Hoje celebra-se o Dia Internacional da Proteção de Dados, instituído em 2006 pelo Conselho da Europa para promover a consciência relativamente à importância da privacidade e à proteção dos dados pessoais.
Quando pensamos neste tema, o mais imediato é pensarmos na burocracia da legislação GDPR, na preocupação que experienciamos quando somos notificados de que os nossos dados foram “leaked” devido a um ciberataque, assim como a fadiga que provém da decisão diária sobre o que escolher na janela pop up de consentimento de cookies.
Estes são os aspetos mais práticos da privacidade de dados, e são inegavelmente um aspeto importante deste tópico. Mas para compreender o seu significado na sociedade e nas nossas vidas, é necessário olhar para este tema com uma visão crítica e aprofundada. O que está por detrás destes momentos em que somos recordados da privacidade dos nossos dados (ou da falta dela) estende-se muito para além do que aparenta: descubra mais sobre como um mundo dos dados está a moldar o futuro da sociedade e da economia.
O polémico livro em que Sarah Wynn-Williams, ex-funcionária da empresa americana Meta (dona do Instagram, Facebook e WhatsApp) conta tudo sobre os bastidores desta emprega monolítica, o maior grupo no sector das redes sociais. Esta é uma indústria que, quer pensemos nisso quer não, vive dos nossos dados, da sua agregação, análise e comercialização… a utilização dos seus serviços é apenas gratuita pois somos nós o produto. Este livro foca-se nas questões éticas testemunhadas por Sarah na Meta, não só em relação às práticas operacionais relacionadas com dados, mas também com toda a intriga interpessoal desta multinacional, o que levou a que a autora tenha sido alvo de um processo pela Meta, estando proibida de promover o seu livro. Uma leitura bombástica - a não perder.
Este livro de Carissa Véliz, professora associada na Faculdade de Filosofia e no Instituto para a Ética e Inteligência Artificial em Oxford, é uma chamada à ação para estarmos atentos, e reivindicarmos a nossa privacidade. Cada vez mais cedemos àquilo que parece inevitável, a entrega de informação cada vez mais detalhada sobre as nossas vidas, os nossos gostos e interesses, os nossos relacionamentos, até o nosso historial médico, a uma série de empresas e instituições, concendo-lhes assim poder desmedido. Segundo a autora, a preocupação que sentimos sobre os nosso dados não é inadequada, e chegou o momento de não nos conformarmos e de recuperar o controlo sobre os nossos próprios dados. Nas palavras de Jonathan Wolff: “Uma leitura essencial para aqueles de nós que clicam em “concordo” dez vezes por dia.”.
Neste livro pioneiro da socióloga norte-americana Shoshana Zuboff parte da análise marxista tradicional para propor que nos encontramos numa nova fase do sistema capitalista: o capitalismo da vigilância. Marcado por uma nova lógica de extração, assente na recolha e comodificação de dados pessoais, este novo momento diferencia-se pela geração de riqueza a partir de dados comportamentais — que permitem prever e influenciar as nossas ações futuras — ao invés da produção de bens e prestação de serviços, as atividades que têm marcado este sistema económico até agora. Um texto com rigor académico mas acessível a todos os leitores, que levanta questões sobre a magnitude do impacto desta nova indústria na sociedade, na distribuição de poder e na probabilidade da nossa conceção de autonomia e liberdade permanecer como a conhecemos.
O economista grego e ex-ministro das finanças durante o governo do partido Syriza no desfecho da crise financeira de 2008, é um analista experiente do panorama económico e político, assim como um crítico feroz do sistema capitalista. Este livro debruça-se precisamente sobre a nova dimensão que as mudanças tecnológicas abrem sobre sistema económico em vigor, nomeadamente o desmoronar dos mercados tradicionais. Um dos principais conceitos que Varoufakis formula é o da equivalência com o sistema feudal: os dados pessoais que aceitamos que extraiam a partir do nosso histórico de interações, constitui a renda que pagamos aos latifundiários deste novo território, o ciberespaço. Um livro importante para compreender as mudanças de paradigma em processo no nosso mundo, assinado por um dos mais incisivos economistas da atualidade.
O filósofo alemão Byung-Chul Han é prolífico nas suas reflexões sobre assuntos da atualidade, com o olhar crítico de um dos mais importantes pensadores da contemporaneidade . Neste ensaio, o objeto da sua análise é a digitalização crescente da esfera pública, em particular a utilização das tecnologias de informação nos processos democráticos. Cada vez mais, vemos as campanhas eleitorais e outros momentos de decisão política a tornar-se palcos de uma guerra pela atenção e interação dos cidadãos. Desde social bots criados para nos influenciar, à desinformação e caos informativo, tudo depende da acumulação de dados: aquilo a que estamos expostos depende do perfil que os nossos dados formam. Uma leitura para refletir e aprofundar.