Ler na Er@ das #RedesSociais

Por: Sónia Rodrigues Pinto a 2019-12-20 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Numa época em que a morte do livro já foi anunciada incontáveis vezes, bloggers e influenciadores estão a encorajar os seus seguidores a ler mais. Por entre as quatro paredes do Instagram , um nicho digital aponta a câmara às estantes e mostra ao mundo o que anda a ler. O resultado arruma-se na hashtag #bookstagram , partilhada, desde o nascimento da plataforma, cerca de 35 milhões de vezes e com alicerces para durar. Uma nova tendência ganha ímpeto um pouco por todo o mundo – a paixão pelos livros, declarada nas redes sociais .

 


 

Desde os mais jovens aos mais velhos, dos projetos entre pais e filhos, às maratonas literárias entre amigos, o bookstagram tem espaço para todos. O que começou como uma simples partilha de leitura, nos primórdios da rede social, em 2010, depressa se transformou na curadoria de feeds visualmente apelativos, onde o livro é obra de arte.

Mais do que o objetivo claro de divulgação, existe, acima de tudo, o amor pela leitura. A comunidade do bookstagram promete opiniões honestas, garantindo que os filtros se cingem apenas à fotografia e não às ideias que partilham com os outros leitores.

 

DE PICASSO AO INSTAGRAM, O LIVRO PERSISTE

 

Em 1939, Pablo Picasso prestou homenagem ao retrato de Madame Moitessier , pintado por Ingres , no século XIX, ao representar a amante, Marie-Thérèse Walter , a ler um livro. Como ele, foram vários os artistas ao longo da história que utilizaram o livro como um adereço nas suas obras; em Os Embaixadores (1533), de Hans Holbein , os livros nas estantes enfatizavam o papel dos homens, dedicados a Deus e à ciência.

Ainda que, atualmente, os motivos sejam diferentes, há, ainda assim, um propósito na arte por detrás da fotografia, nas imagens atraentes que retêm o olhar do leitor, aliadas à opinião que influencia. É o novo passa a palavra digital, onde quanto mais criatividade houver, maiores são as probabilidades de se captar a atenção.

Unidos por um amor comum, há bibliófilos a criar verdadeiros santuários digitais. James Trevino ( @james_trevino ) é certamente impossível de ignorar. Conta com mais de 230 mil seguidores no Instagram e o seu feed comemora a junção ideal entre a arte e a literatura. Nas suas fotografias, pilhas de livros são transformadas em Dementors, da saga de Harry Potter , ou numa recriação da obra Starry Night (1889), de Van Gogh . Em várias entrevistas a jornais e revistas online, Trevino garante que o principal propósito é influenciar alguém a ler , especialmente as gerações mais novas.

Paralelamente, algumas celebridades decidiram juntar-se também ao bookstagram . Reese Witherspoon ( @hellosunshine ) e Emma Watson ( @oursharedshelf ) criaram clubes literários online , maioritariamente centrados em histórias feministas. Com fóruns de discussão e entrevistas regulares aos autores das obras escolhidas, as leituras são partilhadas, em grande parte, no Instagram .

Em Portugal, atualmente, um dos maiores clubes literários virtuais pertence à escritora Helena Magalhães , que, todos os meses, escolhe vários livros de diferentes géneros. O Book Gang ( @hmbookgang ) tem mais de 6 mil seguidores e é um caso sério na rede nacional.

 

 

Elle ( @theartfulelle ) acompanha as suas opiniões literárias com lattes verdadeiramente artísticos, cujos desenhos são representações das obras que lê, desde Jack Torrance de Stephen King , à indumentária características das mulheres em A História de Uma Serva , de Margaret Atwood .

Mas também há aqueles que preferem não usar nada se não o livro em si, como é o caso de Uli Beutter Cohen , criadora do projeto Subway Book Review ( @subwaybookreview ), que decidiu documentar opiniões de leitores no metropolitano de Nova Iorque, que depressa se expandiu um pouco por todo o mundo e que atualmente conta com colaboradores de Berlim, Laore e México.

 

UM MOVIMENTO DIGITAL QUE ESTÁ A MUDAR A FORMA COMO SE LÊ

 

A grande maioria destes influenciadores literários não recebe dinheiro pelo trabalho que faz, ao contrário do que acontece com o segmento dos cosméticos e da moda, por exemplo. Geralmente, as contrapartidas resumem-se à oferta de exemplares dos livros – muitas vezes quando estes estão ainda em fase de pré-lançamento.

Para lá das imagens bonitas, dos filtros, das hashtags e das stories , subjaz o nobre propósito de grande parte dos representantes desta comunidade, o de contagiar os seus seguidores com uma paixão que ultrapassa as épocas e sobrevive às modas: a literatura.

 

 

PARA SEGUIR:

 

Se ficou curioso com este universo livrólico, deixamos-lhe outras sugestões. 

 

Kathleen Crowley ( @clumsy.words ) brinca com os livros e oferece-lhes a arte que vai para lá da fotografia. 

Silke Mølgaard ( @silkreads ) é a escolha ideal para um feed acolhedor, repleto de plantas e estantes de fazer inveja. 

Cátia Vieira ( @booksturnyouon ) traz o orgulho nacional bem para a praça central do Instagram, com opiniões fundamentadas e um bónus irresistível: nas suas muitas viagens, há sempre tempo para visitar outras livrarias, como a Shakespeare & Company , em Paris.

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