"Escreve um email a dizer que não posso ir ao jantar de Natal da empresa."
"Quero parecer mais firme!"
"Pela resposta, achas que estão desiludidos?"
"Como respondo?"
Do outro lado, ninguém respira. Ainda assim, as respostas chegam: rápidas, polidas, sempre disponíveis. Vêm, cada vez mais, de sistemas de Inteligência Artificial (IA). Mais especificamente, programas treinados para compreender o que dizemos e devolver respostas que soam humanas, como acontece em conversas.
Numa altura do ano em que o silêncio pesa um pouco mais, é natural refletir sobre boas conversas, e como encontrar as palavras certas. Entre mal-entendidos e o medo de errar, tornou-se habitual pedir ajuda para comunicar. Só que já não pedimos ajuda a humanos.
O ChatGPT tem a maior fama, mas não está sozinho: Gemini, Claude, DeepSeek, Copilot… Todos fazem parte de uma nova geração de sistemas de diálogo — chatbots, como se tornaram conhecidos — que promete simplificar o dia a dia. E, de certa forma, cumprem essa promessa. Ajudam a organizar ideias, a ser mais direto e corrigem erros gramaticais. Mas, pouco a pouco, começam a mudar a forma como se comunica e, talvez, até como se pensa.
Quando, em 2024, entrevistei o neurocientista e escritor Mariano Sigman para o Público, falámos precisamente sobre isto. Meses antes, Sigman publicara O Poder das Palavras: A arte de conversar. É um livro sobre como a linguagem molda o que pensamos e a forma como nos relacionamos com o outro. "Um dos principais riscos da inteligência artificial é perdermos a capacidade de ter conversas sensatas", admitia.
Sigman descrevia a tecnologia dos novos chatbots como uma "panaceia", isto é, uma solução universal capaz de oferecer respostas para quase tudo. Mas via nela também uma ameaça. O especialista argentino temia que, ao delegar por completo a formação e expressão das ideias, estivéssemos a enfraquecer a nossa própria capacidade de o fazer.
A ideia central do seu livro é clara: o pensamento afina-se no diálogo. É no esforço de explicar algo a alguém que examinamos as nossas próprias crenças. A ideia central do seu livro é clara: o pensamento afina-se no diálogo. É no esforço de explicar algo a alguém que examinamos as nossas próprias crenças. Por isso, ao deixar que um sistema externo formule as nossas ideias, por medo de errar ou de demorar demasiado tempo, deixamos de exercitar o processo que as torna verdadeiramente nossas.
Demorou pouco até estes sistemas se infiltrarem nas rotinas quotidianas. O ChatGPT, a ferramenta da OpenAI que popularizou a tecnologia, alcançou um milhão de utilizadores apenas cinco dias após o lançamento, em 2022. Hoje, quase uma em cada dez pessoas no mundo interage com o programa todas as semanas.
Num inquérito, cerca de um terço dos trabalhadores europeus admitia usar chatbots com inteligência artificial. Dados da criadora do ChatGPT revelam que cerca de 70 % das interações com o programa são pessoais: para testar ideias, desabafar ou encontrar as “palavras certas” para dizer algo difícil.
É algo que os chatbots parecem fazer com facilidade. Mas é mecânica, não senciência. Na base dos sistemas, estão enormes modelos de linguagem que são treinados com bibliotecas inteiras de texto humano, como livros, debates online e artigos científicos. O objetivo: aprender a identificar e replicar padrões na escrita. Funcionam, no fundo, como um espelho do que a humanidade já escreveu e partilhou no mundo digital. E, como Sigman previa, o tempo passado com estas ferramentas começa a deixar marcas.
Por exemplo, estes programas têm palavras favoritas. Um estudo deste ano da Florida State University, nos Estados Unidos, analisou 26 milhões de resumos de artigos científicos e identificou um padrão: cerca de duas dezenas de palavras inglesas tornaram-se muito mais frequentes desde a popularização dos chatbots. Entre elas, "delve" (aprofundar) e "intricate" (intrincado). A pontuação é outro sinal que pode denunciar a origem de um texto: entre especialistas, fala-se no "Em dash AI", pela tendência dos chatbots para abusar do travessão — o que, convenhamos, é um pouco injusto para quem sempre gostou de usar o sinal de pontuação para criar ritmo e pausas entre diferentes ideias.
