Partilhamos a convicção de C. S. Lewis, autor do clássico da literatura infantojuvenil As Crónicas de Nárnia, de que “uma história infantil que só pode ser apreciada por crianças não é uma boa história infantil.” Também Fernando Pessoa acreditava na ideia de que “nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças.” Os livros infantis oferecem aos adultos a oportunidade de reacender a sua imaginação, podendo ser uma ferramenta importante para estimular a criatividade e a curiosidade. Para além disso, relembram-nos de voltar a ver o mundo através dos olhos das crianças, e refletir sobre as questões que realmente importam, o que, por norma, só as crianças fazem – aquelas que não têm resposta.
Por essa razão, fizemos uma seleção de cinco livros infantis que podem e devem ser lidos também por adultos, destacando cinco perguntas a que cada um deles procura responder.
Gosto, logo existo - Redes sociais, jornalismo e um estranho vírus chamado fake news
Abordando questões como as notícias falsas (fake news) e os perigos das redes sociais, Gosto, logo existo é apresentado pela editora Planeta Tangerina como "um livro que acredita que é importante fazer perguntas e que as respostas não estão todas no Google". Da autoria da escritora e jornalista Isabel Meira, fala sobre a forma como acedemos à informação (ou à desinformação) na era digital, incentivando ao desenvolvimento do pensamento crítico em relação ao que lemos e vemos nas redes sociais e outros media.
Para a autora, a informação é importante pois considera que "estar informados é como ter uma espécie de músculo invisível que nos ajuda a tomar decisões mais sólidas, mais consistentes." No entanto, é de igual ou maior importância, nos dias que correm, saber filtrar a informação que recebemos e pensar de forma crítica sobre a mesma.
Pergunta: O que é o pensamento crítico e como podemos exercitá-lo?
À descoberta do universo - Tudo o que precisas de saber para viajar no espaço e no tempo
A escolha deste livro para esta seleção prende-se com uma citação atribuída ao físico Ernest Rutherford: “Se não consegue explicar um resultado em termos simples e não técnicos, é porque não chegou a compreendê-lo.”. Se é um/a curioso/a da astronomia e da astrofísica, mas costuma ter dificuldade em acompanhar e reproduzir alguns conceitos abordados pelos cientistas, este livro pode ser um bom ponto de partida. Da autoria de um dos físicos mais brilhantes de sempre, Stephen Hawking, e da sua filha Lucy, À descoberta do universo compila todos as teorias científicas apresentadas na série das aventuras George - uma coleção de literatura infantojuvenil inspirada pelas descobertas científicas de Hawking.
Repleto de ilustrações, factos e números, este livro leva-nos a imaginar cenários: "Como teria sido caminhar na Terra cheia de lava há 4,5 mil milhões de anos? Como se sentiria ao lado de um vulcão em erupção? Ou se desse o primeiro passo na superfície da Lua? E o que faria se os robôs viessem a dominar o mundo?". Ao mesmo tempo, abre a porta para aprendermos mais sobre alguns dos mais fascinantes mistérios do universo, como os buracos negros ou a possível existência de vida noutros planetas.
Pergunta: O que é que o conhecimento do universo pode ensinar-nos sobre a humanidade?
Porquê? Histórias e Pensamentos de 100 Filósofos
Se procura respostas para as grandes questões da vida, dificilmente as vai encontrar nas ciências exatas. A filosofia pode parecer-lhe uma disciplina distante, com conceitos demasiado complexos que dificilmente ocupam lugar no nosso dia-a-dia, no entanto este livro pode provar-lhe o contrário. Na sinopse de Porquê? Histórias e Pensamentos de 100 Filósofos, publicado pela Editorial Presença, este é apresentado como "um livro para crianças e adultos, para todos aqueles cuja mente está em constante atividade e que não ficam satisfeitos com respostas estereotipadas". Nele, poderá fazer um percurso pela História da Filosofia através das histórias de cem filósofos e pensadores de todas as épocas e de todas as partes do mundo, na companhia de maravilhosas ilustrações.
Pela mão de Sócrates, Hipácia, Kant ou Voltaire, temos a oportunidade de refletir sobre diferentes temas, como a linguagem, o amor ou a existência de Deus. No entanto, o que torna este livro verdadeiramente especial são as perguntas e desafios que nos incentivam a exercitar o pensamento abstrato e a raciocinar como um grande filósofo - e, ao mesmo tempo como uma criança, pois como escreveu o autor russo Evgueni Zamiatine, em Nós: "As crianças são os únicos filósofos ousados. E os filósofos ousados são todos necessariamente crianças".
Pergunta: Qual é o papel que a filosofia pode ocupar no nosso dia-a-dia?
Momo
Embora Michael Ende seja mais conhecido por ser o autor de A História interminável, um clássico da literatura infantojuvenil que se transformou também num filme de culto, a sua obra não se resume à história do pequeno Bastian. Neste livro, publicado originalmente em 1973, acompanhamos a história de Momo, uma menina de origens misteriosas, com uma qualidade muito rara - saber ouvir e trazer poesia e afeto às vidas daqueles que a rodeiam. Um dia, chega à cidade o exército dos "senhores cinzentos", com a intenção de roubar o tempo às pessoas. A vida torna-se estéril e sem alegria, e só Momo pode salvar a população da cidade e devolver-lhe o tempo roubado.
Embora seja uma história infantil, o tema do tempo como um conceito subjetivo e, sobretudo, como uma ansiedade comum a todos os seres humanos, torna o livro apelativo também para os adultos, possibilitando assim a reflexão acerca de um tema tão profundo com a leveza que é característica da linguagem da infância.
Pergunta: Porque é que à medida que crescemos sentimos que o tempo passa sempre a correr?
Vamos comprar um poeta
Da autoria de uma dos mais importantes autores da literatura portuguesa atual, Afonso Cruz, Vamos Comprar um poeta é uma história sobre a importância da poesia, da criatividade e da cultura nas nossas vidas - miúdos e graúdos. Neste, o autor imagina uma sociedade onde o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. Para além disso, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. Considerando que, ao contrário do que acontece com os pintores ou os escultores, um poeta não sai caro nem suja muito, a protagonista desta história escolhe ter um poeta de estimação. No entanto, a sua vida nunca mais vai voltar a ser a mesma...
Mais do que uma mera história para crianças, este livro é um convite à reflexão sobre um tema absolutamente central na sociedade de hoje - qual a utilidade da cultura e da arte nas nossas vidas, e qual a importância de investir nestas áreas?. Sugerimos que complemente a leitura com o livro Ler o mundo, de Michèle Petit.
Pergunta: A poesia (e a arte) precisa de ser útil para ser importante?