“Em vez de ter medo, tenham sonhos.” Assim se dirigiu José Tolentino Mendonça aos jovens portugueses que acolheram as Jornadas Mundiais da Juventude em 2023. Sacerdote e poeta, crê no sonho como força motora, capaz de mudar o mundo para melhor, mas também no poder transformador da poesia, essa que embora não salve o mundo, “salva o minuto” (Matilde Campilho). No seu novo livro de poemas, intitulado O Centro da Terra (Assírio & Alvim), volta a explorar o território dos sonhos, como ponte entre o informe irrecuperável da infância e o tempo transitório do presente. Entre eles, puxando para si todos os fios do poema, a figura terrivelmente bela da mãe, centro geodésico do inteligível, o umbigo do mundo. É dela que trata este “sonho”.
O Sonho
Os sonhos são afinal mais verosímeis
do que aquilo a que chamamos realidade
permitem-nos uma forma de nomear
um possível recomeço, em outras paragens
quando nos sentimos mais sós
do que qualquer criatura
os sonhos acontecem para deixar viver
na nossa carne
a ferrugem abrasiva de uma pergunta brusca
que não coincide com a extinção apenas
Quando sonhei com a minha mãe a noite passada
não era apenas a lembrança do seu cabelo preto
e dos braços brancos como costelas de um pássaro
onde ela estiver será sempre o mundo verdadeiro
a figura de uma lenda que não se divide com o vento
corria assim ao limiar da porta
abria-a e olhava o exterior
onde antes batia um coração um enxame cantava
Quando se voltou para mim e me viu
ainda me amava com igual estremecimento
porque os filhos transportam a beleza imprevisível
dos desconhecidos
se existem têm início num aquém ou num além
sem lhes pertencer inteiramente
os filhos avançam pelos campos de centeio
estão a queimar agora a palha
junto das casas abandonadas
estão a negociar um assento disponível
na carroça que passa
e o seu alarido sobrepõe-se na tarde
aos charcos redondos com água
A vida havia-nos separado mas o sonho aproximava-nos
mesmo se por detrás de um vidro fosco
para que não fosse tão assustador morrer
os dois sós ao entardecer, talvez tivéssemos
podido passear juntos
No ar que cai sobre o campo
com os primeiros sinais da noite
eu via-a a acenar
e não sei se a mim se aos músicos de um barco
que naquele momento atravessava o canal