Um dia, Ingmar Bergman sangrou do nariz “como um hipopótamo”. Escreveu assim no seu diário: “Aqui começa a minha confusão, aqui irrompem os meus sonhos e visões pela realidade de uma forma assustadora.” Anos mais tarde, contou-o à filha. Depois desse episódio afundou-se duas vezes na piscina até ir a Estocolmo ver um médico. Linn Ullmann demorou quase dez anos até ouvir as conversas que gravou nos últimos tempos de vida do pai. Já não conseguia escrever, trocava muito as palavras, às vezes o raciocínio flutuava, mas respondia às perguntas da filha com uma consciência desconcertante.
Em Os Inquietos, Ingmar Bergman e Linn Ullmann são “ele” e “ela”. A filha do renomado realizador sueco escreve sobre o pai, mas como ser fictício — “é a única forma de lhe dar vida”. Quando começou a gravar as conversas com o pai — chamavam-lhe “trabalho” — não sabia onde é que aquilo ia desaguar. Um livro, um filme, um monte de gravações fechadas numa caixa? Encontravam-se sempre às 11h, marcavam na agenda dele. Linn escrevia o nome do pai e Bergman escrevia L-i-n-n, letra por letra. Numa das conversas entre “ele” e “ela”, “ele” confessa que antes de “ela” chegar estava cheio de medo que tudo aquilo fosse um sonho, que “ela” tivesse ligado a desmarcar o encontro. Mas ela apareceu, aparecia sempre. Quando gravaram a última conversa nenhum dos dois sabia que seria a última. Linn deixou a casa do pai em Hammars e esteve duas semanas em Oslo, onde vivia. Quando voltou, o pai já não se lembrava do “trabalho” nem da filha.
Linn Ullman intercala dois registos narrativos: está dentro e fora, é “ela” mas a seguir é o “eu”. As conversas gravadas vão aparecendo ao longo das páginas e espelham a deterioração do estado de saúde de Bergman. Mas, para além desses, há fragmentos da vida de Linn Ullmann contados na primeira pessoa. O que faz é um retrato de si, da mãe, do pai — uma linha que tenta traçar quem foram e quem são, o que resta do que são.
Bergman tinha 48 anos quando Ullmann nasceu — o porquê de ter ficado com o nome da mãe é uma história que envolve um médico e uma reunião bem-disposta com um juiz e pode lê-la logo nas primeiras páginas do livro. Quando a escritora se tornou adulta, o pai já era velho, sempre tiveram aquele quase meio século de diferença que os separava — numa das gravações o realizador pergunta à filha quantos anos tem; quando ela lhe diz 40, ele fica espantado, diz que não sabia que já era tão velha.
A consciência de um Bergman que se sente a perder capacidades — as palavras a escapar, o corpo demasiado pesado — choca e é desconfortável. Há momentos que sugam o ar dos pulmões. É como se estivesse a encarar-nos naquela cadeira de rodas, frustrado porque não se consegue levantar, a tentar decifrar os sonhos que continuam a aparecer-lhe. Na maior parte dos dias quer estar no escuro, diz à filha que mesmo naquela atmosfera conseguem ver-se, e a conversa continua. Fica nervoso porque sente que não está a responder bem, às vezes demora muito até falar ou perde-se noutros pensamentos.
ELE Seja como for, tenho de pedir à Ann Marie que venha cá e dê uma vista de olhos ao meu... foda-se, como é que se chama...?
ELA Ao teu diário? À tua agenda? É isso que queres dizer? Queres que a Ann Marie venha cá ajudar-te a ver a tua agenda? A que está na secretária?
ELE Sim... onde escrevi... Onde tu escreveste... onde tu escreveste o teu nome e eu o meu e onde anotámos as horas... bem... embora estivesse aqui sentado... pontual... à espera de que chegasses, tenho de pedir à... como é que ela se chama?
ELA Ann Marie. Ele tenta levantar-se da cadeira de rodas. Agarra-se aos apoios de braços e tenta levantar-se do assento. Não o consegue, e volta a sentar-se.
ELE Não consigo fazer isto. Não consigo levantar-me e sair daqui. Soqueia as rodas.
ELE Não tive oportunidade de aprender a usar isto... Sou ridículo, porra. Um inútil.
ELA Não, pai, não digas isso.
Falam sobre a morte também, como não podia deixar de ser. Bergman diz que apesar de a ter tratado muito na sua obra, nunca a levou a sério, só o preocupou de forma “muito discreta”. Na verdade, diz, nunca levou nada a sério. Passados uns segundos diz que também leva tudo a sério, não sabe quem prefere ser.
Os Inquietos é uma memória na forma mais pura: retalhos de recordações e pensamentos numa sequência que é lógica não sendo temporal. Ullmann olha para trás e interpreta o que viveu — constrói a memória com as próprias mãos. Depois de o pai morrer numa madrugada no verão de 2007, encontrou dois post-its na parede do seu escritório — ficou mais clara no sítio de onde os arrancou, deviam estar ali há algum tempo. No da esquerda lia-se: “É assustador cair nas mãos do único Deus vivo. Mas o homem só então encontra a reconciliação.” O da direita completava: “Talvez seja isso que procuramos toda a vida: a maior dor possível, para, por fim, nos tornarmos nós próprios antes de morremos.”
Este artigo foi publicado na Revista Somos Livros (edição Natal 2023).