A sua obra é grandiosa e complexa. Talvez em nenhum outro autor português se encontrem faces tão firmadas e singulares como contista, romancista, ensaísta ou poeta como no caso de Jorge de Sena. A ele regressamos agora com três novas edições, apresentadas pela Guerra e Paz. São duas ficções, Andanças do Demónio e O Físico Prodigioso, mas também no domínio do ensaio, com Amor, um longo verbete escrito para o Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e da Teoria Literária, dirigido por João José Cochofel, ainda por descobrir.
Começamos por esta última obra, a primeira a ser editada, em que o autor de Sinais de Fogo faz uma sistemática e eruditíssima análise da explosão do amor, do obsceno e da sexualidade na literatura portuguesa. Jorge de Sena recorre aos conhecimentos nos campos da antropologia, da filosofia das religiões, da sociologia, observando o que a respeito de amor e de sentimentos na literatura portuguesa se escreveu.
Na ficção, a viagem literária ao seu universo inicia-se com Andanças do Demónio, livro que marcou a estreia de Jorge de Sena como contista em 1960. A obra reúne oito «perambulações demoníacas», como o próprio as descreveu. Ficções verdadeiras ou fantásticas, por vezes autobiográficas, imaginadas por alguém a quem o destino (e as condições da própria pátria, ou as condições irreversíveis delas resultantes, nomeadamente o seu exílio no Brasil e nos Estados Unidos) transformou em andarilho ao ponto de o poder viajar ser já um hábito adquirido e experiencial.
Segue-se a publicação de O Físico Prodigioso, uma das mais ousadas novelas da literatura portuguesa, originalmente lançada em 1964, “símbolo da liberdade e do amor”, segundo o próprio. Trata-se de uma novela alegórica, que bebe da tradição do conto fantástico português, mais concretamente no Orto do Esposo, seleta anónima do século XV, inspirando-se em dois episódios narrativos dela constantes, amplificando-os e enriquecendo-os. Nesta obra, mais uma vez Jorge de Sena revela-se como escritor plural, criando um ambiente medieval, religioso e mítico, evocando cantigas de amigo e sublimando um texto marcado pelo erotismo, breve marca do humano, punido pela moralidade vigente.
Com esta seleção, o objetivo da editora é apresentar as obras de Sena como foram originalmente publicadas, evitando as antologias e coletâneas, pondo em evidência tudo o que neste notável autor é escândalo, erudição, transcendência, emoção pura e universalidade.
Este artigo foi publicado na Revista Somos Livros (edição abril 2023).