Segundo Hugo Van Der Ding, "há duas coisas certas na vida: que a Ivete Sangalo vem ao Rock in Rio e que vamos todos morrer." Se já ouviu a sua rubrica na Antena 3, Vamos todos morrer, já está familiarizado com as suas notas necrológicas que provam que a História não tem de ser "um relato aborrecido e soporífero dos grandes feitos e acontecimentos". Compiladas agora num livro com o mesmo título, e publicado pelo grupo editorial Penguin Random House, estas pequenas biografias cheias de humor dão a conhecer os principais acontecimentos da vida de personalidades como Joana D'Arc, Pablo Escobar, Maria Antonieta ou Jesus Cristo. Das 141 personalidades referidas no livro, garante o autor que, até à data, "nem uma reclamou do obituário que lhe calhou em sorte."
Fique com alguns excertos das biografias de José Saramago, William Shakespeare, Eça de Queirós, Natália Correia e Sophia de Mello Breyner.
18 de junho de 2010
Lanzarote
José Saramago
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"No dia 18 de junho de 2010 morria em Lanzarote, aos 87 anos (tão novo...), o escritor e prémio Nobel da Literatura José Saramago. Zé, se me é permitido o abuso, nasceu em 1922, na Azinhaga, Golegã, numa família de agricultores que se mudou para Lisboa quando ele tinha 2 anos. Por dificuldades económicas, nunca chegou a acabar o liceu, nem a frequentar a faculdade. Fica aqui o recado para os escritores portugueses eternos candidatos ao Nobel, por exemplo, para o maravilhoso Lobo Antunes, que é licenciado em medicina: estudasse menos."
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"Em 1980 publica Levantado do Chão, o seu primeiro grande sucesso, tanto de vendas como da crítica, onde mostra já aquelas características que hão de ser a marca do seu estilo uma escrita praticamente oral sem pontuação onde o discurso direto irrompe no meio das frases tudo isto entrecortado com pensamentos e frases que são, em boa verdade, como que capítulos inteiros como este que acabei de escrever. Ou se gosta ou se odeia. Ou se pensa «Ai, não estou a perceber nada», ou «Ai meu Deus, que génio». Quer dizer, meu Deus, mais ou menos, que ele era ateu. Mas, mesmo ateu, fartou-se de escrever sobre Deus, o que não deixa de ser engraçado."
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"Foi casado duas vezes e viveu também longos anos com a atriz Isabel de Nóbrega. Mas, claro, no imaginário coletivo ficou a sua história de amor com a jornalista espanhola Pilar del Rio, num casamento que durou 22 anos.
Depois do Prémio Camões, em 1995, recebe o Nobel da Literatura em 1998, o primeiro para um escritor português e, na verdade, o único, até ver, para um escritor de língua portuguesa.
Os fãs dirão que é um dos maiores escritores portugueses. Já os que o odeiam dirão que é um dos maiores escritores portugueses."
23 de abril de 1616
Stratford-upon-Avon
William Shakespeare
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"No dia 23 de abril de 1616 morria em Stratford-upon-Avon, aos 52 anos (tão novo...), o grande bardo William Shakespeare.
William nasceu na própria da Stratford-upon-Avon, no mesmo dia em que morreu, mas em 1564. O pai, John, era um bem-sucedido fabricante de luvas e a mãe era filha de um abastado proprietário rural. Não que «filha de um abastado proprietário rural» seja uma profissão, mas pronto, era o que a senhora fazia da vida. Quem me dera."
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"William casou aos 18 anos com Anne Hathaway — não a atriz americana que, creio, ainda não era nascida, mas sim uma senhora com o mesmo nome. Tiveram três filhos: Susanna e os gémeos Hamnet e Judith. O pequeno Hamnet morreria com 11 anos e as duas filhas casaram e tiveram filhos, mas a geração extinguiu-se por aí. Não há, portanto, pessoas que possam dizer: «Sabe com quem é que está a falar? Eu sou neto do Shakespeare.»
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"Foi na sua Stratford que o Bardo morreu, repentinamente, diz-se que depois de uma grande bebedeira. O que falta dizer é o que toda a gente já sabe: Shakespeare escreveu os maiores clássicos do teatro e alguns dos maiores da literatura em geral. E do melhor alguma vez escrito em língua inglesa, a que hoje chamamos, não por acaso, a língua de Shakespeare."
