Partilhamos consigo a segunda parte da entrevista a José Eduardo Agualusa para a revista Somos Livros. Se ainda não leu, descubra a primeira parte aqui.
No final de 2019, José Eduardo Agualusa concluía o seu novo livro Os Vivos e os Outros, que relata a história de alguns escritores que ficam isolados em Moçambique, depois de uma tempestade fechar completamente a ilha. Ainda estava longe de imaginar o que se seguiria. Seguiu-se uma pandemia que fechou o mundo em casa e adiou futuros — e o lançamento do livro. Chega finalmente às livrarias esta "história do fim do mundo”. Nesta conversa, Agualusa reacende a militância pragmática pelo sonho e o cultivo de utopias em terra firme, entre as memórias do passado, o medo dos abraços que ficaram suspensos e o tudo que há ainda por fazer. "Não me tirem daqui, preciso viver mais. Muito mais. Ainda mal comecei”, avisa.
No livro Teoria Geral do Esquecimento escreve sobre uma mulher que se isola no seu apartamento durante quase trinta anos, sobrevivendo com a ajuda dos livros como forma de escape. Também procurou, como tantas pessoas durante este período, escape na literatura? Confessou que durante o período de confinamento descobriu livros que não sabia que tinha. Quer partilhar connosco algumas dessas surpresas e das suas leituras durante este período?
Estive bastante entretido a ler uma série de obras de autores angolanos, pois integro o júri de um prémio literário angolano. Tive algumas boas surpresas, mas, porque o júri ainda não deliberou, não posso revelar quais os autores que mais me surpreenderam. Em todo o caso, acho que posso dizer que a ficção angolana se está a reinventar — e que tem bom futuro.
Durante esse período, o que temeu mais não poder voltar a fazer?
Temi não poder voltar a abraçar as pessoas que amo, em particular os meus pais.
Se o mundo tivesse acabado, teria deixado tudo feito e tudo dito?
O mundo está sempre a acabar e sempre a recomeçar. No fundo, esse é o tema do meu novo romance. Quanto a mim, se morresse hoje acho que não deixaria tudo por dizer. Claro, deixaria por dizer o que ainda não vivi, o que ainda não conheço, e talvez isso seja o que de mais importante eu tenha para dizer. Resumindo: não me tirem daqui, preciso viver mais. Muito mais. Ainda mal comecei.
Com a grave crise económica que previsivelmente temos pela frente, e a consequente redução do poder de compra, como podem os escritores reinventar-se para garantir que não nos falta o pão da literatura?
Podemos tentar diversificar a nossa atividade, escrevendo peças para teatro ou guiões para cinema. No meu caso, escrevo também letras para canções. Tudo isso é, ou pode ser, literatura.
De que tem medo, hoje em dia?
Tenho imenso medo da estupidez e, sobretudo, de pessoas estúpidas e com muito poder, como o Donald Trump.
E o que é que, inevitavelmente, o emociona?
Toda a beleza me emociona.
Aponta Borges, García Marquez e Eça de Queiroz como grandes fontes de inspiração. E entre os escritores contemporâneos? Há algum que siga com particular interesse?
Vários. Por exemplo um jovem (jovem é qualquer pessoa mais jovem do que eu) escritor judeu norte-americano: o Jonathan Safran Foer. Ele é muito bom.
Sobre si, Mia Couto disse: “Ele faz uma coisa de que tenho inveja: uma poesia que faz de conta que não é. Há um trabalho poético que ele não põe à varanda”. Quer falar-nos dessa (sua) poesia que faz de conta que não é?
Sou um grande leitor de poesia. O que o Mia simpaticamente está a dizer é que na minha ficção há muita poesia. Agrada-me pensar que sim, até porque toda essa ficção vem da poesia.
"Não me tirem daqui, preciso viver mais. Muito mais. Ainda mal comecei."
Escrever ainda continua a ser um deslumbramento e uma descoberta?
Sim, continua. Não mudou muito. Apenas aprendi alguns truques, mas a emoção continua a mesma.
O que tem descoberto sobre si?
Venho aprendendo sobretudo a ter paciência com os desencontros da vida.
Disse que os dois livros pelos quais gostaria de ser lembrado são Barroco Tropical e Milagrário Pessoal. Estes continuam a ser, de todos os seus livros, os que conquistaram um lugar especial no seu mapa emocional? Porquê?
Os meus romances são bastante diferentes entre si. Tenho alguma dificuldade em escolher um. O Barroco Tropical é um pouco mais complexo, até na estrutura, e também mais sombrio do que a maioria. É uma distopia passada num futuro próximo — que, entretanto, já chegou. O Milagrário Pessoal é uma história de amor — de um homem mais velho por uma mulher muito mais jovem e de ambos por um idioma. Mas também gosto da Teoria Geral do Esquecimento porque é um livro no qual quase todas as personagens têm a possibilidade de se resgatar.
Ainda se emociona com as reações dos seus leitores? Há alguma história marcante que queira partilhar connosco?
Numa ocasião, em Buenos Aires, uma senhora já com muita idade disse-me que tinha gostado muito d’A Teoria Geral do Esquecimento, porque o livro estava cheio de luz. É um elogio muito simples, bem sei, mas que me comoveu. Noutra ocasião, na Feira do Livro de Lisboa, um casal veio ter comigo com um exemplar dos Estranhões e Bizarrocos. Contaram-me que haviam começado a namorar lendo um para o outro os contos do livro. Achei bonito.
Se voltar ao passado fosse possível, o que diria o José Agualusa de hoje à criança que foi?
“Não vás para Agronomia, escolhe antes Belas Artes — e logo que tenhas algum dinheiro compra ações da Apple.”
O que gostaria que os seus leitores dissessem sobre si, quando já cá não estiver?
“Tenho pena que o gajo não tenha escrito mais romances.”
E os seus filhos?
“O papá não nos deixou ricos mas pelo menos mostrou-nos como ser felizes.”