Conto: O coro das cegonhas

Por: Ana Margarida de Carvalho a 2025-11-25

Ana Margarida de Carvalho

Ana Margarida de Carvalho

Ana Margarida de Carvalho é escritora e jornalista. Venceu por duas vezes o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (Que importa a fúria do mar e Não se pode morar nos olhos de um gato), foi galardoada com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco (Pequenos delírios domésticos), finalista do Prémio Oceanos e do Prémio da União Europeia para a Literatura (O gesto que fazemos para proteger a cabeça) e do Prémio PEN Clube Português (Cartografias de lugares mal situados). A chuva que lança a areia do Saara marca a estreia da autora na Companhia das Letras, que republicará toda a sua obra.

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Dá medo elas. E Farsita, shhhhh, nem uma palavra, meneava a cabeça, continuava a abanar o berço, os irmãos cedendo ao sono, ela própria cedendo ao sono, pescoço pendido, de pronto os pensamentos evadidos, à solta num redemoinho, a serem puxados para um lugar muito fundo, as cegonhas lá no alto do choupo a matraquear o bico, como metralhadoras distantes, e despertavam os meninos, outra vez. Dá medo elas. Farsita, seu braço adormecido, de súbito resoluto, agitava o berço numa quase fúria, numa quase ternura, qualquer coisa de intermédio, tremores sísmicos, os gémeos entrechocavam as cabeças, e ela com tanto para fazer, o sono a insinuar-se-lhe nas pálpebras, pesavam-lhe as pestanas, correntes, cabos de amarração, e os navios a deixarem-se ir para longe, com a suavidade da espuma, sonhos insidiosos, a enredá-la, a meterem-se-lhe debaixo da pele, entre os músculos dos braços, que se tornavam moles, desfalecidos, é sempre assim que o sono nos convida, como um par amável que nos estende a mão para dançar, e as cegonhas, lá no seu matraquear, acordavam os meninos, outra vez, dá medo elas, e Farsita não despertava com as cegonhas, uma convivência tão antiga, conhecia aquele bater de bicos de cor, mas os pequenos inquietos, dá medo elas, num sussurro, daí a nada, gritos, daí a nada, choros, e ela, sim, dá medo que acordem os outros irmãos, que era sempre assim, resistiam em adormecer, e, se se pegavam no pranto, acordavam a casa inteira, e a mãe, coitada, que daí a nada, os seus chinelos a raspar o chão, os olhos ainda fechados e já a amarrar o lenço, a caminhar para o turno, e Farsita, shhhh…, largou pelo corredor, rodou a chave da porta sem nenhum chiado e saiu para a rua a jogar pedritas para o matraquear das cegonhas, a ver se as afugentava, mas as suas investidas nem atingiam os troncos, nem o arvoredo, os seus braços não eram de apedrejar, mas de embalar, de esfregar fraldas, de mexer panelas, porque não piavam as cegonhas como as outras aves da noite, não incomodariam os irmãozinhos, pois, destituídas de cordas vocais, como haveriam de comunicar entre si lá os seus assuntos, que são sempre urgentes os pássaros, apressados, impacientes, e lá jogava ele pedrinhas a ver se elas paravam de lançar o pescoço para trás a quebrar a noite com rajadas de revólver sem balas. Na estrada, um vulto, assustaram-se mutuamente, um rapaz pouco mais velho do que ela, que passava, mas hesitava, quiçá admirado com aquele seu ar de quem sai da cama, de cabelo assarapantado, e olhos roxos de sono. Dá medo ela. E Farsita já de fugida, a encolher a vergonha, estava só a, estava, estava só, estava a, e largou a pedra, já arrependida de dirigir palavra a um desconhecido a meio da noite, a camisa esfiapada, pés descalços, os meus irmãozinhos não dormem, ela a dar explicações a quem não as pediu. E ele a segurar-lhe no braço, a tentar acalmá-la, um sorriso amistoso, que Farsita sempre tão esquiva, quase sorriu, e deixou cair os ombros derrotados de cansaço. E ela tão esgotada, quase sem dar por isso, apoiou a testa no ombro do desconhecido, que chegava do turno, e ele tão amavelmente deixou-se ficar imóvel, para ela era como se dançassem num sonho, no meio da estrada, sem se sequer moverem os pés, e a banda sonora das cegonhas parecia-lhe agora tão amena, o matraquear tão benigno, chocavam os bicos para acompanhar a valsa daquele par improvável, que dançava parado, taca, taca, taca, taca, não conheces a linguagem dos pássaros?, taca, taca, taca, taca, taca. E ela, não, só conheço os ralhos da mãe, o choro dos irmãos, a