No final de 2019, José Eduardo Agualusa concluía o seu novo livro Os Vivos e os Outros, que relata a história de alguns escritores que ficam isolados em Moçambique, depois de uma tempestade fechar completamente a ilha. Ainda estava longe de imaginar o que se seguiria. Seguiu-se uma pandemia que fechou o mundo em casa e adiou futuros — e o lançamento do livro. Chega finalmente às livrarias esta "história do fim do mundo”. Nesta conversa, Agualusa reacende a militância pragmática pelo sonho e o cultivo de utopias em terra firme, entre as memórias do passado, o medo dos abraços que ficaram suspensos e o tudo que há ainda por fazer. "Não me tirem daqui, preciso viver mais. Muito mais. Ainda mal comecei”, avisa.
Cresceu numa família numerosa e, como elemento mais novo, ter estórias para contar era a garantia de ser ouvido. Foi assim que começou a definir-se o escritor?
Não, mas foi assim que aprendi a gostar de ouvir estórias. Gostar de ouvir, saber ouvir os outros, é parte importante do meu ofício como escritor.
Quais são as primeiras memórias que tem, relacionadas com a leitura?
Não tenho muitas memórias das minhas primeiras leituras. Lembro-me de ler os contos de fadas da Condessa de Ségur e de ter pesadelos nas noites seguintes.
E com a escrita? Qual foi o momento decisivo em que sentiu: é isto que quero fazer para o resto da minha vida?
Nunca senti isso. Espero viver muitos anos e experimentar outros ofícios e oficinas. A literatura não é a minha vida; é apenas uma parte da minha vida.
O seu novo romance, Os Vivos e Os Outros, decorre na ilha de Moçambique durante sete dias e acompanha um grupo de escritores africanos que, após um evento catastrófico que ameaça o mundo todo, reinventa a realidade através da escrita. Acredita que a literatura pode reinventar o mundo?
Sem dúvida. O movimento nacionalista angolano, cujo esforço culminou na independência do país, começou por ser um conjunto de tertúlias literárias. Foi a poesia que abriu as portas à independência. Também no Brasil, alguns dos rostos mais conhecidos da luta pela independência, como Tomás Antônio Gonzaga, eram poetas. O mesmo em Moçambique, em Cabo Verde ou em São Tomé.
Revelou numa entrevista recente que, ao mesmo tempo que escrevia este livro sobre um evento catastrófico, também Gonçalo M. Tavares se encontrava a escrever um livro sobre o final do mundo, mas nos EUA. Paralelamente, livros como Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, ou A Peste, de Albert Camus, escritos há décadas, foram revisitados e catapultados para os tops de vendas. A literatura, além de tudo o mais, também pode ser profética?
O tempo não é linear. Passado, presente e futuro coexistem num mesmo plano, e talvez por isso seja possível a certas pessoas terem lembranças de eventos traumáticos que aconteceram — estão acontecendo — num tempo futuro, isto é, num tempo que essas pessoas ainda não atravessaram. Não há profecias, há recordações.
Nessa mesma entrevista, afirmou que escreve para entender a maldade, sendo por isso que demonstra particular interesse pelas personagens perversas. Ao fim de tantos livros, está mais perto de as entender?
Nem por isso. A maldade continua a intrigar-me e a fascinar-me. Muitas vezes me perguntam se é difícil entrar na pele de uma mulher, pensar como uma mulher. Não é. Difícil é entrar na pele de um torturador, por exemplo. Isso, sim, é difícil.
Diz também que escreve para saber. O que pretendia descobrir quando começou a escrever este novo livro?
Pretendia ver até onde poderia ir levando a sério a primeira frase da Bíblia: “No princípio era o verbo”.
E encontrou as respostas que procurava?
Acho que hoje acredito mais nisso do que quando comecei a escrever o livro.
"Deixar o combate feminista entregue apenas às mulheres, ou o combate antirracista entregue apenas às potenciais vítimas do racismo, seria como deixar o combate contra o covid-19 entregue apenas aos doentes e aos médicos."
Costuma contar uma história da sua filha, de quando era ainda pequenina. Uma senhora perguntou-lhe “De que raça és tu?” e ela não entendeu a pergunta porque não entendia, sequer, o conceito de raça. A senhora tentou novamente e desta vez perguntou: “De que cor és tu?”, ao que a sua filha, espantada, terá respondido: “Mas tu não vês que sou uma menina? As meninas são pessoas. As pessoas têm cores diferentes. A minha língua é vermelha, os meus dentes são brancos, o meu cabelo é castanho.” E costuma acrescentar: “É preciso uma criança de quatro anos para dizer o óbvio, que temos todas as cores.” À luz dos últimos acontecimentos mais mediáticos — a morte de George Floyd e consequentes manifestações antirracistas, um pouco por todo o mundo, por que motivo ainda é necessário irmos para as ruas para que se veja o óbvio? O que (ainda) falta fazer?
