Hoje celebramos o inigualável autor, tradutor, crítico literário e ensaísta sul-americano, Jorge Luis Borges. Nasceu em Bueno Aires em 1899, mas a sua marca única e indelével na literatura nunca conheceu fronteiras, assim como os universos fantásticos e repletos de simbolismo que criou com as suas obras.
Depois de uma infância em que o interesse pela literatura já se revelava — tinha nove anos quando escreve o seu primeiro conto, inspirado num episódio de Dom Quixote — o seu trajeto continua pela Europa no início do século XX quando a família se muda para Genebra, onde conclui os estudos. Segue depois para Espanha onde participa na cena literária local, e regressa em 1921 à Argentina, onde publica o seu primeiro livro de poemas e continua o seu percurso literário, que será traduzido amplamente, cativando leitores em todo o mundo. A partir dos anos 50, sofrendo da progressiva cegueira que herdou do pai, dedica-se ainda mais à poesia, produzindo obras notáveis.
Recordamos então a sua obra poética, com dois poemas selecionados da antologia Poesia Completa, editada em 2022.
O Sul
De um dos teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
e do banco da sombra ter olhado
essas luzes dispersas
que a minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o cheiro do jasmim, da madressilva,
o silêncio do pássaro a dormir,
o arco do saguão, a humidade
— essas coisas talvez sejam o poema.
Bairro reconquistado
Ninguém viu a beleza das ruas
até que, pavoroso, num clamor,
se precipitou o céu esverdeado
num abatimento de água e de sombra.
A tempestade foi unânime
e malquisto aos olhares foi o mundo,
mas quando um arco abençoou
a tarde com as cores do seu perdão
e um cheiro a terra molhada
animou os jardins,
pusemo-nos a andar por entre as ruas
como por uma herdade recuperada,
e nos cristais houve generosidades de sol
e nas folhas luzentes
disse a sua trémula imortalidade o verão.