A relação entre os seres humanos e os cães é uma realidade bem conhecida por todos, porém, trata-se de um caminho encetado há muitos séculos e cujos contornos se revelam em diferentes campos da atividade humana. Ciência, História, Arte e Memória serão os quatro pilares onde se ergue O Melhor Amigo do Cão — A história de um laço inquebrável, livro do eclético Simon Garfield, uma obra bem documentada, com afetivas lambidelas na mão do leitor.
A descrição é pormenorizada e peculiar: “os candidatos a cães de terapia têm de corresponder a determinados critérios que excluem os animais menos aptos — por exemplo, reagem positivamente a estranhos? Deixam um estranho tocar nas suas orelhas e cauda sem ficarem desconcertados? Retiram a comida gentilmente da mão de uma pessoa? Restabelecem-se rapidamente de ruídos altos ou recusam-se a sair de baixo da mesa? Raramente ladram e têm um temperamento calmo ou irritam-se com frequência?” O cenário é o Wittington Health NHS Trust e o protagonista que origina esta passagem é Bryn, um border collie que integra a unidade de cães TheraPaws. Por ano, são mais de 700 visitas de cães a centros de saúde e lares, ou mesmo a grandes escritórios, ajudando os funcionários a combater o stresse e prevenir o tão contemporâneo burnout. Esta divulgação de uma instituição onde se recorre às capacidades terapêuticas do contacto com cães é um dos momentos mais elucidativos sobre a pertinência do trabalho de Simon Garfield, uma incursão em distintos sentidos, traçando um mapa de referências à presença dos “amigos de quatro patas” no nosso quotidiano. O resultado intitula-se O Melhor Amigo do Cão — A história de um laço inquebrável, tem edição portuguesa pela Bertrand, e tradução de Rute Mota.
Um livro concebido, em parte, durante o período da pandemia de Covid, época durante a qual — todos nos recordamos — a ligação com os animais que habitam em nossas casas se intensificou naturalmente, quase privados de contacto com os da nossa espécie.
“Este livro analisa como o mais forte dos laços interdependentes se manifestou ao longo de séculos e como transformou muitos milhões de vidas, humanas e caninas”, sintetiza o próprio autor. Um livro concebido, em parte, durante o período da pandemia de covid, época durante a qual — todos nos recordamos — a ligação com os animais que habitam em nossas casas se intensificou naturalmente, quase privados de contacto com os da nossa espécie. Sem grandes surpresas, a deambulação que o livro encerra começa de um modo bastante pessoal, falando-nos do próprio animal de companhia, Ludo, uma representativa amostra de qualquer juiz olfativo. Esta designação poderá fazer sentido, depois de lermos que o nariz de um cão tem mais de 200 milhões de recetores sensíveis aos odores, 40 vezes mais do que um nariz humano. Na mesma proporção, se um cérebro humano ocupa cinco por cento da sua atividade com os cheiros, no cão, essa função ocupa um terço da massa cerebral.
Em cada um dos capítulos, sobressai a experiência jornalística do autor, sem que a relação entre eles pretenda constituir uma tese por si só, desenvolvidos de forma metódica e com uma notória pesquisa em diferentes quadrantes, o que resulta num poliedro final, apresentando-se com faces distintas, mas contribuindo para a consolidação do mesmo objeto de estudo. E, apesar do rigor e do manancial de informação, há um cuidado permanente em que a leitura seja acessível e a conexão afetiva nunca é dissimulada.
A investigação levada a cabo por Garfield (ironicamente, o apelido que tornou famoso um dos mais divertidos gatos do mundo) recua bastante no tempo, com o intuito de trazer alguma luz sobre os primórdios desta relação de seis patas que, ainda hoje, é das mais universais, em diferentes culturas, um pouco por todo planeta. “Julga-se que os humanos começaram a domesticar os cães algures entre 15 mil e 40 mil anos atrás”, informa-nos, na sequência de detalhada informação sobre a presença canídea na arte rupestre ou em outras fontes arqueológicas, como os vestígios de antiga Pompeia.
Alguma da informação recolhida e trabalhada tem ainda o condão de nos remeter para figuras históricas ou elementos centrais da cultura universal. É o caso de Charles Darwin, cuja escrita da sua terceira obra, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, foi acompanhada de perto por uma carismática cadela terrier, a Polly. “Devido aos seus outros feitos, a história tende a não considerar Darwin principalmente como psicólogo comportamental canino; ele talvez se tivesse considerado a si mesmo mais como um amante de cães (…). A intuição dele era certeira. O laço entre humanos e cães era evidente pela ligação que ele sentia em relação a eles como companheiros, e a compatibilidade foi confirmada pelas suas observações”, realça Garfield, ao discorrer sobre a experiência do autor de A Origem das Espécies com a espécie canina.
