A pandemia de Covid-19 é sem dúvida um dos momentos mais marcantes da história recente: os seus efeitos marcaram gerações e foram sentidos universalmente, a nível global, com uma disrupção total do dia a dia a que estamos habituados.
Mas há quem tenha vivido este momento de forma especialmente próxima. Ninguém conhece melhor o custo humano e a realidade dura da pandemia como os profissionais de saúde que estiveram na linha da frente desta crise avassaladora, a cuidar dia e noite e a tomar as decisões mais difíceis. Há cinco anos atrás, agradecemos a estes profissionais: batemos palmas, mostrámos o nosso apreço de diferentes formas, procurámos reconhecer o sacrifício físico e psicológico deste trabalho.
Agora, podemos conhecer a experiência, profundamente humana, contada em primeira mão por um destes profissionais: Luís Moreira Gonçalves foi convocado para ajudar na Rondônia, na Amazónia, quando a situação começou a adquirir dimensões críticas e todos os médicos foram chamados a serviço. Anos após esta vivência, o médico português residente no Brasil colaborou com o artista gráfico Filipe Perucci para contar a sua história, sob o formato de novela gráfica.
Para conhecer melhor este livro extraordinário, sobre “quando o oxigénio faltou no pulmão do mundo”, conversámos com o autor Luís Moreira Gonçalves e o ilustrador Filipe Perucci, que em conjunto criaram Dormindo entre Cadáveres (Zigurate, 2025).
Luís Moreira Gonçalves
O que o levou a encontrar-se no coração da floresta amazónica, durante o pico da pandemia?
Uma série de eventos inesperados. Uma variante nova na Amazónia, que levou a que precisassem de todos os médicos disponíveis, incluindo os que não estavam a exercer medicina, como eu. Viveu circunstâncias difíceis, desde a falta de recursos, a escassez de profissionais e material médico e a incapacidade de responder a todos os doentes que precisavam de cuidados intensivos. O que o marcou mais nesse período? Talvez pareça estranho, mas o que mais marcou foi a crueldade do processo disciplinar colocado pela universidade onde trabalhava (a USP), porque, levando tudo em conta, foi a “circunstância difícil” mais inesperada. Tudo o resto foi profundamente trágico mas já estava um pouco preparado, então não ficou tão “marcado”.
Num cenário em que o oxigénio escasseava no “pulmão do mundo”, como geria, no dia a dia, a necessidade de decidir quem teria acesso a cuidados que podiam determinar a vida ou a morte?
Felizmente essa decisão, salvo raríssimas excepções, não era minha. A distribuição de vagas de cuidados intensivos, de distribuição de medicamentos por hospitais, de quem se vacinava primeiro, entre outras questões complexas, eram tomadas a nível superior. Para além disso, tentávamos tomar as decisões mais relevantes em conjunto. Mas é verdade que a prática médica está cheia de decisões importantes que, por vezes, têm de ser tomadas em segundos. O compromisso que tomo é não sentir que sou um sucesso quando acerto e “salvo uma vida”, mesmo quando são diagnósticos complexos, e em contrapartida, não me sinto um falhado, quando não consigo ajudar da forma que eu gostaria.
Que papel atribui à saúde mental dos profissionais de saúde em crises desta dimensão e o que considera que ainda falta fazer neste campo?
Acho que todos nós, felizmente, levamos, cada vez mais, a saúde mental em conta. Mas muito ainda pode ser feito, fiquei surpreendido de aprender, recentemente, que a profissão de médico (ou, no mínimo, algumas especialidades) não é considerada de desgaste rápido. Trabalho por turnos com um contacto diário com a doença e a morte não desgasta?
O que o levou a querer partilhar e contar esta história com o mundo, e em particular através de uma narrativa visual?
A pequena história é fundamental para a grande história. Sem a obra do Erich Maria Remarque as pessoas não conheceriam tão bem as trincheiras. Estava no epicentro de um dos momentos mais relevantes da nossa história recente. Tinha quase o dever de deixar um registo. A narrativa visual tem algumas potencialidades que a escrita não tem. Consegui gerir melhor a transmissão de emoções, e acho também que a experiência ficou mais imersiva.
Há uma cena particularmente forte retratada no livro, na qual adormece entre cadáveres, na morgue. O que o levou a incluir esse momento tão íntimo e que reações tem recebido dos leitores perante essa imagem?
Respeito pelo leitor. O facto de a história ser verdadeira permite-me colocar os momentos surreais que, numa obra de ficção, seriam considerados inverosímeis. Não é que a realidade supere a ficção, mas sim que a realidade está autorizada a ir mais longe que a ficção. A reação dos leitores tem sido incrível. Várias pessoas me mandam mensagens pessoais e tocantes. Fico muito feliz que a leitura lhes tenha feito bem.
