Vivemos numa era em que parece que o ruído faz parte intrínseca dos nossos dias: a informação chega-nos em rajadas; a violência está quase normalizada nos telejornais; as tendências mudam mais rápido do que as conseguimos apanhar e andamos sempre com uma sensação pesada aos ombros, de que nunca somos capazes de estar, realmente, presentes em lado nenhum.
A literatura é uma área na qual esta tendência aparenta diminuir e, embora recentemente também aqui se sinta um frenesim de ler muito, ler tudo, ler rápido e ler mais do que o outro, ela continua a desempenhar uma das funções mais importantes: devolver-nos a capacidade de estarmos presentes num local, numa página. Pensar, absorver. Traz-nos ao desconforto do silêncio, do estar no presente, da história. Obriga-nos a olhar mais fundo e mais atentamente.
E é assim, do meio de toda esta inquietação, que nasce a literatura de Ana Paula Maia, que, ao longo da sua obra, constrói um universo de personagens que raramente ocupam o centro das narrativas sociais: pessoas invisíveis, trabalhadores marginalizados, indivíduos presos a sistemas que limitam as suas escolhas e reduzem as suas existências à luta pela sobrevivência.
Em Assim na Terra como Embaixo da Terra, Ana Paula Maia dirige o nosso olhar não apenas para a violência enquanto acontecimento, mas para a violência enquanto sistema. Para as estruturas que a produzem, que lucram dela e que a alimentam e normalizam. Um livro duro, implacável e extremamente incómodo, que se instala em nós quase como uma pequena borboleta melancólica no estômago.
A escritora chegou em peso à cena internacional em 2026, quando este romance entrou para a shortlist do International Booker Prize. Foi a primeira mulher brasileira a ser finalista do prémio, numa lista que incluía nomes como Marie NDiaye e Daniel Kehlmann. O júri descreveu o seu livro como "um romance brutal, assombroso e hipnótico".
A história passa-se numa colónia penal isolada no interior do Brasil, em vias de encerramento. Uma prisão construída sobre a terra onde, antes, foram torturadas e assassinadas pessoas escravizadas. Sobre este passado enterrado, o estado ergueu muros, instalou guardas e categorizou homens. Agora, nas suas últimas semanas de funcionamento, o diretor Melquíades, numa espiral de violência e loucura, decide libertar os prisioneiros nas noites de lua cheia e caçá-los de espingarda na mão. Os presos usam pulseiras eletrónicas nos tornozelos, que acreditam ser bombas que explodirão assim que ultrapassem os limites da colónia. Por isso, ninguém foge. Por isso, ninguém é, realmente, livre.
É neste cenário que Ana Paula Maia insere as suas personagens: Bronco Gil, homem grande e taciturno que pensa em fugir, mas que sabe que morrerá ali; Valdênio, o cozinheiro de 65 anos que passou metade da vida atrás das grades e já não sabe existir de outra forma; Pablo, que encontrou uma fissura num dos muros e começou a sonhar; Taborda, guarda prisional que obedece com o coração pesado, tão prisioneiro como os homens que vigia. Nenhum deles é herói, nesta história. Nenhum é inteiramente vilão. Todos são, apenas e só, seres humanos reduzidos à sua forma mais essencial: sobreviver a mais um dia.
Uma das forças da sua escrita passa exatamente pela recusa em simplificar a condição humana: as suas personagens não respondem a categorias morais rígidas; são pessoas moldadas pelas circunstâncias, pelas hierarquias e relações de poder que as rodeiam.
(...) as suas personagens não respondem a categorias morais rígidas; são pessoas moldadas pelas circunstâncias, pelas hierarquias e relações de poder que as rodeiam.
"Foi adestrado para obedecer. Ainda que não concordasse com algum método ou procedimento, deve fazer apenas o que lhe mandam. Tornou-se indiferente; tanto aos outros, como a si mesmo."
O isolamento da colónia não é apenas geográfico, é também uma condição ontológica. O tempo, naquele lugar, funciona de forma diferente: é mais lento, mais circular, repete-se como uma sentença que se cumpre a si mesma. Os homens perdem o fio condutor dos dias, da realidade do exterior, das suas próprias histórias, do sentido de tudo aquilo que existia antes daqueles muros.
Valdênio apresenta-se como a encarnação mais perturbadora deste fenómeno, pois não quer sair. O confinamento retirou-lhe, além dos anos, a capacidade de se imaginar fora dele, fora dos muros que agora fazem parte de si. E Ana Paula mostra-nos, com uma precisão clínica, que isso é a forma mais genuína de destruição: a morte não do corpo, mas da possibilidade.
Em entrevista ao Booker Prize, Ana Paula Maia falou do tema: “Quanto mais refleti sobre o sistema prisional no Brasil e noutras partes do mundo, mais percebi que, além da aplicação das leis aos criminosos, no fim, estamos todos presos neste mundo, com muros que podem, ou não, ser visíveis".
Ana Paula Maia não escreve sobre a prisão para julgar, mas, acima de tudo, para a entender, e para nos fazer entender aquilo que ela produz. "Não a queria julgar, mas compreendê-la mais profundamente", disse. Levou-lhe cerca de sete meses escrever este livro, após muita investigação, reflexão e leitura de processos e declarações públicas.
Na imprensa, tem sido recorrente a comparação com Cormac McCarthy: a paisagem desolada, a violência que se nos depara de frente. Mas há algo em Ana Paula que McCarthy não tem: um olhar feminino sobre um universo exclusivamente masculino, que recusa, sistematicamente, romantizar a brutalidade e a violência. Não há glamour, há apenas homens: assustados, desumanizados, presos em sistemas que os esmagaram e classificaram como perigosos.
“De um extremo ao outro da Colónia, somente os muros altos lhe parecem confiáveis. De fato, constata, esses muros não servem apenas para manter os condenados confinados, mas para apagar qualquer vestígio da existência desses homens.” (p. 92)
Assim na Terra como Embaixo da Terra chega a Portugal em julho, trazendo consigo uma leitura que nos senta à frente de uma realidade a que muitos preferem fechar os olhos.
Ana Paula Maia
Nascida em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, em 1977, Ana Paula Maia é escritora e argumentista, filha de uma professora de português e de um distribuidor de bebidas, dois mundos que talvez expliquem a precisão da sua linguagem e o olhar sobre o trabalho braçal que atravessa toda a sua obra. Publicou sete romances, entre os quais Enterre Seus Mortos e a trilogia A Saga dos Brutos, adaptado para cinema, e é autora da série sobrenatural Desalma, no Globoplay. Venceu o Prémio São Paulo de Literatura por dois anos consecutivos.