Primeira obra de Paul Lynch a ser publicada em Portugal, Canção do Profeta (Prophet Song), é o quinto romance escrito pelo autor irlandês, trazido às prateleiras do país pela editora Relógio d´Água, com tradução de Marta Mendonça. Em 2023, o livro foi agraciado com o Booker Prize, um dos mais importantes prémios britânicos para livros em língua inglesa. A receção da crítica, tanto em relação ao livro quanto à premiação, tem sido dividida: talvez a divergência se deva, em grande parte, ao facto de seu perfil ser muito distinto de obras laureadas com o mesmo prémio em edições anteriores, como, por exemplo, Lincoln no Bardo (Lincoln In The Bardo), de George Saunders, ou Rapariga, Mulher, Outra (Girl, Woman, Other), de Bernardine Evaristo. Canção do profeta parece ser um livro capaz de agradar mais a leitores afeitos a thrillers distópicos, ou obras de género similar, do que àqueles que buscam trabalhos mais profundos de composição com a linguagem, com a estrutura do texto ou de investigação psicológica das personagens.
Não que Lynch deixe de buscar lirismo ou outros procedimentos poéticos na sua construção narrativa; são abundantes as metáforas e formulações imagéticas, tais como nos momentos em que a protagonista, Eilish, “vê um foguete de sinalização perscrutar o céu noturno qual peixe bioluminescente nadando vagaroso na escuridão do oceano”, ou “vê o sangue do homem a escapar-se lentamente do corpo dele, o sangue ainda cheio de vida celular, os glóbulos brancos e vermelhos num limbo estranho tentando fazer o seu trabalho enquanto o sangue segue a inclinação da rua como se tivesse decidido que a sarjeta o conduzirá aos lençóis freáticos onde irá encontrar a dissolução e regressar”. As ausências de quebras de parágrafos no interior de cada capítulo, ou de separações gráficas entre as falas das personagens e a voz do narrador, também têm sido apontadas, por muitos veículos, como elementos que fornecem teor claustrofóbico ao livro.
A história começa com uma batida à porta da residência dos Stack, onde Eilish segue sua rotina de final do dia, acompanhada de alguns dos seus quatro filhos. O marido, Larry, está ausente e é à procura dele que vieram dois policiais à paisana. Ambos fazem parte do GNSB, ou Garda National Services Bureau, uma força de segurança que, à semelhança da Gestapo, serve ao governo e seus interesses de forma quase ilimitada. A Irlanda distópica do livro está sob o domínio do Partido da Aliança Nacional, uma entidade que faz lembrar desde os nazistas alemães até o Partido de 1984, de George Orwell. Quando Larry volta para casa, pouco mais tarde, é informado por Eilish que os agentes vieram procurá-lo. Ele demonstra não perceber o perigo que corre, enquanto também expõe os motivos desse perigo, ao explicar para a esposa sobre seu trabalho: “eles sabem que sou um homem ocupado, sou o secretário-geral-adjunto do Sindicato dos Professores da Irlanda, não estou propriamente à disposição deles.”
O autoritarismo do governo tem uma rápida escalada, encaminha-se a uma política extremista e sanguinária. Larry, que ainda se via como um cidadão a ser respeitado, atende à convocação para prestar depoimentos ao GNSB e, pouco depois, desaparece sem deixar vestígios. Destinos semelhantes têm outros membros do Sindicato, o que sinaliza a gravidade da situação. Logo, as pessoas se veem a ter de conversar às escondidas, a tomarem cuidado com telemóveis monitorizados e outros tipos de perseguição. Muitas das práticas que têm feito parte dos regimes ditatoriais do passado, ou das formas contemporâneas de fascismos, tornam-se realidade para as personagens da trama: instaura-se um estado de exceção, por meio da Lei dos Poderes de Emergência; pessoas são presas e mortas, sem os devidos procedimentos jurídicos; a desinformação e as fake news são amplamente distribuídas; liberdades e direitos individuais são suprimidos; discursos ufanistas e moralistas impõem-se, como forma de legitimação de violências; parte significativa da população adere a tais ideologias, o que leva a divisões e vigilâncias também na esfera pessoal.
O mundo como Eilish conhecia passa a ruir. Ela é obrigada a encarar o dilema entre permanecer no país — onde ainda espera pelo retorno do marido — ou aproveitar quando tem chance de escapar para além das fronteiras nacionais, a fim de garantir mais proteção e liberdade para os seus filhos. É uma equação que se complica cada vez mais, conforme outros entes queridos da protagonista também se veem sob diferentes formas de ameaça. O pai dela, Simon, mostra sinais de alguma forma de senilidade, que demandará cuidados; o filho mais velho, Mark, adere ao movimento de resistência ao governo, o que o condenará a uma vida de clandestinidade e de batalhas arriscadas. Outro filho, Bailey, será tragado pela violência e pela burocracia kafkiana do Estado. Vinculada a essas figuras, além dos outros filhos e demais elementos que constituem seu ambiente conhecido, Eilish recusa a ideia de deixar a terra natal.
Os conflitos entre o Estado e os rebeldes ganham vulto e afundam o país em uma guerra civil, de consequências catastróficas. Lynch, em diversas entrevistas sobre o livro, disse que a ideia para o escrever se deveu, em grande parte, às crises dos refugiados, em especial daqueles oriundos de países do Oriente Médio, bem como à indiferença do Ocidente em relação a essas pessoas. Segundo o autor, uma forma de se estimular maior empatia para com tais histórias seria transpor a mesma situação a um país ocidental. E é no terceiro ato do romance, por volta das últimas cinquenta páginas, que o enredo chega a tal ponto de ruína social. A Irlanda torna-se uma zona de guerra, arrasada por bombardeios, trocas de tiros e escassez de recursos. Eilish, que começou a história em uma casa confortável, bem empregada em uma empresa de biotecnologia, vê-se, ao fim de tudo, na situação de desabrigada, com o que restou de sua família, em busca de sobrevivência. Ou mais: em busca de vida.