Richard Ovenden, bibliotecário na Biblioteca Bodleiana de Oxford - o 25º a ocupar o lugar desde 1600 -, trabalhou, desde 1987, em vários arquivos e bibliotecas emblemáticos, como a Biblioteca da Câmara dos Lordes, a Biblioteca Nacional da Escócia, como curador de livros raros, e na Universidade de Edimburgo, onde foi diretor de coleções. Em Queimar livros. Uma história da destruição do saber (Presença), conta-nos como o conhecimento tem estado sob ataque nos últimos três mil anos.
Neste livro, que o The Guardian considera “épico”, sentimos a revolta, mas também nos invadem os exemplos de bravura e de inimaginável coragem, dos tantos que protegeram, com a sua própria vida, a memória do mundo.
Um desses exemplos ocorreu a 25 agosto de 1992, em Sarajevo, na sequência da estratégia do presidente sérvio Slobodan Milosevic, para extinguir da História e a cultura bósnia a memória da participação muçulmana: uma chuva de bombas incendiárias atingiu o edifício onde está instalada a Biblioteca Nacional e Universitária da Bósnia e Herzegovina, que albergava 1,5 milhões de livros, manuscritos, mapas, fotografias, entre outra documentação. Os trabalhadores da biblioteca fizeram uma corrente humana para retirar materiais da estrutura em chamas.
A cultura e a identidade estiveram sempre na mira de governantes e exércitos. Os ataques nazis à literatura judaica e “agermânica” revelaram pistas para a política de genocídio do Povo do Livro (como sempre se intitularam os Judeus). Diz-nos Ovenden que “devemos considerar os ataques aos livros um alerta precoce da proximidade de ataques às pessoas.”
“Nós afogamo-nos em informação, mas temos fome de conhecimento.” John Naisbitt
A par dos exemplos destes atentados, em que a história é, infelizmente, rica, Ovenden coloca também o foco no presente, ressalvando que o mundo digital é rico em dicotomias. Nunca foi tão fácil criar conhecimento, copiar informação e imagens e armazená-los em grande escala. No entanto “armazenar não é o mesmo que preservar”, alerta. Numa carta de 1813, Thomas Jefferson comparou a difusão do conhecimento a uma vela que acende outra: “Quem recebe de mim uma ideia recebe instrução sem diminuir a minha própria instrução; como aquele que acende a sua vela com a minha recebe luz sem me deixar nas trevas. (…) A vela de Jefferson alumia-nos hoje graças aos esforços extraordinários dos conservadores do conhecimento: colecionadores, investigadores, escritores e, em especial, os bibliotecários e os arquivistas.”
Entre as muitas questões que o autor nos lança, destaca-se esta: “Quando empresas como a Google digitalizam milhares de milhões de páginas de livros e as disponibilizam em linha e empresas como a Flickr oferecem armazenagem gratuita em linha, as bibliotecas servem para quê?”.