linguagem dos fogões, do tanque da roupa, dos trapos e cacos e contradições. Com as palmas das mãos em concha, o rapaz imitou o matraquear das cegonhas. O que isso quer dizer? Quer dizer que estou cá fora à tua espera, sempre que me queiras. E novamente outra combinação de palmas côncavas. E isso? Quer dizer que gosto de dançar contigo. E quem te ensinou a linguagem das cegonhas? Foi o sol, o pó, o ronco das fábricas, os passos na estrada, o restolhar dos ramos quando não faz vento, as cigarras a roerem o calor das tardes, quando toda a gente se recolhe. Como sabes tantas coisas? São coisas que se aprendem nos caminhos. Não conheço os caminhos, só os do quarto para a cozinha e os da cozinha para o fundo do quintal. A minha mãe tem turnos e precisa de dormir. O meu pai é um homem intermitente, chega para fazer um filho à minha mãe e nem espera por eles nascerem. Nunca troquei mais de duas ou três palavras com ele. Entra mudo, sai calado. E sempre que desaparece pela porta, a minha mãe fica com olhos de poço seco. Os meus irmãos mais velhos foram abalando, casaram-se ou emigraram. Pensei que seria eu a seguir, mas depois nasceram os gémeos. E a eles dá-lhes medo a linguagem das cegonhas. Tenho de os manter quietos para não acordarem os outros e a mãe. Conheço a linguagem do choro, dos primeiros pingos da chuva para apanhar a roupa posta a secar, do último arrulhar de desgosto da galinha quando lhe torço o pescoço, do esfregar do chão com a vassoura, dos pés arrastados da minha mãe. Mas agora conheces a linguagem das cegonhas. Farsita ia a acenar com a cabeça, que continuava apoiada no ombro do desconhecido, deslizou a testa pelo pescoço fuliginoso dele, encostou o ouvido ao seu peito, os seus corações acelerados fundiram-se com o taca, taca, taca, taca, taca das cegonhas. E podem ter ficado assim, os dois, um minuto ou muito tempo. Farsita saiu deste enlevo com um rasgão súbito que lhes despedaçou o momento e bocados dele estatelaram-se no chão com estrondo. A mãe puxou, brusca, pelo cotovelo da filha. Saíra de casa, assistira àqueles dois, e eles, tão envoltos pelo abraço da noite, nem deram conta. E Farsita resvalou aterrada, acordara a mãe, os meninos lá dentro choravam, dá medo elas. E não reconhecia o olhar irado da mãe, usualmente bondoso, a toda a hora fatigado, não reconhecia a sua boca cheia de dentes aguçados, não reconhecia os seus gritos, não reconhecia as suas palavras, desavergonhada, cabra, indecente. Também não reconheceu a pancada que lhe avermelhou o rosto, e a fez furtar-se da segunda, entrando dentro de casa. A porta a fechar-se irrevogável, a linguagem da raiva a medir-se pelos chinelos da mãe de roda do corredor, escutou um arfar esquisito, parecia de um cão muito grande e esfomeado, percebeu que aquele ruído vinha de dentro de si, dá medo ela, agarrou-se aos irmãozinhos, que se silenciaram, assustados, como se os corpos deles contra o seu peito convulsionado a pudessem proteger. A mãe entrou-lhes no quarto, vagarosa e cabisbaixa, e com ela um feixe de aurora que teimava em nascer. Farsita a encolher-se a um canto, os meninos, debaixo da cama, a mãe puxou-os meticulosa, um a um, pelas pernas, pelos cabelos, pelas roupas e a todos, no chão, acolheu num abraço. O abraço alargou-se, um abraço coletivo, feito de muitos braços, muitas cabeças, muitos choros, muitos beijos. Era a maneira de a mãe pedir desculpa, à Farsita pela raiva, aos irmãos pequenos pelo susto, a si própria pelo descontrolo. E o dia amanheceu, ainda pálido e indeciso, Farsita quebrou aquela reconciliação familiar, alertando amorosamente a mãe, ia chegar atrasada, compôs-lhe o lenço, amanhou-lhe o farnel e empurrou-a porta fora, beijando-a muito, adorando-a como sempre, e ficou a ver-lhe o vulto sem sombra a desaparecer na estrada. A mãe perdeu a hora, teve de se oferecer ao supervisor de linha para este não a denunciar ao gerente e chegou a casa mais tarde do que nunca, os olhos púrpura de cansaço e humilhação, nem pegou no prato que Farsita sempre lhe deixava pronto, passou a mão pela cabeça de cada um dos seus pequenos, precisava de descansar, e dirigiu-se para a cama a cambalear de sono. E Farsita na sua rotina, trocar fraldas, insistir para que os gémeos engolissem a sopa, preparar a mala da escola dos outros irmãos para o dia seguinte, convencê-los a deitarem-se, a não fazerem