Como já foi referido, o mundo da Arte surge diversas vezes evocado, do encontro com David Hockney, no seu ateliê, em Los Angeles, às coleções de arte canina do Kennel Club de Matfair, e do Kennel Club’s Museum of the Dog, em Manhattan, onde se encontram peças como Silent Sorrow (de Maud Earl, representando o cão de Eduardo VII, chorando a morte do dono), Pug and Terrier (quadro de 1875, pintado por John Saargent Noble, com um intenso subtexto político) ou aquela que Garfield considera a peça mais apelativa, um paraquedas usado por uma heroína canina da Segunda Guerra, a yorkshire terrier Smoky, da qual se crê, “combateu nas selvas da Nova Guiné e ajudou a estabelecer as linhas de comunicação por baixo de um importante aeroporto”. E, se há referência a exposições e obras onde o cão é o retratado, será justo assinalar devidamente o outro lado da questão, que é como quem diz, a exposição promovida em 2013 na Gallery on the Corner, no bairro londrino de Battersea, para ajudar um abrigo local para cães e gatos. Os trabalhos à venda foram criados por cães, empurrando uma tigela com comida, à qual estava agarrado um pincel, sobre um chão forrado a papel. Como seria o desfecho, se alguns destes trabalhos fossem desembocar em algum leilão de nomeada, omitindo a origem genética dos seus autores?
Se as Artes Plásticas são chamadas à conversa, a Literatura também entra nos tópicos abordados. Mais uma vez, a ambição do autor é notória, ansiando abarcar um vasto leque de referências e pistas, referindo episódios da Grécia Antiga (envolvendo Pitágoras e Xenófanes) ou informando-nos sobre “a primeira obra impressa completamente dedicada a cães”, publicada em 1576, escrita em Latim, com o título Dos Cães Ingleses, as Variedades, os Nomes, as Naturezas e as Características, da autoria de Johannes Caius, médico de Eduardo VI e das Rainhas Maria e Isabel. A escritora Virginia Woolf ocupa um detalhado destaque de várias páginas, incluindo o seu historial pessoal com os cães (que não começou da melhor forma), a sua relação afetuosa com o cão da família, Shag, e um especial enfoque no seu livro Flush, dedicado ao cão da Princesa Elizabeth Barrett. Igualmente elogiado é Jack London (1876–1916), marinheiro nómada e autor de alguns títulos de nomeada, incluindo O Apelo Selvagem, descrito por Garfield como “o livro de cães mais notável e arrebatador, ríspido e alegórico sucesso de vendas”. Na banda desenhada e ilustração, Snoopy, criação intemporal de Charle Schultz para a galeria de figuras que envolve o universo de Charlie Brown, ou o Milu, imaginado por Hergé, para fazer dupla com o seu repórter Tintin (e, neste caso, Garfield tece algumas críticas à alegada inconsistência da figura canina), também surgem nesta longa sequência de factos, personagens, curiosidades e reflexões.
A abordagem de Garfield a algumas figuras icónicas não se fica pela Terra. A referência a Laika, a cadela soviética que inaugurou a presença canina no Espaço, em 1957, é feita com alguma emoção, demonstrando respeito e algum pesar, pelo destino do animal, cuja presença a bordo durou menos de cinco horas e cujas “verdadeiras circunstâncias da morte foram ocultadas durante quarenta e cinco anos, pelo menos, supomos que por vergonha”.
O livro encerra — antes de uma extensa bibliografia, que assegura vários meses de leitura — com algumas explanações sobre as questões da clonagem e outras variantes científicas, bem como um capítulo dedicado à Darwin’s Ark (no qual muito se fala sobre as questões da genética) e à Discovery Dogs, o maior evento canino de Londres, envolvendo 35 mil pessoas.
Em suma, o novo livro de Simon Garfield convida os amantes de cães a ficarem a saber muito mais sobre os seus animais e toda história que os envolve, ao mesmo tempo que abre as portas da curiosidade a tantos outros que poderão descobrir diversos factos antes nunca imaginados e, quiçá, sentir um súbito apelo para partilhar o seu quotidiano com um companheiro de quatro patas, tantas vezes mais lúcido e dedicado do que as caricaturas em filmes, livros, pinturas, lendas e outros relatos podem fazer crer. Além disso, sem margem para dúvidas, entendemos como a relação entre homens e cães é algo que acompanha a História da Humanidade há muito, muito tempo.