É uma boa pergunta. A estupidez espanta-me tanto quanto a maldade. Irrita-me que tenhamos avançado tão pouco nesse campo. Irrita-me que o conceito de raça, inventado pelos racistas europeus no final do século XIX para justia continuidade do processo de saque e exploração do continente africano, seja agora resgatado não só pelos novos racistas, mas também por quem se afirma antirracista. A vida é diversidade. Lutar contra o racismo é lutar pelo reconhecimento da diversidade de etnias e culturas, na igualdade de uma única raça humana. É, portanto, uma luta pela vida, uma luta pela inteligência, que, como o combate feminista, deve envolver toda a gente. Deixar o combate feminista entregue apenas às mulheres, ou o combate antirracista entregue apenas às potenciais vítimas do racismo, seria como deixar o combate contra o covid-19 entregue apenas aos doentes e aos médicos. São combates de toda a humanidade.
O seu novo livro “fala sobre como as pessoas se reinventam depois de pensarem que o mundo acabou”. O mundo, recentemente, deu-nos sinais de que podia(mos) acabar. Algumas pessoas falavam numa reinvenção da humanidade, depois de passar a pandemia. Não parece haver sinais de que tal tenha acontecido — ou será que ainda é cedo para julgarmos? Partilha da opinião do Mia Couto, que diz que as pessoas não aprendem pelo medo?
Discordo do Mia. O medo sempre foi um excelente professor. Durante séculos, o medo impulsionou descobertas e empurrou o homem para a frente. Concordo com o Mia quanto à ideia de que, muito possivelmente, esta epidemia não provocará mudanças fundamentais no nosso estilo de vida. Tenho a certeza, porém, de que sairemos dela sabendo um pouco mais acerca desse microcosmos a que o Mia, muito acertadamente, chama um macrocosmos: é uma infinitude infinitamente pequena. Pode-se ser grande também para dentro.
No livro O Vendedor de Passados, escreveu: "(…) A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros”. Numa altura em que a vida parece imitar a literatura (principalmente a mais distópica), daria este conselho aos seus filhos?
Não. Eu prefiro sempre a vida. Os livros, de resto, são parte da vida. Só há livros porque existe vida — ainda que os livros possam ajudar a reescrever a realidade.
Neste livro, publicado em 2004, fala-nos sobre um homem, Félix Ventura, que vende passados ilustres a quem os deseja. Atualmente, precisamos de vendedor(es) de futuros?
Não. Precisamos, isso sim, de pessoas capazes de imaginar outros futuros — precisamos de criadores de utopias. Precisamos de reabilitar o sonho e a utopia.
É desse livro uma frase marcante que diz “Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos". A informação é inimiga da felicidade? Ver mais, ver tudo, saber mais, tolda-nos a possibilidade de felicidade?
Saber é sofrer, porque é impossível não sofrer sabendo que semelhantes nossos estão em sofrimento. Por outro lado, saber também é alegria e regozijo, pelas infinitas possibilidades da vida, pela partilha da existência com todos os outros seres que habitam o nosso planeta. Pela consciência da beleza que nos rodeia.
Numa entrevista recente, disse que a ficção desenvolve o músculo da empatia e, por essa razão, a literatura aproxima as pessoas. Acha que se alguns dirigentes políticos lessem (mais) ficção poderiam tornar-se pessoas mais empáticas e melhores líderes? Ou a alguns deles não há literatura que lhes valha?
Sim, acredito nisso — que a literatura nos melhora e que, se todos lêssemos mais — e melhor — ficção, o mundo poderia transformar-se num lugar um pouquinho mais justo. É verdade que existem pessoas com grau zero de empatia. Talvez tivessem primeiro de aprender a ler. Talvez tivessem depois de ler muito, os livros certos. Em todo o caso, acredito que sairiam transformadas dessa experiência. A questão é como fazer isso. Como obrigar Trump ou Bolsonaro a lerem ficção?
Tem sido muito vocal acerca da sua oposição a Bolsonaro, tendo até escrito um conto para a revista Visão intitulado O Triste Fim de Jair Messias Bolsonaro, no qual ficciona a sua morte, e manifestado a esperança de que a realidade imitasse a ficção — tornando-se o primeiro assassinato literário. Acha que esta pandemia veio expor o verdadeiro vírus do populismo iliberal?
Esse vírus do populismo já existia. A pandemia serviu apenas para expor as debilidades dessas correntes populistas quando confrontadas com a realidade. A primeira coisa que líderes como Trump ou Bolsonaro fazem quando a realidade os incomoda é negá-la: “Há um tigre diante de nós? Não, isso não é um tigre, é um gatinho. Decreto que a partir de agora todos os tigres passem a ser considerados gatos.” E depois a realidade salta e devora-os; é inevitável. A realidade tem os dentes aguçados.
Leia aqui a segunda parte da entrevista.