barulho para não perturbar a mãe, a apaziguar-lhes os terrores nocturnos, a linguagem das cegonhas, dá medo elas, shhhhh… E, nessa noite, como em todas as seguintes, Farsita esperou, entre o taca, taca, traca, taca das cegonhas, as palavras côncavas do rapaz. Com o tempo, aprendeu a responder-lhe no mesmo idioma, a linguagem dos pássaros, batia as palmas para o quintal e o muro devolvia-as de volta, em forma de eco, para a estrada onde se encontrava o rapaz, no regresso do turno. Os meninos, não dá medo elas, habituaram-se àquele matraquear, banda sonora dos seus adormeceres, e até as cegonhas se silenciavam, bico espetado, curiosas com os enredos da rapariga que adormecia meninos e do rapaz encardido que atravessava a noite e, de tanto prestar atenção, aprendera a linguagem dos pássaros. E as conversas destes dois iam ter sempre ao mesmo sítio. Ele pedia-lhe que ela viesse com ele, que haveria mais fábricas e sustento para os dois aí nos caminhos, e ela que não podia, quem tomaria conta dos irmãozinhos, quem garantia que eles entravam pela porta da escola e não saíam pela janela, que os irmãos estavam muito travessos, aprontavam trinta por uma linha, não se lhes podia tirar os olhos de cima, e os gémeos, tão pequeninos, tudo os apavorava, se já não era as cegonhas, eram as aranhas que laboriavam no pó da casa, dá medo elas, e o gato que se assanhava, como podia deixar tanto encargo em cima da mãe, coitada, trabalhava para sustentar todos e andava com as mãos encarquilhadas de costurar solas de sapatos, e as costas tão curvadas a carregar o peso dos anos que ainda não fez. Mas tu tens direito a ter a tua vida, argumentava o rapaz, algum dia terás de trilhar o teu caminho e escolher as tuas direções. Há tantas coisas bonitas que não sabes. Eu próprio só me retenho nesta terra por tua causa. Porque me amas acima de todas as coisas? Sim. Porque me amas acima da espera? Sim. E quem ama espera. Eu espero, mas há de chegar uma altura em que tens de decidir. E mais vale cedo, enquanto ainda estás leve para caminhar. Sim, quando chegar a altura, serás o primeiro e único a saber. E todas noites isto, com algumas poucas variantes. As cegonhas já fatigadas do assunto, a achar que estes bípedes sem penas não tinham grande mistério. Só maldade. Se bem que destes dois não tinham razão de queixa, já haviam perdoado a carga de pedrinhas irrisórias de Farsita. Mas os outros bípedes, em geral, quando as caçavam à paulada e depois deixavam os seus despojos à deriva, porque é imprestável a carne de cegonha. Quando comiam os seus ovos, apesar de carregados de salmonelas, fazem medo eles. Quando vinham para lhes destruir os ninhos com canas aguçadas, só porque sim. Quando lhes atormentavam as crias com barulho, fazem medo eles. Mas numa noite as cegonhas esticaram o bico cá para baixo, não é que escutassem melhor com ele, mas queriam acompanhar melhor a conversa, o teor era sempre o mesmo, partir, não partir, a mãe, os irmãozinhos, espera, espero, quando, um dia, mas havia uma urgência na linguagem que não era habitual e as intrigava. Algo que decorria da primeira noite em que se conheceram, elas não entendiam o porquê de tanto alarido, de tanto desassossego, de tanto ofegar. Na linguagem dos pássaros, também se arqueja e anseia, como não poderia deixar de ser. O prazo está muito curto, dizia ela, tens de me ajudar. Já muito me custa pegar nos irmãos ao colo, e apertar o último botão da bata. Tens de vir, Farsita. Tens de decidir se queres ser mais um encargo para a tua mãe doente, uma vergonha para o teu pai ausente, um embaraço para os teus irmãos desobedientes. Tens de decidir. Não consigo. Tens de conseguir. Eu sinto o apelo dos caminhos a puxarem por mim, Farsita, e eles têm a força de um eucalipto velho capaz de sugar a água, sedento, até secar ribeiros, só tu me prendes, mas tenho de ir, está por dias, ou horas. Se me queres, diz já. Não consigo. Dá mais um tempo. Como, se tu própria não o tens para ti? Tens de decidir, Farsita, vamos embora, hoje, esta noite, agora. Não consigo. Só te peço, Farsita, depois de agora, será tarde de mais. Se acontecer alguma coisa que eu precise de saber, continuamos a comunicar através dos pássaros para ninguém saber o que só nós sabemos. Nós e as cegonhas, que partilhamos o mesmo idioma, a mesma estrada, o mesmo pó, a mesma noite. Se quiseres que te