É tido como a voz mais importante e singular do ensaísmo português do século XX. Falecido em 2020, Eduardo Lourenço ficou conhecido pelas análises certeiras da identidade portuguesa, numa abordagem crítica que foi muito além da filosofia e da literatura — embora estas tenham estado sempre presentes como pêndulos de análise e reflexão.
Nascido a 23 de maio de 1923, em S. Pedro do Rio Seco, no concelho de Almeida, na Beira Alta, o ensaísta que celebraria 100 anos no próximo mês de maio era o mais velho de sete irmãos, filho de um militar do exército, tendo frequentado a escola primária da aldeia onde nasceu e, posteriormente, passado pelo Colégio Militar, em Lisboa, onde concluiu o curso em 1940. Formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra, onde foi professor entre 1947 e 1953, lecionou depois em várias universidades, como a da Baía, no Brasil, , e as de Hamburgo, Heidelberga, Montpellier, Grenoble e Nice. Fixando residência em Vence, em França, lecionou, até à sua jubilação, na Universidade de Nice.
Surpreendendo pela “capacidade de ser portador de um olhar sempre diferente e inquietante sobre os problemas de que se ocupa” 1, como escreveu Eduardo Prado Coelho, manteve sempre uma postura de espanto pela “pluralidade de interesses, a imensidão de uma cultura que não se entrincheira em redutos de erudição, o jogo ilimitado das referências”. Durante mais de cinco décadas, marcou, com especial ressonância no pós-25 de Abril, o pensamento português, através de uma voz profunda e de consensual fascínio sobre a intelectualidade portuguesa.
Esteve próximo dos neorrealistas, surgiu como colaborador recorrente da revista O Tempo e o Modo, mas foi sobre a poesia, nomeadamente sobre as figuras de Camões, Antero de Quental e Fernando Pessoa que se debruçou com mais afinco. Tornou-se, após a publicação, em 1949, de Heterodoxia I, uma figura incómoda face às duas forças ideológicas em que se dividia o país: o catolicismo conivente com o regime salazarista e o marxismo, ao defender uma noção de heterodoxia que equivale à aceitação da pluralidade de “ortodoxias”.
Distinguido com o Prémio Camões, mas também com o Prémio PEN Clube, Eduardo Lourenço foi autor de uma obra extensa, marcada pela leitura de Husserl, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger e Sartre, que vai da crítica literária até uma particular preocupação na análise das autognoses coletivas que as culturas literárias e artísticas espelham, reflexão que, desde O Labirinto da Saudade até Poesia e Metafísica, examina "as imagens que de nós mesmos temos forjado", culminando com uma interrogação sobre o destino português.
Numa entrevista ao Expresso, em 2017, dizia estarmos hoje “confrontados com desafios e respostas que significam quase uma vontade de nos darmos um mundo criado por nós”. “Um mundo que se afasta cada vez mais desses tempos em que a natureza comandava os imperativos do homem. Hoje, a Humanidade está dividida não só entre os que dominam e os dominados, mas sobretudo entre os que sabem e os que não sabem”, realçou.
Apaixonado pela literatura, referia-se aos livros como “filhos” e dizia que “estar-se sem livros é já ter morrido”. Quanto a Portugal, manteve a convicção que o país tem vontade de não abdicar do sonho. “Portugal viajou uma viagem por conta própria, um sonho, e esse sonho não tem fim e não terá fim”, disse. “Os portugueses atreveram-se tanto quanto podiam, talvez, e esse atrevimento é aquele que ficará realmente na história de nós.”
“Estar-se sem livros é já ter morrido”
1. cf. COELHO, Eduardo Prado — "Eduardo Lourenço: Um Rio Luminoso", in A Mecânica dos Fluidos, Lisboa, INCM, 1984
Este artigo foi publicado na Revista Somos Livros edição abril 2023).