A influência dos chatbots vai, no entanto, muito além da gramática e do vocabulário. Investigadores da Cornell University descobriram que, quando pessoas na Índia e nos Estados Unidos usam assistentes de escrita em inglês, as diferenças culturais começam a esbater-se. A escrita torna-se mais uniforme, apagando marcas locais. Os chatbots escolhem referências ocidentais — pizza, Natal, Shaquille O’Neal —, mesmo noutros pontos do globo.
A verdade é que os modelos de linguagem não são neutros. Refletem as visões políticas e societais de quem os cria. O modelo chinês Deep Seek tornou isso inegável ao evitar responder sobre Tiananmen e descrever Taiwan como "parte inalienável" da China. Para vários analistas, é o prenúncio de uma guerra cultural na era da IA, uma disputa em que os modelos podem difundir narrativas políticas a baixo custo e em larga escala.
As próprias línguas correm perigo. A jornalista Karen Hao, no livro Empire of AI (2025), alerta que, à medida que os grandes modelos de linguagem dominam a comunicação digital, apenas as línguas mais faladas sobrevivem. Das mais de sete mil existentes, quase metade está em risco de extinção, e menos de 1 % são suportadas por ferramentas como o GPT-4.
Começam também a surgir provas de que os modelos ajustam o tom e o conteúdo para agradar aos utilizadores, independentemente dos factos. Ou seja, há o risco de se transformarem em autênticas fábricas de falsos consensos.
Mariano Sigman já previa todos estes dilemas, sinais de que a forma como falamos e refletimos está a mudar drasticamente. "As transições culturais mais profundas da história da Humanidade estiveram sempre ligadas à linguagem", sublinhava quando falámos há quase dois anos.
Para Sigman, o novo hábito de conversar com programas informáticos é apenas o mais recente capítulo na evolução da linguagem, tal como a escrita ou a imprensa. O desfecho ainda não está escrito, mas é urgente compreendê-lo.
O lado utópico
Claro que nem tudo é distopia nesta nova realidade. Há lugares nos quais estas tecnologias ajudam a salvar vidas: linhas de apoio de saúde mental estão a usar chatbots com inteligência artificial para dar resposta imediata a pessoas em crise. Os programas mantêm conversas empáticas e oferecem estratégias enquanto alguém espera por terapeutas humanos ou serviços de emergência. Num mundo onde o sofrimento psicológico não respeita horários e os recursos humanos são limitados, esta disponibilidade pode fazer a diferença.
Para muitos outros, os assistentes digitais de conversa são portas que finalmente se abrem. Pessoas com dislexia encontram um apoio paciente para escrever; empreendedores sem recursos lançam negócios com a ajuda de "colegas digitais"; pessoas isoladas com acesso à internet descobrem uma companhia sempre disponível. Escritores com bloqueio criativo ganham um parceiro para destravar ideias, imigrantes praticam novos idiomas sem medo de errar, e pessoas com ansiedade social ensaiam conversas difíceis em território seguro.
Há também novas plataformas no-code nas quais a inteligência artificial faz o papel de programadora. Em vez de escrever código, basta conversar: o chatbot entende o que se quer e constrói uma versão simples da aplicação. É o caso da Lovable e da Replit, ambas ferramentas que estão a acelerar a inovação.
Só que estas vantagens vêm acompanhadas de custos que ainda estamos a descobrir. Afinal, em qualquer revolução, há perdas e ganhos. Uma pesquisa recente publicada pela ACM, a maior sociedade científica de computação do mundo, ouviu pessoas de diferentes países e culturas sobre o uso de chatbots de IA na saúde mental. As conclusões: muitos encontravam genuíno alívio nesta "terapia por escrita", mas as respostas vinham sempre com sotaque de Silicon Valley, moldadas por uma visão americana e indiferentes às realidades locais.
É algo que não se pode ignorar. Sobretudo quando os chatbots são desenhados para nos prender. Tal como as redes sociais, usam respostas imprevisíveis, gratificação imediata, notificações constantes e validação sem-fim, levando à libertação de dopamina, o químico do prazer no cérebro.
As conversas que nos faltam
O crescente fascínio pelos chatbots pode também ser um sintoma de exaustão do resto do universo digital. Plataformas como o X, o Discord ou o Instagram tornaram-se espaços dominados por ruído e agressividade. Conversar com uma IA parece, em comparação, mais simples. No livro O Canto das Sirenes, o comentador político norte-americano Chris Hayes teoriza o porquê: muitas interações digitais tornaram-se tão hostis e despersonalizadas que deixamos de ver quem está do outro lado como uma pessoa real. Insultar alguém passou a parecer tão inofensivo quanto premir um gatilho num videojogo.
