceu em Jerusalém. Por ter nascido na Cidade Santa, este guia pode movimentar-se entre Israel e a Palestina, mas muitos outros palestinianos têm, através de um sistema de identificação restritivo, os seus movimentos controlados. Há ainda capítulos sobre o antissemitismo e os equívocos desta acusação; o apartheid e as estratégias para o terminar; as marcas e as provas do genocídio em curso; as circunstâncias histórias e políticas que favorecem a opressão do povo palestiniano; o dia a dia dos refugiados; e a importância de se preservar a memória.
O argumento principal de Francesca Albanese, que aparece em diversos capítulos, é o de que “a crise em Gaza é hoje um sintoma de uma crise global”, dominada por um “sistema que decide por nós sobre questões determinantes para a nossa vida, sem que necessariamente nos ouça ou represente”.
“É quando o mundo dorme que nascem os monstros”, alerta, na conclusão. E o seu livro — empenhado, convicto, apaixonado — é um grito de revolta. Viciada na esperança, Francesca Albanese acredita que todos podemos contribuir para que cada povo possa existir livremente. Por isso, nas páginas finais, lembra: “Pode ser-se jornalista, padeiro, advogado: não importa o que se faz, mas como se faz, como nos entregamos. Porque — como escreveu Thich Nhat Hanh — de que serve ver, se não for para agir?” Eis o seu apelo.
Francesca Albanese
Nascida em 1977, em Ariano Irpino, no Sul de Itália, Francesca Albanese é formada em Direito, com especialização em Direito Internacional. Em 2022, foi nomeada Relatora Especial das Nações Unidas para os Territórios Palestinianos Ocupados. Nessa qualidade, tem assinado vários relatórios fortemente criticados pelos EUA e por Israel, mas nos quais procura mostrar a realidade que se vive no terreno para lá da propaganda. Já distinguida com vários galardões, tem sido apontada para o Prémio Nobel da Paz. Além de Quando o Mundo Dorme, publicou os livros Palestinian Refugees in International Law e J'accuse — Gli attacchi del 7 ottobre, Hamas, il terrorismo, Israele, l'apartheid in Palestina e la guerra, ambos sem tradução em Portugal.