“Poiesis”, de José Luís Mendonça

Por: Beatriz Sertório a 2024-07-17

José Luís Mendonça

José Luís Mendonça

José Luís Mendonça, licenciado em Direito, tem vindo a exercer, também, o jornalismo nas colunas de diversos jornais angolanos. É diretor e redator-chefe do semanário Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras editado em Luanda. Publicou, o seu primeiro livro Chuva Novembrina, em 1981. Membro da União de Escritores Angolanos, em linha natural com todos os jovens escritores da denominada "novíssima geração", a sua produção escrita desponta como reflexo de uma situação histórica demasiado centralizadora e redutora, os seus textos constroem-se como uma unidade que gravita em torno do "sentir" do sujeito poético face à morte das utopias vanguardistas e revolucionárias dos anos 60 e 70 e do seu desencanto com a realidade do presente e a incerteza do futuro.

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Um poema por dia não sabe o bem que lhe fazia. Hoje, escolhemos um da novidade Um Voo de Borboleta no Mecanismo Inerte do Tempo, uma antologia que assinala 42 anos de poesia de José Luís Mendonça. Nascido em Angola em 1955, foi o vencedor do Prémio Angola Trinta Anos em 2005, e do Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de Literatura, em 2015. Poeta, romancista e jornalista, agradece no prefácio desta obra a sua publicação pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, como mais um importante contributo para o “património verbal da moderna poesia de Angola”.

Deixe-se levar por Poiesis, o poema que abre Um Voo de Borboleta no Mecanismo Inerte do Tempo; esse que “dentro da crisálida já pulsa” “na linfa pontilhada de pólen. O voo da borboleta é um sonho eterno no mecanismo inerte do tempo. O voo da poesia.

 

Poiesis

Quando não penso um poema
se esquece no meu útero.
Não sou eu quem o dá á luz
é a minha inexistência que o me dita.

Poesia governada a pão
e água do grande lábio em brasa que um deus
no meu ombro poisa.

Poesia grito rasgando as costelas
dense tigre oculto no teu coração.

Poesia terra poesia ave 
poesia nada céu azul granizo
poesia quase fome de infância.

Poesia sede de quem cospe areia
no prato deserto
poesia carta de cartar a fala
de quem vive debaixo das pontes do sonho.

Poesia água poesia fogo
poesia quinda de burgaus polidos
sem querer no rio da eternidade
peixe ondulante agora na mão
branca-azul e verde cor de laranja do mar.

Poesia sorte de negro emigrante
show de rumba e semba a suar coltan
de todos os Congos doa a quem doer.

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