Aprendizes do espanto

Por: Bertrand Livreiros a 2023-08-03 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça é poeta, sacerdote e professor. Nasceu na ilha da Madeira. Estudou Ciências Bíblicas em Roma e vive no Vaticano desde 2018, onde foi responsável pela Biblioteca Apostólica e pelo Arquivo Secreto do Vaticano e é atualmente Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação. Em 2019, foi elevado a Cardeal pelo Papa Francisco. Para José Tolentino Mendonça, «a poesia é a arte de resistir ao seu tempo». Os seus livros têm sido distinguidos com vários prémios, entre eles o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia (1998), o Prémio PEN Clube de Ensaio (2005), o italiano Res Magnae, para obras ensaísticas (2015), o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes APE (2015), o Grande Prémio APE de Crónica (2016), prestigiado Prémio Capri-San Michele (2017), o Prémio D. Diniz (2022), Francisco de Sá de Miranda (2022), Prémio Pessoa (2023) e o Prémio Eduardo Lourenço (2025).

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Numa altura em que se realizam em Portugal as Jornadas Mundiais da Juventude, recordamos o primeiro texto “Aprendizes do Espanto”, que integra a obra Elogio da Sede, do cardeal poeta Tolentino Mendonça, onde este reflete, entre outras questões, sobre a necessidade de “tomar a sede como mestra nos caminhos da alma”.


«ESPANTA-TE AINDA», «espanta-te mais uma vez» — é isso que o texto do Evangelho de São João sugere. Nós que, a dada altura da vida, parece que já vimos tudo, já vivemos e sabemos tudo, e olhamos para a realidade protegidos por aquilo que julgamos ser uma distância ou um acumulado saber, somos aqui literalmente desarmados (e desarrumados) pelo espanto. Jesus dirige-se a uma anónima mulher samaritana e faz-lhe um pedido extravagante. Diz-lhe três palavras: «dós moi peîn» («dá-me de beber»). Ela vinha para tirar água e regressar ao povoado, vinha a pensar na sua casa, nos seus afazeres, na satisfação das suas necessidades. Tinha os seus passos mais ou menos calculados, o ir e o vir bem previstos e é surpreendida por aquele pedido e aquele interlocutor.

 

«Tinha de atravessar a Samaria. Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacob tinha dado ao seu filho José. Ficava ali o poço de Jacob. Então Jesus, cansado da caminhada, sentou-se, sem mais, na borda do poço. Era por volta da hora sexta. Entretanto, chegou certa mulher samaritana para tirar água. Disse-lhe Jesus: “Dá-me de beber.”» (João 4:5-24)



Por muito que isso nos desconcerte são estas as palavras que Jesus nos dirige, na borda do poço que representa este momento das nossas vidas: «Dá-me do que trazes. Abre o teu coração. Dá-me do que és.» Ele quebra o emaranhado de rotinas, cálculos e interditos, mais visíveis ou mais submersos, que atiram a nossa vida para um impasse, ainda que sob uma aparência de normalidade. Rompe com a previsibilidade sonâmbula dos nossos trajetos, das nossas idas e vindas cegas entre a casa e o poço e diz-nos: «Dá-me de beber.» Talvez ainda não tenhamos descoberto que o nosso poço possa servir para isso.

 

Sendo de condição divina, como explica São Paulo, Jesus não se valeu da forma de Deus, mas esvaziou-se dela para fazer-se servo último e radical da nossa humanidade (Filipenses 2:6-11). E tendo a possibilidade de dispensar o contributo que lhe possamos oferecer, o Senhor diz-nos: «Não te dispenso; eu preciso de ti; dá-me de beber.» Em qualquer estação da vida, e porventura nesta em concreto que vivemos, esse pedido provoca perplexidade e assombro. Invade-nos como um arrepio. Porque nós é que viemos beber; viemos até aqui, rumámos até ao poço para dessedentar-nos. A sede, sabemos o que é. Fadiga e necessidade, conhecemos bem. Nós é que, como diz o profeta, ziguezagueamos de mar a mar, erramos de extremo a extremo, buscando por toda a parte e não encontramos (Amós 8:12).
 

E agora, vem Jesus dizer-nos: «Dá-me tu de beber.»

José Toletino Mendonça

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