O lado sombrio de Charles Dickens e outras curiosidades

Por: Beatriz Sertório a 2024-02-07

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Os Cadernos de Pickwick
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Acha que conhece Charles Dickens? Pense outra vez. O popular escritor vitoriano, possivelmente um dos mais influentes da História da Literatura Inglesa, foi um homem de múltiplas facetas, e algumas delas menos favoráveis. Autor de clássicos como Oliver Twist e Um Conto de Natal, e de tantas palavras e expressões que mudaram para sempre a língua inglesa, foi também uma figura complexa e controversa.

No seu 212º aniversário, recordamos o homem
 o bom, o mau e o feio  e a obra de Charles Dickens, com algumas curiosidades.


De operário fabril a um dos escritores mais populares de Inglaterra

Embora tenha conquistado uma fortuna significativa como escritor, a verdade é que Charles John Huffam Dickens teve origens humildes. Nascido em 1812, em Portsmouth, no Reino Unido, foi o segundo de oito filhos de Elizabeth e John Dickens. O pai, escriturário na Marinha Real (tal como Bob Cratchit, personagem de Um Conto de Natal) era o sustento da família, mas as dívidas acumulavam-se e acabaram por o condenar à prisão. A viver no limiar da pobreza, Charles foi obrigado a começar a trabalhar com apenas 12 anos, numa fábrica de graxa de sapatos, e seriam precisos nove anos para a sua fortuna começar a mudar.

Em 1833, publica a sua primeira história numa revista literária de Londres e três anos depois (com 24 anos de idade) começa a trabalhar no seu primeiro romance, Os Cadernos de Pickwick. Publicado em fascículos mensais, este clássico da literatura satírica foi um verdadeiro sucesso e chegou a vender 40.000 exemplares por mês. Com a sua carreira literária finalmente a levantar voo, Dickens arrendou o número 48 de Doughty Street, em Londres, onde se localiza atualmente o Museu Charles Dickens.


O animal de estimação de Dickens que inspirou Edgar Allan Poe

Um verdadeiro amante de animais, Dickens teve vários tipos de animais de estimação ao seu cuidado. O mais famoso foi um corvo chamado Grip (substituído após a sua morte por um segundo corvo com o mesmo nome) que não só apareceu como personagem no romance Barnaby Rudge, como inspirou o famoso poema O Corvo de Edgar Allan Poe. De acordo com Mark Dawidziak, autor de A Mystery of Mysteries: The Death and Life of Edgar Allan Poe, o autor ficou fascinado com a personagem de Grip em Barnaby Rudge, e utilizou-o como inspiração para aquele que é um dos poemas mais famosos da História da Literatura.

Depois da morte do segundo Grip, Dickens pagou a um taxidermista para embalsamar e montar a ave numa elaborada caixa de madeira e vidro, que se encontra atualmente na coleção da Biblioteca Livre de Filadélfia. Já o seu gato Bob, sobre quem escreveu "que maior dádiva do que o amor de um gato?", teve também a sua pata embalsamada após a sua morte e guardada num abre-cartas de marfim que faz agora parte da Coleção Berg de Literatura Inglesa e Americana da Biblioteca Pública de Nova Iorque. Teve ainda um São Bernardo chamado Linda e um cavalo chamado Duke.


O espírito natalício de Dickens

“Eu irei honrar o Natal no meu coração, e tentar mantê-lo durante todo o ano.” Quem não conhece esta frase de Um Conto de Natal? Frequentemente considerado responsável por reimaginar o conceito de espírito natalício tal como o conhecemos hoje, Dickens era conhecido pela sua generosidade e filantropia, e não apenas no Natal. Ao longo da sua vida, apoiou mais de 43 organizações de caridade, maioritariamente relacionadas com pobreza infantil e educação e, em 1847, fundou a sua própria instituição de caridade chamada Urania Cottage. 

Tendo funcionado de 1846 a 1862, Urania Cottage era um refúgio para "mulheres caídas em desgraça", um termo algo ambíguo que tanto podia ser utilizado para trabalhadoras do sexo, como mulheres que tinham relações sexuais fora do casamento ou que se envolviam em casos extraconjugais. Extremamente vulneráveis, estas mulheres eram frequentemente deserdadas das suas famílias, e acabavam muitas vezes destituídas, sem abrigo ou mesmo presas. Como tal, o objetivo desta instituição era oferecer-lhes um lugar seguro onde pudessem viver confortavelmente enquanto aprendiam competências úteis, tais como ler e escrever, para poderem começar uma vida nova. Muitas delas inspiraram personagens nos livros de Dickens.


O mau e o feio de um homem bom

Como toda a moeda tem o seu reverso, também Dickens tinha um lado mais sombrio que muitos desconhecem. Em primeiro lugar, a sua atração por mulheres muito mais jovens, e até adolescentes
 existem rumores de uma possível relação ilícita com a sua cunhada Mary Hogarth, que Dickens conheceu quando ela tinha apenas 14 anos de idade e ele 21. Depois, a relação com a atriz Ellen Ternan, quando esta tinha 18 anos e Dickens 45, que levou ao fim do seu casamento com Catherine Hogarth e quase ao fim da sua carreira pelo escândalo que se seguiu.

Após 20 anos de casamento e 10 filhos, Dickens tentou internar a sua mulher num manicómio, alegando que Catherine se encontrava mentalmente instável e incapaz de desempenhar as suas funções enquanto mãe, de forma a poder desfrutar livremente do seu romance com Ellen, com quem acabou por viver até morrer. John Bowen, professor de Literatura do século XIX na Universidade de York, em Inglaterra, foi quem encontrou a carta, que ficou conhecida como “carta violada”, que comprova a crueldade com que Dickens tratou Catherine no final do seu casamento. Para além disso, a conceituada biógrafa Claire Tomalin sugere ainda no livro Charles Dickens: A life a possibilidade de o autor ter frequentado as mesmas prostitutas que se comprometeu a ajudar com a sua instituição de caridade.


O fenómeno da Dickens-mania

Apesar de tudo, a popularidade de Charles Dickens durou até à sua morte, tendo mesmo sido cunhado o termo Dickens-mania. Atualmente, é difícil conceber o nível de estrelato que o autor alcançou mas desde 1837 até à sua morte em 1870, foi uma das pessoas mais famosas do planeta. Os seus livros eram lidos em todo o mundo e foi, possivelmente, a primeira "celebridade" global no sentido moderno da palavra. Durante a sua primeira viagem aos Estados Unidos da América, Dickens foi constantemente assediado por multidões de fãs e chegou a confessar que não cortou o cabelo durante toda a viagem, por recear que os barbeiros vendessem o seu cabelo.

Por essa razão, a morte inesperada de Dickens, com apenas 58 anos, causou uma onda de choque um pouco por todo o mundo. Na altura, uma pintura de Samuel Luke Fildes que representava a secretária e a cadeira de Dickens, intitulada "A cadeira vazia", tornou-se uma imagem popular que transmitia o sentimento comum de pesar pela morte do grande autor. Embora Dickens tenha pedido um funeral pequeno e privado, foi enterrado no Poet's Corner da Abadia de Westminster no dia 13 de junho de 1870.

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