— Qual é o teu nome?
Esta criança parece rondar os cinco anos. Tem a dicção cheia de clareza, os olhos muito abertos. Pergunta-o a outra criança que passeia no corredor de mão dada com uma mulher. A mulher procura algo nas estantes. Procura com um olhar inquieto, há um subtilíssimo desalento que me parece atravessar o seu rosto. Ouvem-se buzinas lá fora, ruídos repetitivos de uma máquina que esburaca o chão, obras, aqui é um espaço contra a voragem de um centro urbano denso, quando vamos do ponto A ao B com pressa, aqui, os gestos suavizam-se. Pressa de quê? Aqui, é uma livraria.
Penso no conceito cunhado pelo sociólogo Ray Oldenburg: terceiro lugar. No livro seminal The Great Good Place (1989), o autor analisa a casa como o primeiro lugar, o trabalho como o segundo, e espaços públicos acessíveis, onde nos podemos encontrar e socializar, como terceiro espaço. Cafés, praças, parques, livrarias. Se bem que hoje as esferas doméstica e profissional se misturem, reconhecemos a importância destes lugares na vida comunitária e na força de uma democracia. Sendo lugares de prazer, não são lugares de harmonia contínua, estimulam a diversidade de opiniões e essa é uma das suas maiores riquezas. A comunidade cuida de um movimento comum que sabe que somos frágeis, interdependentes, e se uma mão sabe construir, a outra pode destruir. Vivermos vidas livres e dignas pede muito trabalho de todos. Convoco o aforismo do filósofo Heraclito, dizendo-nos que o contrário é convergente e, dos divergentes, a mais bela harmonia.
Celebramos o terceiro lugar. Uma livraria cumpre esse papel quando não é apenas um espaço de consumo, quando ultrapassa a lógica de mercado e se abre ao encontro, ao diálogo e à pertença. Implica intimidade, conexão. Lugar de mediação, nem sujeito nem objeto, zona de transição e abertura. Um entrelugares. Aqui, lemos como quem dança, como quem tece, como quem ama. Aqui, não temos de ir desse ponto A a B, o encontro pressupõe desencontros, errâncias, ramificações alternativas, trilhos que ainda não têm nome. Pesamos conceitos como canónico ou marginal. Abrimos um laboratório de experimentação estética, uma oficina de metamorfoses, do casulo ao astro. É curioso ver como, na medicina, terceiro espaço descreve o interstício, espaço entre as células do corpo onde os líquidos se misturam e circulam. Também é isso que os livros nos fazem — misturam-nos, fazem-nos circular.
A estrada abre-se larga, leio Jack Kerouac, Pela Estrada Fora. Alguém pergunta: qual é a tua estrada? Alguém responde: "É a estrada para qualquer parte para toda a gente seja como for. Onde quem com?" A paisagem dilui-se, abre-se novo cenário. Caminhamos num labirinto, as mãos tocam as paredes cobertas de heras, ali, as nuvens, caminhamos numa esfera em que o princípio é o fim e o fim o princípio, e, quanto mais caminhamos, mais percebemos que não existe princípio ou fim, rasgamos essa ilusão, tudo é uma continuidade, tudo se transforma noutra coisa.
Celebramos o terceiro lugar. Uma livraria cumpre esse papel quando não é apenas um espaço de consumo, quando ultrapassa a lógica de mercado e se abre ao encontro, ao diálogo e à pertença.