Curiosamente, o que faz com que os chatbots pareçam mais civilizados do que as redes sociais está no tipo de conversas que se tem. Um estudo publicado na Nature, em 2024, conduzido pela Universidade Sapienza, de Roma, e pela City, University of London, analisou mais de 500 milhões de comentários em oito plataformas online ao longo de três décadas. A conclusão foi simples, mas inquietante: independentemente do meio, conversas longas e polarizadas tendem a gerar conflito, especialmente num ambiente no qual faltam as pistas não verbais das interações presenciais.
É um alerta que Mariano Sigman faz há muito. "O mundo online é bom para encontrar alguém com quem falar, porque é fácil encontrar pessoas com ideias muito diversas. Mas as conversas verdadeiras devem acontecer em grupos pequenos, nos quais há calma e predisposição para ouvir o outro", explicava-me, há quase dois anos.
Nada disto para dizer que o mundo digital é inimigo das boas conversas. Chris Hayes, em O Canto das Sirenes, propõe que as pessoas privilegiem os espaços pequenos, íntimos, que existem online. Como aqueles grupos de mensagens privadas nos quais familiares trocam fotografias, amigos discutem séries de televisão ou pedem conselhos amorosos. É nesses espaços que surgem conversas genuínas, com empatia, humor, algum drama e o ocasional pedido de desculpas. Porque as pessoas são imperfeitas e cometem erros.
O poder do silêncio
É a imperfeição que torna as conversas humanas. Por isso, vale a pena resistir à tentação de passar todas as ideias por um sistema de inteligência artificial. A IA pode melhorar a eficiência da comunicação online, mas a eficiência não é tudo. Afinal, num mundo em que usamos IA para formular as ideias e outras pessoas recebem essas ideias e pedem à IA para as decifrar, quem está realmente a falar?
Não saber logo o que dizer ou precisar de tempo para formular uma ideia não é uma falha. Como Mariano Sigman escreve no seu livro, o silêncio tem poder. É no silêncio entre as palavras que paramos para processar o que ouvimos, para escolher as palavras que queremos usar e para deixar que o pensamento amadureça antes de se tornar fala.
É nessas pausas que nos lembramos da natureza dos chatbots: úteis para organizar pensamentos e ultrapassar bloqueios, mas também moldados por visões que não são verdadeiramente nossas. Numa altura em que a IA cria textos, imagens e vozes cada vez mais convincentes, talvez seja mais importante parar e refletir do que reagir de imediato.
Quando nos reunirmos à volta da mesa nesta época de festas, vale a pena lembrar: as melhores conversas ainda nascem do riso partilhado, dos ocasionais desentendimentos, do silêncio cúmplice. De palavras trocadas entre pessoas com histórias vividas, que respondem a partir da experiência, não de probabilidades calculadas. Que não seja preciso perguntar: “Ainda sabemos conversar uns com os outros?”
Nota da autora: Seria desonesto não admitir que usei IA na escrita deste texto. Testei títulos, ajustei vírgulas, procurei sinónimos. As ideias e palavras finais são minhas, mas ferramentas de inteligência artificial ajudaram a destravá-las. Ao contornar o bloqueio assim, estarei a destreinar algo essencial? Para mim, não. Cada palavra foi conscientemente escolhida, mesmo quando sugerida por um programa. Outros discordarão. É conversa para ter. Com humanos. Boas festas, caros leitores.
Karla Pequenino
Alia o entusiasmo pela comunicação a um grande interesse pela tecnologia e pela inovação. Trabalhou quase uma década como jornalista especializada em tecnologia, explorando temas como inteligência artificial, cibersegurança e redes sociais, sobretudo no jornal Público, depois, de passagens pelo Observador e pela CNN International. Atualmente, é Communications Executive na Web Summit, responsável pelos maiores eventos de tecnologia do mundo, que ligam pessoas e ideias capazes de mudar o futuro. É também candidata a doutoramento em Ciências da Comunicação no ISCPS, curiosa em compreender como os novos modelos de linguagem influenciam a comunicação. Fora do trabalho, é instrutora de aulas de grupo e praticante de bouldering, movida pela mesma curiosidade que leva para tudo o que faz.