Leonard Cohen | Uma biografia com guitarra em fundo ou como para sempre iremos sentir a sua falta

Por: Marisa Sousa a 2020-09-21

Leonard Cohen

Leonard Cohen

Leonard Cohen foi um dos cantores, compositores e poetas mais respeitados e influentes do século XX, conhecido pelas suas letras profundamente introspectivas, pela sua voz grave e pelas suas explorações temáticas de amor, espiritualidade, política e a condição humana. Nascido a 21 de setembro de 1934, em Montreal, Canadá, Cohen começou a sua carreira como poeta e romancista antes de se tornar uma figura central na música folk e popular.

Cohen iniciou a sua carreira literária na década de 1950, publicando a sua primeira coleção de poemas, Let Us Compare Mythologies, em 1956. Continuou a escrever poesia e romances ao longo da década de 1960, estabelecendo-se como uma voz importante na literatura canadiana. As suas primeiras obras, como o romance The Favourite Game (1963) e a coleção de poemas Flowers for Hitler (1964), demonstraram a sua capacidade de explorar temas complexos com uma sensibilidade poética única.

Em meados dos anos 1960, Cohen mudou-se para os Estados Unidos e começou a concentrar-se na música, inspirado pelo movimento folk da época. O seu álbum de estreia, Songs of Leonard Cohen (1967), foi um sucesso imediato e é hoje considerado um clássico. O álbum incluiu canções icónicas como "Suzanne," "Sisters of Mercy," e "So Long, Marianne." As letras poéticas e a voz melancólica de Cohen rapidamente lhe garantiram um lugar entre os grandes compositores da sua geração.

Ao longo dos anos 1970, Cohen continuou a lançar álbuns aclamados pela crítica, como Songs from a Room (1969), que incluía a poderosa "Bird on the Wire," e Songs of Love and Hate (1971), que trouxe clássicos como "Famous Blue Raincoat" e "Avalanche." A música de Cohen desta época é marcada por uma crueza emocional e uma honestidade brutal, explorando temas de perda, amor e desespero.

Cohen também explorou temas espirituais e religiosos na sua música, refletindo frequentemente sobre a sua herança judaica e as suas próprias buscas espirituais. Em 1974, lançou New Skin for the Old Ceremony, que incluiu a canção "Chelsea Hotel #2," uma reflexão sobre o seu relacionamento com Janis Joplin. Nos anos seguintes, Cohen continuou a explorar novas direções musicais, incorporando elementos de pop e rock em álbuns como Recent Songs (1979).

Na década de 1980, Cohen alcançou um novo nível de popularidade com o lançamento de Various Positions (1984), que incluiu a icónica "Hallelujah." Embora inicialmente não tenha sido um grande sucesso comercial, "Hallelujah" tornou-se uma das canções mais conhecidas de Cohen, sendo amplamente interpretada por inúmeros artistas ao longo dos anos. A canção é um exemplo da capacidade de Cohen de combinar temas espirituais e terrenos numa composição profunda e emocionalmente ressonante.

Em 1988, Cohen lançou I'm Your Man, um álbum que marcou um novo capítulo na sua carreira. Com um som mais moderno e influências de sintetizadores, o álbum incluiu canções como "First We Take Manhattan" e "Everybody Knows," que se tornaram sucessos instantâneos. I'm Your Man foi amplamente aclamado e revitalizou a carreira de Cohen, introduzindo-o a uma nova geração de fãs.

Ao longo dos anos 1990 e 2000, Cohen continuou a criar música e a explorar novos temas, incluindo o envelhecimento e a mortalidade. Após um período de retiro num mosteiro budista na Califórnia, Cohen regressou à música com Ten New Songs (2001) e Dear Heather (2004), álbuns que mostraram uma sensibilidade mais madura e reflexiva.

Em 2008, Cohen, que enfrentava dificuldades financeiras devido à má gestão dos seus fundos, voltou a fazer digressões, surpreendendo o mundo com a intensidade e a paixão das suas performances ao vivo. A sua digressão mundial foi amplamente elogiada e resultou numa série de álbuns ao vivo que capturaram a profundidade emocional e a habilidade de Cohen como intérprete.

Mesmo nos seus últimos anos, Cohen continuou a criar música poderosa. Em 2012, lançou Old Ideas, seguido por Popular Problems (2014) e You Want It Darker (2016), este último lançado pouco antes da sua morte. You Want It Darker foi recebido com aclamação da crítica e é considerado um dos seus melhores trabalhos, refletindo sobre a mortalidade e o legado.

Leonard Cohen faleceu a 7 de novembro de 2016, deixando um legado duradouro na música e na literatura. A sua capacidade de explorar as profundezas da experiência humana através da música e das palavras fez dele uma figura única e venerada. As suas canções, cheias de melancolia, espiritualidade e beleza poética, continuam a ressoar com audiências de todas as idades, garantindo que o seu impacto perdure por muitos anos.

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Se fosse vivo, Leonard Cohen completaria hoje 86 anos. Sylvie Simmons, uma das mais reconhecidas jornalistas musicais da atualidade e autora da sua biografia, intitulada I'm your man, não se poupa a adjetivos para descrever o homem por trás da voz: cortês, elegante, reservado, um pouco tímido, aprumado, sóbrio, irrepreensível — ‘não há nele nada de supérfluo’.


Durante a infância nunca exibiu ‘indícios preocupantes de santidade nem de génio’. Aos nove anos, a morte do pai levou-o a escrever o seu primeiro texto, que converteu em ritual de despedida. Terá, simbolicamente, sido a génese da escrita como ritual. Mais tarde, já na adolescência, terá ocorrido aquilo que Sylvie apelida de o Big Bang de Leonard, ‘o momento em que a poesia, a música, o sexo e os anseios espirituais colidiram e se fundiram nele pela primeira vez’. Foi em 1950, entre os quinze e dezasseis anos, quando parou diante de um alfarrabista e se deparou com Poemas Escolhidos de Federico García Lorca. Gacela del mercado matutino arrepiou-o e começou a escrever poemas para reagir àqueles. Nos anos seguintes, sempre que lhe perguntaram o que o levara a interessar-se por poesia, a sua resposta repetia-se: seduzir mulheres.

 

 

Escreveu alguns romances – entre eles Beautiful Losers, que considerou ser a melhor coisa que alguma vez criou, um ‘épico religioso desagradável, de incomparável beleza’. "Quando acabou de bater à máquina as últimas palavras do livro — «para sempre hão-de sentir a minha falta na vossa viagem até ao fim» —, iniciou um jejum de 10 dias."

"Não há diferença entre um poema e uma canção. Alguns textos começaram por ser canções, outros começaram por ser poemas (…) toda a minha escrita tem guitarra em fundo, mesmo os romances." A sua primeira canção, Suzanne, nasceu de um poema com o mesmo nome — inspirado numa jovem musa de dezassete anos. ‘Como é que produzimos uma obra que chegue ao coração?’, perguntou Leonard, nos anos 90. Em 2012, confessou a Sylvie: "Como todos os escritores, passei grande parte da minha vida a virar os dias do avesso, tentando alcançar algum respeito por mim mesmo (…)".

Leonard morreu em casa, enquanto dormia, a 7 de novembro de 2016, na sequência de uma queda a meio da noite. Ficam a poesia e a música (e as saudades, permitam-nos) do homem que tinha ‘qualquer coisa de conspirativo’ na maneira como falava e cantava. ‘Como se nos confiasse um grande segredo’.

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