"Entrevista de emprego", de Filipa Leal

Por: Bertrand Livreiros a 2020-07-13 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Filipa Leal

Filipa Leal

Filipa Leal nasceu no Porto, Portugal, em 1979.
Tem 15 livros publicados (desde 2004), entre os quais A Cidade Líquida e O Problema de Ser Norte, ou Vem à Quinta-feira (já na 5.ª edição) e Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano, ambos finalistas do Prémio Correntes d’Escritas e semifinalistas do Prémio Oceanos. Está editada em Espanha e no Brasil (com o livro A Cidade Líquida); na Colômbia (com a antologia En los días tristes no se habla de aves); em França (com a plaquete La Ville Oubliée); na Polónia (com o livro Zapalki i metal na imitacji materii ludzkiej) e no Luxemburgo (Vale Formoso, edição bilingue francês-português).
Formada em Jornalismo pela Universidade de Westminter (Londres), é Mestre em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Está representada em várias antologias em Portugal e no estrangeiro (Venezuela, México, Bulgária, Grécia, Países Baixos ou Eslovénia). Em 2010, teve um dos seus poemas exposto no Metro de Varsóvia, na iniciativa «Poems on the Underground». Em 2012 e 2014, representou Portugal em encontros literários na Alemanha – no Festival de Poesia de Berlim 2012, e na Conferência dos Escritores Europeus 2014/Long Night of European Literature, no âmbito da qual fez uma leitura dos seus poemas no Deutsches Theater. Em 2016, o seu poema «Hoje, também os carros dançam» integrou uma instalação sonora europeia na British Library, em Londres; e, em 2023, o poema «Quanto tempo para o intervalo» esteve exposto na Polónia na iniciativa «Poems in the City». Tem integrado alguns júris internacionais: fez parte do Júri do Prémio de Literatura Oceanos (2018) e do Júri do Prémio de Jornalismo Gabriel García Márquez (Colômbia, 2019). Poeta, jornalista e argumentista (destaque para o guião do filme Jogo de Damas, com a realizadora Patrícia Sequeira – Prémio de Melhor Guião nos Festivais de Cinema do Chipre e de Copenhaga; e para a série Mulheres Assim, na RTP1). Acaba de publicar o livro de poemas Adrenalina, assinalando os seus 20 anos de poesia.

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Em entrevista à revista Somos Livros, Filipa Leal confessou que se fosse um poema, as primeiras palavras seriam as de um soneto de Camões que desde a adolescência vem colando nas suas mesas de trabalho: "Que dias há que n’alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde, / vem não sei como e dói não sei porquê". Nasceu no Porto em 1979, e é poeta, jornalista e argumentista. Publicou o seu primeiro livro, lua-polaroid, em 2003, ao qual se seguiram oito títulos de poesia, entre os quais A Cidade Líquida, O Problema de Ser Norte, A Inexistência de Eva, ou, o mais recente Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano. Atualmente, colabora com o programa semanal Nada será como Dante, da RTP2.

O poema "Entrevista de emprego" faz parte do livro Vem à Quinta-feira, o primeiro livro da autora a ser publicado pela editora Assírio e Alvim


Entrevista de emprego, de Filipa Leal

Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse um
aspecto impeditivo,
prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro,
ao nosso relacionamento
profissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras,
sim,
e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menos
cuidado com elas,
e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as com
respeito,
o senhor sabe pontuar uma conversa, pergunto, sabe fazer as pausas
certas,
desculpe, tem toda a razão, quem faz as perguntas aqui é o senhor,
e eu respondo, claro, se souber, mas sei pouco, tem toda a razão,
sim, sou formada em Letras, desculpe, sim, sim, gosto de Línguas,
sim,
mas não da sua, confesso, desculpe, desculpe, é que de repente
pensei
que pudesse estar a interpretar-me mal com o duplo sentido da
palavra língua,
sabe como é, hoje em dia todo o cuidado com a palavra é pouco
e eu tinha acabado de lhe perguntar se gostava de mulheres,
podia soar a sedução,
na verdade só procurava saber se o senhor era machista,
desculpe, fui indelicada,
sim, tem toda a razão, eu gosto é de livros, eu gosto é das
notícias que não vêm
nos jornais, eu gosto é de histórias de encantar, mas olhe que há
algumas bem cruéis,
não, não são só as de terror, olhe que o terror às vezes está aos
pés da câmara,
não, não, eu disse câmara, ouviu bem, achei que se dissesse
cama podia voltar a
baralhá-lo, e daqui a pouco ainda pensava que tenho algum
interesse em si,
tem razão, tem toda a razão, não me lembrei de destacar esse
aspecto no currículo,
não pensei que escrever poemas fosse uma condenação
curricular,
mas já que pede a minha opinião, compreendo que o senhor
não há-de precisar
de uma pessoa como eu, repare, eu gosto de olhar para o céu
horas a frio,
não, não, eu disse frio, ouviu bem, pareceu-me o termo
adequado a este diálogo,
e sim, tem toda a razão, eu não devia tê-lo feito perder o seu
tempo, desculpe,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que só sei ler e escrever,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que sou apenas o contrário de um analfabeto.

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