Pensar num lugar implica pensar no seu contrário. Marc Augé, em 1992, cunhou o termo no livro Não Lugares: Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. Lembro-me de um não-lugar particular, idas e voltas numa estação de comboio. No Rail & Rest, parei, suspensa no tempo — não porque ele se ampliava, falo de um efeito de congelamento — a cortar a comida devagar até à próxima partida. Fala quem serve — já não tenho sopa, tenho o que vê —, e aqueceu a comida fria no micro-ondas como quem se desculpa de que possa haver saudades do conforto de uma refeição quente no centro da mesa e uma família à volta. Os talheres quase não tilintavam nas suas mãos. O meu comboio estava atrasado, sobrava-me tempo. A meu lado, uma adolescente sugada por um ecrã comia uma taça de gelatina que ficou a meio, eu fiquei a meio de qualquer coisa quando limparam o balcão e levantei-me. Não lugares são espaços como este: de passagem, produzidos pela supermodernidade, aeroportos, centros comerciais, autoestradas, espaços esventrados por máquinas que não se ferem ou comovem. Espaços onde os rostos se tornam anónimos e a violência se agudiza: campos de refugiados. A mesma mão que tem o poder de construir destrói. Marc Augé diz-nos com lucidez que um lugar é o espaço onde se criam afetos. Temos direito a espaços vivos, coletivos, mais do que infraestruturas, temos direito aos afetos que circulam nesses espaços. Temos direito a livrarias que resistem.
"Temos direito a espaços vivos, coletivos, mais do que infraestruturas, temos direito aos afetos que circulam nesses espaços. Temos direito a livrarias que resistem."
*
A mulher pegou num livro. Sempre que alguém pega num livro, torço o pescoço para tentar ler o título. Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson. Desde o Big Bang, passando pela teoria da evolução, os cromossomas ou a origem dos vulcões. O livro cita Derek V. Ager, geólogo, dizendo que "a história de qualquer uma das partes da Terra, tal como a vida de um soldado, compõe-se de longos períodos de tédio e curtos períodos de terror".
A mulher levanta os olhos do livro.
Que criatividade nascerá do tédio, que consolo encontraremos no horror?
A mulher lê Bill Bryson.
"Todos nós somos tão atomicamente numerosos, e tão vigorosamente reciclados no momento da nossa morte, que uma parte significativa dos nossos átomos — até cerca de mil milhões para cada um de nós, como já houve quem sugerisse — provavelmente já terá pertencido a Shakespeare."
É fundamental aumentar a escala, ver pelos binóculos ou imaginar uma mão gigante que pega no nosso corpo para nos reposicionar no mundo — isto pode mudar tudo, principalmente na infância. Quero voltar às palavras de um dos nossos grandes filósofos, abrimos o livro A Última Lição de José Gil, entramos numa das suas memórias cintilantes:
"(...) Na livraria, havia uma banca no meio da sala com pequeninos livros para crianças — tudo o que lá estava, eu devorava. Mas tinha de se comprar, os meus pais iam controlando as compras. Eu lia tudo ao mesmo tempo. Isto foi aos doze anos. Um primo que trabalhava numa companhia de coqueiros (...) diz-me assim: «Ó Zeca» (...), «tu queres livros?»
— Sim — eu disse. (...)
Fomos os dois, ele vê aquela banca cheia de livros para crianças e diz-me assim: «Olha, escolhe o que quiseres.» Eu não compreendi.
— Escolhe o que quiseres!
— Quantos? Dois?
— Não tem limite, escolhe.
Isso para mim foi uma coisa... [Expira fundo] Era o mundo! Eu podia ter o mundo inteiro, ler tudo. Ele nunca soube o que produziu naquela criança. (...) Abriu-me a possibilidade de a leitura não ter limites. Isso marcou a minha relação com as palavras."
O júbilo de o mundo se ampliar, o júbilo do espelho — sou eu, sou outro? O eu sou outro e o outro sou eu? De novo, Bill Bryson: "O resultado é que vivemos num universo cuja idade não conseguimos calcular, rodeados por estrelas a distâncias que não conseguimos determinar com precisão, preenchidos por matéria que não sabemos identificar, e a funcionar em conformidade com leis da física cujas propriedades não entendemos verdadeiramente." Para aprender, continuamos.
Nomear é reconhecer a existência. Deves saber que a linguagem está feita para falhar. A língua é instável porque está viva. Aberta à indefinição, à ambiguidade, à hesitação. Essa é a sua potência. Porque ela ainda falha — continuamos.