16 de agosto de 1900
Neuilly-sur-Seine
Eça de Queirós
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"No dia 16 de agosto de 1900 morria em Neuilly-sur-Seine, nos arredores de Paris, aos 54 anos (tão novo...), José Maria Eça de Queiroz, mais conhecido pelo seu pseudónimo José Maria Eça de Queirós.
José Maria nasceu em 1845, na Póvoa de Varzim e, sem querer parecer uma quadrilheira, devo dizer que os pais não eram casados. Pois é. Na verdade. foi registado como filho de pai incógnito e de mãe solteira, e tinha já quatro anos quando os pais se casaram. Mas este estigma vai acompanhar Eça pelo resto da vida. Isto no século XIX realmente era uma escandaleira. E é um tema a que ele volta muitas vezes: as mulheres dissolutas, os incestos, os cornos."
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"(...) Era uma criança excessivamente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós, os portugueses. só começamos a ser idiotas quando chegamos à idade da razão. Em pequenos, temos todos uma ponta de génio. Não se irritem já comigo, esta frase é dele."
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"Para quem nunca leu, aqui ficam os spoilers: n'Os Maias, eles são irmãos, n'A Tragédia da Rua das Flores, são mãe e filho, e n'O Primo Basílio ela morre no fim. Tomem e embrulhem.
É indiferente como é que acabam, porque com Eça o que vale a pena é a viagem, não o destino. Eça é que é essa."
16 de março de 1993
Lisboa
Natália Correia
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"No dia 16 de março de 1993 morria em Lisboa, aos 69 anos (tão nova...), a poeta portuguesa Natália Correia.
Natália nasceu em 1923, na Fajã de Baixo, em Ponta Delgada. Quando tinha apenas 11 anos, o pai emigrou para o Brasil e nunca mais deu notícias. Não sei se terá ido comprar cigarros, mas, se foi por isso, era um pouco totó, que os Açores produzem tabaco e até é bastante mais barato."
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"Natália não foi «só» poeta. Foi também tradutora, editora e, sim, política. Crítica do Estado Novo e dona de uma oratória brilhante, fez parte da campanha para a eleição do general Norton de Matos e, depois, de Humberto Delgado. Ainda durante a ditadura, foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, por ofensa aos bons costumes devido à publicação da sua Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica."
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"Figura incontornável da cultura portuguesa. Natália foi muitas coisas, como se vê, e as suas facetas são inseparáveis. Não era isto, nem aquilo, era Natália.
Foi a voltar do seu Botequim que, certa noite, um ataque cardíaco fulminante pôs fim a esta vida tão cheia e intensa. Uma vida com um dom. Dizia ela: «Não sei tratar de nada, na ordem das coisas práticas, não sei assinar um cheque, sou perfeitamente desastrada. Só sei escrever». Olha, ainda bem.
2 de julho de 2004
Lisboa
Sophia
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"No dia 2 de julho de 2004 morria em Lisboa, aos 84 anos (tão nova...), a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen ou, simplesmente, Sophia."
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"(...) Desde muito pequena, falava com as criadas em verso. Em francês naturalmente, para as criadas não perceberem. Brinco. Mas de facto a poesia entra na sua vida antes de ela saber da existência da literatura."
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"Para além da sua poesia, uma das mais significativas da língua portuguesa, entra para o imaginário coletivo de gerações com os seus contos infantis, que terá começado a escrever para os filhos, e que hoje são talvez a parte mais conhecida da sua obra."
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"(...) Escreveu ainda o clássico Contos Exemplares. Imagino sempre a seguinte entrevista a Sophia:
Jornalista: Qual é o seu livro mais lido?
Sophia: Contos exemplares.
Jornalista: Quantos exemplares?
Sophia: Sim."
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"Já elevada a tesouro nacional e carregada de prémios e distinções — foi, por exemplo, a primeira mulher a receber o Prémio Camões —, Sophia morre em Lisboa, em 2004. Mas, como sabemos, os poetas não morrem."
Ilustração de Hugo van der Ding.