“O Sonho”, de José Tolentino Mendonça

Por: Beatriz Sertório a 2024-11-22

José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça é poeta, sacerdote e professor. Nasceu na ilha da Madeira. Estudou Ciências Bíblicas em Roma e vive no Vaticano desde 2018, onde foi responsável pela Biblioteca Apostólica e pelo Arquivo Secreto do Vaticano e é atualmente Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação. Em 2019, foi elevado a Cardeal pelo Papa Francisco. Para José Tolentino Mendonça, «a poesia é a arte de resistir ao seu tempo». Os seus livros têm sido distinguidos com vários prémios, entre eles o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia (1998), o Prémio PEN Clube de Ensaio (2005), o italiano Res Magnae, para obras ensaísticas (2015), o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes APE (2015), o Grande Prémio APE de Crónica (2016), prestigiado Prémio Capri-San Michele (2017), o Prémio D. Diniz (2022), Francisco de Sá de Miranda (2022), Prémio Pessoa (2023) e o Prémio Eduardo Lourenço (2025).

VER +

10%

O Centro da Terra
14,40€ 12,96€
PORTES GRÁTIS

Em vez de ter medo, tenham sonhos.” Assim se dirigiu José Tolentino Mendonça aos jovens portugueses que acolheram as Jornadas Mundiais da Juventude em 2023. Sacerdote e poeta, crê no sonho como força motora, capaz de mudar o mundo para melhor, mas também no poder transformador da poesia, essa que embora não salve o mundo, “salva o minuto” (Matilde Campilho). No seu novo livro de poemas, intitulado O Centro da Terra (Assírio & Alvim), volta a explorar o território dos sonhos, como ponte entre o informe irrecuperável da infância e o tempo transitório do presente. Entre eles, puxando para si todos os fios do poema, a figura terrivelmente bela da mãe, centro geodésico do inteligível, o umbigo do mundo. É dela que trata este “sonho”.
 

O Sonho
Os sonhos são afinal mais verosímeis 
do que aquilo a que chamamos realidade
permitem-nos uma forma de nomear
um possível recomeço, em outras paragens
quando nos sentimos mais sós
do que qualquer criatura
os sonhos acontecem para deixar viver
na nossa carne
a ferrugem abrasiva de uma pergunta brusca
que não coincide com a extinção apenas

Quando sonhei com a minha mãe a noite passada
não era apenas a lembrança do seu cabelo preto
e dos braços brancos como costelas de um pássaro
onde ela estiver será sempre o mundo verdadeiro
a figura de uma lenda que não se divide com o vento
corria assim ao limiar da porta
abria-a e olhava o exterior
onde antes batia um coração um enxame cantava

Quando se voltou para mim e me viu
ainda me amava com igual estremecimento
porque os filhos transportam a beleza imprevisível
dos desconhecidos
se existem têm início num aquém ou num além
sem lhes pertencer inteiramente
os filhos avançam pelos campos de centeio
estão a queimar agora a palha
junto das casas abandonadas
estão a negociar um assento disponível
na carroça que passa
e o seu alarido sobrepõe-se na tarde
aos charcos redondos com água

A vida havia-nos separado mas o sonho aproximava-nos
mesmo se por detrás de um vidro fosco
para que não fosse tão assustador morrer
os dois sós ao entardecer, talvez tivéssemos
podido passear juntos

No ar que cai sobre o campo
com os primeiros sinais da noite
eu via-a a acenar
e não sei se a mim se aos músicos de um barco
que naquele momento atravessava o canal

 

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?

O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.