Dois poemas para recordar Jorge Luis Borges

Por: Raquel Fonseca a 2024-06-14

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires, em 1899. Cresceu no bairro de Palermo, «num jardim, por detrás de uma grade com lanças, e numa biblioteca de ilimitados livros ingleses».
Em 1914 viajou com a família pela Europa, acabando por se instalar em Bruxelas, e posteriormente em Maiorca, Sevilha e Madrid. Regressado a Buenos Aires, em 1921, Borges começou a participar ativamente na vida cultural argentina.
Em 1923, publicou o seu primeiro livro — Fervor de Buenos Aires — mas o reconhecimento internacional só chegou em 1961, com o Prémio Formentor, seguido por inúmeros outros. A par da poesia, Borges escreveu ficção (é sem dúvida um dos nomes maiores do conto ou da narrativa breve), crítica e ensaio, géneros que praticou com grande originalidade e lucidez.
A sua obra é como o labirinto de uma enorme biblioteca, uma construção fantástica e metafísica que cruza todos os saberes e os grandes temas universais: o tempo, «eu e o outro», Deus, o infinito, o sonho, as literaturas perdidas, a eternidade — e os autores que deixam a sua marca.
Foi professor de literatura e dirigiu a Biblioteca Nacional de Buenos Aires entre 1955 e 1973.
Morreu em Genebra, em junho de 1986.

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Hoje celebramos o inigualável autor, tradutor, crítico literário e ensaísta sul-americano, Jorge Luis Borges. Nasceu em Bueno Aires em 1899, mas a sua marca única e indelével na literatura nunca conheceu fronteiras, assim como os universos fantásticos e repletos de simbolismo que criou com as suas obras.

Depois de uma infância em que o interesse pela literatura já se revelava — tinha nove anos quando escreve o seu primeiro conto, inspirado num episódio de Dom Quixote — o seu trajeto continua pela Europa no início do século XX quando a família se muda para Genebra, onde conclui os estudos. Segue depois para Espanha onde participa na cena literária local, e regressa em 1921 à Argentina, onde publica o seu primeiro livro de poemas e continua o seu percurso literário, que será traduzido amplamente, cativando leitores em todo o mundo. A partir dos anos 50, sofrendo da progressiva cegueira que herdou do pai, dedica-se ainda mais à poesia, produzindo obras notáveis.

Recordamos então a sua obra poética, com dois poemas selecionados da antologia Poesia Completa, editada em 2022.


O Sul

De um dos teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
e do banco da sombra ter olhado
essas luzes dispersas
que a minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o cheiro do jasmim, da madressilva,
o silêncio do pássaro a dormir,
o arco do saguão, a humidade
— essas coisas talvez sejam o poema.
 
 
Bairro reconquistado


Ninguém viu a beleza das ruas
até que, pavoroso, num clamor,
se precipitou o céu esverdeado
num abatimento de água e de sombra.
A tempestade foi unânime
e malquisto aos olhares foi o mundo,
mas quando um arco abençoou
a tarde com as cores do seu perdão
e um cheiro a terra molhada
animou os jardins,
pusemo-nos a andar por entre as ruas
como por uma herdade recuperada,
e nos cristais houve generosidades de sol
e nas folhas luzentes
disse a sua trémula imortalidade o verão.

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