Profissão: Leitor

Por: Bertrand Livreiros a 2022-04-01 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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Onde os livros nos levam

Um dia, há um livro que muda tudo — a nossa perceção da vida, de nós mesmos, do mundo. Entramos num livro de uma forma e saímos invariavelmente de outra. Afonso Cruz descreve esta metamorfose própria da leitura: "Cada vez que lemos, saímos da leitura como um novo indivíduo que resulta da combinação anímica entre o livro e o leitor.". Umas vezes, essa alteração é subtil, quase impercetível, mas sempre presente. Outras, é verdadeiramente transformadora.

Livros curtos e vidas boas

Numa tarde em que estava sentada numa esplanada a beber um café e a ler um livro, fui interpelada por uma antiga colega de trabalho que apareceu sem eu dar conta: disse-me, em tom jocoso, que eu tinha uma boa vida, pois estava ali, sem fazer nada, "a ler um livrinho ao sol". Achei interessante esta ideia de que uma pessoa que está a ler ao ar livre tem uma vida ótima, porque eu estava de rastos nesse dia, exausta, a ter os meus primeiros trinta minutos sozinha depois de ter sido mãe. 

A demora do livro na rapidez dos dias

À ausência de ruído, chamamos silêncio. Permanecem apenas as oportunidades de redescobrir os sons há muito esquecidos. E, perante o sossego, conseguimos escutar. “Às vezes, o vento traz frases inteiras” — quando foi a última vez que ouvimos o que tem para dizer? Ler estas palavras de Carla Louro, com as quais arranca a sua estreia na poesia, Entra-se na casa pelo pátio, é ser recordada de que o silêncio também pode ser ensurdecedor. Mais do que tudo, é desejar voltar a ser atormentada por ele.

Ganham a vida a ler em voz alta, jornais, poesia, horóscopos, receitas de cozinha e romances, nas fábricas de charutos de Cuba. A figura do lector de tabaquería nasceu em 1865, quando existiam cerca de 500 fábricas de charutos, em Cuba, com 15 mil operários (85% dos quais analfabetos), de acordo com o jornalista Bernardo Gutiérrez (Revista Qué Leer, 2005). Esta função reveste-se de tal importância que foi já distinguida pela Comissão Nacional para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial de Cuba. É a estes leitores profissionais que é atribuído um papel fundamental na evolução da consciência política e social dos trabalhadores do tabaco, na melhoria da qualidade dos charutos produzidos e uma estreita ligação com o movimento independentista e o movimento revolucionário. Gutiérrez recorda que Compay Segundo (1907-2003), conhecido clarinetista e guitarrista cubano, que foi operário nas fábricas de tabaco da H. Upmann e da Montecristo durante mais de quarenta anos, afirmava ter tido a melhor profissão do mundo: a única em que era possível ler enquanto trabalhava. 

 

 

Até à década de 1960, eram os próprios operários que pagavam o salário do leitor, que podia ser um deles. Faziam-no quer em dinheiro, quer produzindo uma quantidade superior de charutos para que o colega não tivesse de o fazer. Muitos decidiram mesmo aprender a ler e a escrever, motivados pelas leituras dos colegas. Os funcionários das tabaqueiras acabariam por se tornar, desta forma, a classe operária mais culta e informada da ilha. Muitas personagens dos romances lidos acabariam mesmo por batizar marcas de charutos: Romeo y Julieta, Sancho Panza, Montecristo. 

 

(Fonte: Público, dezembro 2012)

Opinião dos leitores

Que espantosa profissão!
BC | 02-04-2022
Aqui estava uma profissão que me "assentaria como uma luva"... E quem em Cuba incentivou tal ocupação não refectiu em todas as consequências que tal acarretaria...
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