"Eu podia ter o mundo inteiro, ler tudo. Ele nunca soube o que produziu naquela criança. (...)"
— José Gil em A Última Lição de José Gil, de Marta Pais Oliveira
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Lembro-me de entrar numa livraria em São Paulo, reuni três livros. Água Viva, de Clarice Lispector, Meu Quintal é Maior do que o Mundo, de Manoel de Barros, e O amor é um cão dos diabos, de Charles Bukowski. Clarice pensou: "A palavra é meu domínio sobre o mundo". Manoel apelou: "Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma". Bukowski notou: "é o espaço, eu digo, / todo o espaço entre / os poemas e os contos é / intolerável".
Espaço, o que está no intervalo entre limites. Pois um livro estilhaça os limites. E as palavras serão abrigo. E as palavras serão clareiras à chuva. Clarões! Dirigi-me à caixa registadora e perguntaram: Você tem cadastro?
Uma interjeição desenhou-se no meu rosto. Isso influencia a minha possibilidade de ler? Não precisei de falar para um amigo se rir — cadastro é ficha de cliente, explicou-me, no peso de um registo criminal, há a leveza de um histórico de compras. Atrás de mim, com uma pilha altíssima entre os braços e o jeito de existir de quem quer tudo conhecer, esperavam a sua vez. Não pude ver o rosto e pude vê-lo pelos livros que escolheu. Juro que a pilha de livros furava o teto e continuava, continuava.
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Palavras são unidades rítmicas. Que ritmo desenhas para ti e para os outros? Medito nos encontros em livrarias que estão no nosso imaginário coletivo, talvez este de um clássico da comédia romântica. Em Notting Hill, William (Hugh Grant), dono de uma pequena livraria de viagens, conhece Anna Scott (Julia Roberts), atriz famosa. Dá-se uma primeira troca de palavras tímida e desajeitada, aquele espaço é um refúgio e uma suspensão. Medito sobre todos os encontros que não conhecemos e que se abrem todos os dias, da ficção ao quotidiano. Se o espaço define a nossa representação do mundo, é também a representação da possibilidade do mundo. Que mundos estamos a saber imaginar?
Olho à minha volta.
Uma mulher com uma longa trança de cabelo branco senta-se a folhear um livro. Tem as mãos enrugadas de quem muito trabalhou, vejo em si as mãos da minha avó materna. Dizem-me que o meu avô materno escrevinhava num caderno coisas da lavoura, contas e registos. Hoje, leio esse caderno e encontro pensamentos, trechos diarísticos. Não me lembro de ver a minha avó ler. As mulheres foram abrangidas pela escolaridade obrigatória de quatro anos em 1960.
O que te faz rir? De que tens medo? Quem escolheu o teu nome? Cada vez que chamas alguém pelo nome, um anonimato desaparece. Revolta-me a falta de memória. Nem sempre lemos a história que escrevemos, lá onde as raízes e os desejos se entrelaçam. Conhecemos melhor a superfície lunar do que o fundo dos oceanos.
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Podemos perguntar quantas vozes cabem aqui, quantas ainda falta terem aqui lugar. Ter tempo e silêncio grávido de palavras, resistir à velocidade e à superficialidade, erguer a curiosidade. Aqui é uma livraria, distrito do Porto, Portugal, Europa, Planeta Terra, Sistema Solar, Via Láctea, Grupo Local de Galáxias, Superaglomerado Local, Universo Observável.
Olho os livreiros deste espaço, mediadores entre o mundo visível e invisível, guardiães da memória e do futuro, guias na travessia de tempos múltiplos, defensores da singularidade. Também a literatura se ocupa do que não é visível. Aqui ser uma livraria é uma questão que diz respeito a arquitetos, urbanistas, abelhas e o seu labor minucioso e transformador, poderes políticos, sardões que procuram o calor, pólen que roda no vento. Criaturas vivas que partilham esta superfície onde nos vamos movendo.