Qual é a mensagem principal que deseja transmitir aos leitores de Dormindo entre Cadáveres?
A vida é frágil pois a morte está sempre à espreita. Como tal, aproveitar os momentos belos do nosso trajeto, e, sempre que possível, rir, em particular, do quão surreal a realidade consegue ser.
Felipe Parucci
Há sequências inteiras em que a narrativa é conduzida apenas pelas imagens. Como foi decidido quando o silêncio visual é mais expressivo do que qualquer diálogo ou narração?
Acho que não foi necessariamente uma decisão criativa mas sim um resultado da forma que eu desenvolvo as minhas histórias. Tenho como método o enfoque total na narrativa visual, tomando o texto como acessório e não como guia para planejar as páginas. Trabalho primeiro os desenhos até o fim do livro, para depois planejar e inserir os textos. O resultado disso é uma narrativa mais visual e introspetiva que serviu perfeitamente para contar a história do Luís.
A capa tem sido destacada como uma das imagens mais impactantes do ano. Como nasceu essa ilustração e que ideia-chave queria que o leitor percebesse logo ao pegar no livro?
Desenvolver a capa sempre foi uma dificuldade para mim. Costumo dizer que crio capas para quem já leu o livro e não para quem ainda vai ler, e isso é um problema. A primeira ideia para a capa foi recusada pelo editor, mas aceitei a derrota e comecei a procurar uma ideia melhor até surgir a definitiva. A ideia ali, de mostrar o Luís dormindo em posição fetal, representa um homem indefeso e despreparado, quase entregue ao que acontece ao redor. Um símbolo da impotência humana diante de uma tragédia tão grande e ao mesmo tempo uma representação de renascimento, já que o Luís viveu essa experiência tão transformadora no sentido psicológico. Completei a imagem com os esqueletos ao redor representando os mortos da pandemia. Acho que a imagem acabou representando muito bem o título e a ideia do livro.
Qual foi o maior desafio no processo criativo deste projeto?
Acho que trabalhar com outro autor foi um desafio para mim. Faço BD há cerca de 10 anos e sempre me vi como um autor solitário que tinha quase como regra trabalhar sempre nas minhas próprias histórias. Antes do Dormindo entre Cadáveres já havia recebido convites para trabalhar em parceria com outros autores mas sempre recusei. Quando o Luís me contatou para trabalharmos juntos nessa obra a minha “regra” passou pela cabeça mas a importância dessa história foi mais forte e acabei cedendo. Nas nossas primeiras conversas expliquei o valor que minha narrativa e meu modo de contar histórias era importante para mim e isso foi respeitado. No fim das contas a experiência de trabalhar com outro autor foi bastante engrandecedora e essencial para a maturidade do meu trabalho.
Durante a pandemia, participou num projeto para o Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido, para a criação de vídeos informativos sobre o programa de testagem. Como é a experiência de retratar este tipo de temas, relacionados com o mundo da saúde pública?
Eu me interesso mais pelo “pública” do que pela "saúde". Acredito que se classificarmos os humanos em grupos eu seria daqueles que nunca seriam médicos, sempre tive medo de injeção e de sangue e o ambiente hospitalar me parece triste ou trágico de uma forma que me deprime. Quando comecei a trabalhar em um livro sobre isso, achei irônico justo eu ter sido o escolhido (já que foi do Luís a iniciativa pela parceria). Mas aprendi bastante coisa sobre esse mundo a ponto de estar até me cuidando mais.
Houve alguma mensagem ou emoção a guiar o seu processo criativo, ou que tenha tentado transmitir com a linguagem visual adotada?
Eu me interesso muito pelo aspeto psicológico e social nas histórias. A forma como a sociedade se desenvolve e como isso afeta o indivíduo. Sempre me intrigou a forma como os médicos e profissionais da saúde se sentiam em relação ao ambiente muitas vezes trágico que permeia a rotina de um hospital. Dizem que esses profissionais são pessoas que sentem menos emoção de tão acostumados a presenciar o sofrimento alheio e é sobre isso que procurei focar no livro. Tentar entender como essas pessoas lidam com essas emoções numa situação catastrófica. Tive muita vontade de mostrar tudo como realmente foi e por isso tive muita pesquisa de referências, tanto de lugares como de procedimentos técnicos. Mas acima de tudo, minha vontade era fazer com que o leitor sentisse o mesmo que o Luís sentiu, como se eu fosse um elo de empatia entre o Luís e o leitor, então acho que meu desenho acaba sendo mais expressivo que realista por conta disso.