Ganham a vida a ler em voz alta, jornais, poesia, horóscopos, receitas de cozinha e romances, nas fábricas de charutos de Cuba. A figura do lector de tabaquería nasceu em 1865, quando existiam cerca de 500 fábricas de charutos, em Cuba, com 15 mil operários (85% dos quais analfabetos), de acordo com o jornalista Bernardo Gutiérrez (Revista Qué Leer, 2005). Esta função reveste-se de tal importância que foi já distinguida pela Comissão Nacional para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial de Cuba. É a estes leitores profissionais que é atribuído um papel fundamental na evolução da consciência política e social dos trabalhadores do tabaco, na melhoria da qualidade dos charutos produzidos e uma estreita ligação com o movimento independentista e o movimento revolucionário. Gutiérrez recorda que Compay Segundo (1907-2003), conhecido clarinetista e guitarrista cubano, que foi operário nas fábricas de tabaco da H. Upmann e da Montecristo durante mais de quarenta anos, afirmava ter tido a melhor profissão do mundo: a única em que era possível ler enquanto trabalhava.
Até à década de 1960, eram os próprios operários que pagavam o salário do leitor, que podia ser um deles. Faziam-no quer em dinheiro, quer produzindo uma quantidade superior de charutos para que o colega não tivesse de o fazer. Muitos decidiram mesmo aprender a ler e a escrever, motivados pelas leituras dos colegas. Os funcionários das tabaqueiras acabariam por se tornar, desta forma, a classe operária mais culta e informada da ilha. Muitas personagens dos romances lidos acabariam mesmo por batizar marcas de charutos: Romeo y Julieta, Sancho Panza, Montecristo.
(Fonte: Público, dezembro 2012)