Quando
Drnaso
estava prestes a enviar a história para a editora, sentiu-se invadido pela avassaladora ideia de que a história era irremediavelmente trágica. Tinha acabado de regressar de um retiro para escrever (a primeira vez sem a sua namorada, em mais de três anos) e sentiu-se destabilizado.
Donald Trump
tinha acabado de ser eleito e os elementos grotescos da história que havia desenhado pareciam-lhe diferentes. Questionava-se se haveria motivo para publicar uma história destas, num mundo que se estava a afundar em pessimismo e negatividade.
Drnaso
, que só conseguiu desenhar as cenas do assassinato de Sabrina depois de se ter embriagado, questionou-se se ler estas páginas seria muito diferente de assistir, online, aos assassinatos perpetrados pelo ISIS. Concluiu que tinha criado um
“livro tóxico numa era tóxica”
. Convenceu-se de que não seria saudável, para ninguém, ler esta história. Enviou um e-mail ao seu editor, informando-o de que não queria publicar
“Sabrina”
. Seguiu-se uma fase complicada. Deixou de desenhar, voltou a ser inundado pelas memória de quando tinha sido vítima de abuso sexual e ponderou mesmo suicidar-se, na tentativa de desligar. Consultou um terapeuta, passou a tomar antidepressivos e começou a sentir-se mais estável. Durante este período, revisitou Sabrina e concluiu que podia publicá-la se removesse a cena do assassinato e acrescentasse outros momentos, como aquele em que a irmã de Sabrina fala do seu trauma, para uma plateia, num café. Decidiu também doar o valor dos direitos de autor, da primeira edição, a algumas instituições de caridade.
Apesar de tudo isto, este não é um trabalho autobiográfico, esclarece o autor. Vencedor do Prémio Revelação do Festival de Angoulême, em França, é a primeira novela gráfica nomeada para o
Man Booker Prize
, tendo sido qualificada, pelo júri, como uma obra
“oblíqua, subtil e minimal”
.
“É o melhor livro que li sobre o momento atual”
, confessou, por seu lado,
Zadie Smith
.
“Sabrina”
não é a história de um crime, é a nossa história, o relato cru e assustador deste presente que é nosso; um angustiante retrato desta solidão tão densa e asfixiante que se entranha na memória dos dias. Depois de ler
“Sabrina”
, é preciso respirar.