Reparo nos encontros. Um avô escolhe um livro para a neta e ambos têm barretes de gnomos na cabeça, riem-se pela pura alegria de rir, riem-se tanto que a livraria treme. Uma mulher procura um livro-com-todo-o-mundo-lá-dentro. Irradia aquela serena inquietação que tem a certeza que o que procura também a procura. Dessa certeza, nascem milagres. Por exemplo, aquele leitor que era um e agora é mil. Vejam como aquele outro leitor aprende a paciência das formações rochosas. É como um livro aberto: lâminas partidas feitas de pedra, vozes, sopros e restos de baleias. Artefactos, água deslizando, esculpidas cenas. É como um livro aberto: três mil anos, desenhos de caçadas, perícia, engenho, fúria. Ou a mais doce ternura. Vejam, agora, a leitora imobilizada, lê um livro que segura à altura do olhar. E, contudo — move-se. Os seus pés elevam-se do chão, tem dentro de si alegria. Agora, vejam como aquela leitora salta na turbulência das placas tectónicas.
Olho os livreiros deste espaço, mediadores entre o mundo visível e invisível, guardiães da memória e do futuro, guias na travessia de tempos múltiplos, defensores da singularidade.
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Leio Italo Calvino, As Cidades Invisíveis. A base de uma das cidades é uma rede e tudo se pendura por baixo. "Suspensa sobre o abismo, a vida dos habitantes de Octávia é menos incerta do que noutras cidades. Sabem que mais do que um certo ponto a rede não aguenta."
Sabemos o ponto em que a nossa rede rebenta?
Saibamos dar ao medo uma forma nova, uma forma de criação. Porque lemos, porque citamos e reinventamos, tentamos aprender a não ceder a tudo o que nos diminui ou oprime, cuidamos. Somos capazes da beleza, da liberdade, da música que abre a revolução.
Comove-me que um autor possa ter estado muito, muito
— tanto tanto — tempo a construir o seu texto, em silêncio. Muito, muito — tanto tanto — tempo depois alguém se encontra com esse texto, ou esse texto encontra esse alguém. Quem lê cria novos significados, torna o livro vivo. O livro abre novas dimensões em quem o lê. Somos seres contadores de histórias, usamos a força da imagem mental para compreender e intensificar a experiência de estarmos vivos. Cada um de nós dá voz a palavras que se perfumaram nas causas primeiras, perfuraram-se de fluídos vários, estudaram balística, giraram como planetas, fizeram de lágrimas polígonos, sugaram vértices azuis de luz, somaram infinito com infinito, procuraram o pulso de alguém, cortaram o pão, varreram o chão.
A criança a quem perguntam o nome chama a mulher, o nome que conheço é mãe. A mulher que procura algo nas estantes olha a criança, incentiva-a. Essa criança diz o seu nome à outra criança. Larga a mão da mãe, segue o chamamento de quem se aproximou de si. A dicção cheia de clareza, os olhos muito abertos. São agora duas crianças a caminharem para o lugar, aquele lugar aqui mesmo, onde abrirão — juntas — um livro.
Marta Pais Oliveira
Marta Pais Oliveira (Porto, 1990) é autora dos romances Escavadoras (Gradiva, 2021, Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís) e Faina (Gradiva, 2024, Finalista do Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz). Publicou os contos O Homem na Rotunda, Quando Virmos o Mar e Medula (Prémio Nortear Galiza —Norte de Portugal). Tenho os Olhos a Florir marca a entrada na literatura infantojuvenil. Recebeu o Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho com o inédito Como Caminhar num Pântano. Escreveu os libretos das óperas Maria Magola, Madrugada: As razões de um movimento e Belo é o Destino Desconhecido, e o teatro musical O Guarda-Rios Mágico. A Última Lição de José Gil (Contraponto, 2025), longa entrevista ao filósofo, é o seu mais recente livro. Acredita no poder e na liberdade da palavra.