venha buscar, prende um pinto desses, acabados de nascer, com um cordel no alto do teu telhado, que eu ouço. Isso provocará um alvoroço tal que as cegonhas voarão em círculos em redor da tua chaminé, e vê-las-ei de muito longe, as pombas assarapantadas passarão o dia em elípticas nos céus, e hão de passar por mim a dar o recado. Se isso acontecer, venho, na dobra de um segundo, buscar-te sem demora. Senão, espero uma semana, deixo-te pensar em paz, não te pressiono mais, e vou-me embora para sempre com o coração destroçado, Farsita, a gotejar saudades, a derramar remorsos, a prantear para sempre. E ela que sim, faria isso, agora tinha de ir para dentro, que um dos irmãos dava sinal de acordar. E as cegonhas, cada vez mais perplexas, se ainda por cima o plano as envolvia a elas, viram o rapaz descer a estrada com as pernas grudadas, como as tais raízes de eucalipto que se cravam, sugam e secam tudo. Nessa manhã, Farsita já não se levantou para compor o lenço à mãe nem para acompanhar os meninos à escola, dormiu um sono tão pesado e cheio de sonhos em que as cegonhas a bicavam na barriga e lhe puxavam pelo umbigo. Quando se levantou, amolecida, a humidade do dia confundia-se com a cachoeira de água doce que se vertia pelas suas pernas. Só então lhe vieram à cabeça as palavras do rapaz. E decidiu. Tinha de partir. E agir muito rápido. A linguagem dos pássaros e o código combinado implicavam alguma agilidade que o corpo lhe negava. E a mãe, com seus olhos semicerrados, nunca dera por nada. Antes assim, poupava-lhe um desgosto e muitos cansaços. Farsita assegurou-se de que os gémeos ficavam seguros e alimentados. Pregou um susto ao gato para ele não interferir nos planos. E de pernas já muito abertas, com as mãos a amparar o ventre, entrou no galinheiro para grande alvoroço das galinhas, que ainda mais perplexas ficaram quando a viram dirigir-se aos pintainhos penugentos, e agarrar um pela cabeça, geralmente sacrificava as mais gordinhas, ou a mais velha para fazer canja, não uma cria, só ossos tenros e patinhas de aranhiço. Encostou a escada ao telhado e começou a subir, mas as pernas tremiam-lhe, a barriga retesava-se de dor, e o pinto arrastado pelo cordel, atónito, ainda ontem dentro de um ovo, tanto regalo, tanto abrigo, tanta albumina e agora nesta escalada de pavor. Farsita a deixar as telhas desalinhadas, primeiro de gatas, depois já só os braços se moviam e o resto do corpo seguia no arrasto, o pinto, o pobre, aos trambolhões. Lá conseguiu amarrar o pinto, e deixou-se ficar naquele plano inclinado, a gotejar sanguionolentas lástimas pelo algeroz. Enquanto ela ali estivesse, as cegonhas não executariam a sua dança, e o rapaz não detetaria o sinal para a vir buscar. Desceu a custo e acordou com a mãe a aconchegar-lhe os lençóis, colocando-lhe entre o peito uma trouxinha que soltava vagidos débeis de pardal. Olhou-lhe o rosto avermelhado e achou a criancinha parecida com o rapaz, apesar de nunca lhe ter visto a cara, era noite escura na única vez em que se encontraram. Sossegou a mãe, dizendo que não teria de se preocupar, o rapaz que falava a linguagem dos pássaros não tardaria a chegar. Ele nunca a abandonaria, e os pássaros eram muito hábeis na arte de dar o alerta, uma questão de minutos até ele entrar pela porta. A mãe ocultou um suspiro profundo e continuou silenciosa, levou os gémeos para os deixar descansar. Uma luz crua bateu no olhar de Farsita, entrou impertinente pela janela e de súbito ela reparou que os irmãos não estavam na escola àquela hora do dia e precipitou-se a repreendê-los, mas estes não a deixaram sequer começar. Estavam ali para tomar conta dela e do sobrinho, a mãe batalhou muito para não perder o emprego, e vendeu muitas coisas da casa para pagar o médico, também os cortinados que herdara da avó. Estás doente há duas semanas, só acordavas para beber o caldo que a mãe deixava preparado e dar de mamar ao menino. Lá fora, o coro das cegonhas, dá medo elas, shhhhh…, e o olhar de Farsita percorreu o soalho, como uma abelha moribunda que se afasta para não contaminar a colmeia. No canto do quarto, o gato da casa, parecia que envelhecera anos, respirava com dificuldade, exibindo as costelas a cada inspiração. Adoeceu quando tu adoeceste, explicaram os irmãos. Tem um cordel entalado no esófago.

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