Acreditava José Saramago que "fora da cabeça não há nada". "Tudo quanto estamos por aqui a dizer é um produto dos poderes ou das capacidades do cérebro: a linguagem, o vocabulário mais ou menos extenso, mais ou menos rico, mais ou menos expressivo, as crenças, os amores, os ódios, Deus e o diabo, tudo está dentro da nossa cabeça." Perceber como funcionar o nosso cérebro e como o estimular e manter saudável é, portanto, fundamental, para uma vida longa e próspera.
No dia em que se assinala o Dia Mundial do Cérebro, uma data criada para promover a sensibilização para as doenças neurológicas, desvendamos mitos sobre o nosso órgão mais complexo e partilhamos consigo alguns exercícios fundamentais para o manter em forma - recorrendo, sempre, àqueles que acreditamos serem os melhores amigos do nosso cérebro: os livros!
DESMISTIFICAR O CÉREBRO
Embora o cérebro contenha ainda muitos mistérios por resolver, a medicina tem vindo a desvendar muitos dos mitos populares que existem acerca deste órgão. Com a ajuda do psicoterapeuta e neuropsicólogo Vasco Catarino Soares, partilhamos consigo alguns dos mitos que pode encontrar esclarecidos no livro 150 exercícios para um cérebro ativo.
MITO 1: O cérebro humano é o maior do reino animal
Embora os seres humanos sejam os seres mais inteligentes do reino animal, a verdade é que o nosso cérebro está longe de ser o maior. Com um peso entre 1300 a 1400 gramas e um comprimento de 15 centímetros, é bem menor que o cérebro do cachalote, que pesa aproximadamente 8 kg.
MITO 2: Só usamos 10 % do nosso cérebro
De certeza que já ouviu várias vezes esta ideia, mas a realidade é que não existe evidência científica para a sustentar. Durante a nossa vida existem grandes quantidades de neurónios que não são ativados em determinados momentos ou fases da vida, mas que estarão a funcionar noutras tantas ocasiões. Por essa razão, podemos afirmar que o cérebro funcionará na sua totalidade, mas não em simultâneo nem a todo o momento.
MITO 3: O cérebro humano é cinzento
Quando falamos da matéria que compõe o cérebro, referimo-nos a ela como sendo "matéria cinzenta." Já dizia Hercule Poirot, o famoso detetive criado por Agatha Christie: "Uso apenas as células cinzentas. A sorte deixo-a para os outros." Contudo, embora seja verdade que existe matéria desta cor nos nossos cérebros, estes são também constituídos por matéria de outras cores, tal como branco, negro e vermelho.
MITO 4: O cérebro trabalha melhor sob pressão
Apesar de ser uma convicção partilhada por muitos, a realidade é que o seu oposto está mais próximo da verdade. Na maior parte das vezes, a pressão causa dificuldades ao funcionamento do nosso cérebro, podendo até ter consequências negativas para o mesmo, como o aumento dos níveis de cortisol, algo que tem efeitos adversos no processo de aprendizagem e na formação de memórias.
MITO 5: Os canhotos são mais criativos que os destros.
Com base na ideia de que o hemisfério esquerdo do cérebro processa melhor o raciocínio lógico e que o hemisfério direito é dedicado ao processamento da informação visual e à criatividade, surgiu esta falsa crença de que os canhotos seriam mais criativos do que os destros. Esta foi ainda alimentada pela existência de alguns criativos canhotos famosos, como Beethoven ou Picasso, no entanto não existem, até à data, provas empíricas que a sustentem.
MITO 6. Os cérebros do homem e da mulher possuem diferenças que influenciam as suas capacidades de aprendizagem
É uma questão muito debatida, a da existência de um "cérebro feminino" mais dado às emoções e à empatia, e a de um "cérebro masculino" mais lógico e matemático. No entanto, embora existam pequenas diferenças anatómicas entre ambos (por exemplo, o hipocampo é, frequentemente, maior nas mulheres), estas não se traduzem em diferenças de capacidades cognitivas.
MITO 7. Ouvir música clássica na infância torna as pessoas mais inteligentes
Se tem filhos, de certeza que já ouviu este mito. Surgiu devido a um estudo realizado nos EUA, no qual os indivíduos obtiveram melhores resultados num teste de QI após a audição de música clássica. No entanto, nenhum estudo posterior conseguiu provar esta correlação.
MITO 8. A partir dos 40/50 anos, o cérebro começa a decair e a perder capacidades
Apesar de algumas capacidades cognitivas começarem a declinar à medida que vamos envelhecendo, um cérebro mais velho pode ultrapassar um mais novo num igual número de capacidades. Para além do vocabulário que tende a aumentar, as pessoas mais velhas são também mais eficazes a gerir conflitos e a regular as suas emoções, entre outras aptidões.
MITO 9. As células do cérebro, quando morrem, são insubstituíveis
Durante décadas, acreditou-se neste mito. No entanto, embora as células mortas não ressuscitem, as que continuam vivas podem ser recrutadas pelo cérebro para auxiliar nas funções que sofreram baixas. Para além disso, nascem também novas células que podem ser chamadas a substituir as que morreram.
MITO 10. O cérebro não se altera com o treino cognitivo
Os exercícios cognitivos têm resultados reais comprováveis, sendo que muitos estudos apontam para ganhos de performance na ordem dos 20 a 40 %. São também conhecidos os benefícios do treino cognitivo como fator retardador do surgimento de demência e da progressão de doenças deste foro.
VAMOS EXERCITAR O CÉREBRO?
1. Na imagem abaixo existem várias palavras com nomes de cores que estão preenchidas com duas cores diferentes: branco ou preto. Diga em voz alta a cor em que a palavra está escrita e não o que lá está escrito.
2. Observe as imagens do quadro abaixo com atenção.
De seguida, cubra o quadro e verifique se, no quadro seguinte, os objetos estão no mesmo local (certo ou errado). Consegue acertar em todas?
3. Memorize o conteúdo do cubo abaixo durante dois minutos.
Tape o cubo e reproduza o que memorizou.
4. Memorize o texto abaixo durante cinco minutos.
“No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis de que a Fábula ou a História falaram. Dele nada conheces, nem o nome, nem semblante, nem a seda de que se vestem. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha”. (Retirado de O Mandarim de Eça de Queiroz).
Tape o texto e tente responder e classifique as seguintes afirmações como verdadeiras ou falsas.
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V |
F |
| O Mandarim era mais rico do que todos os príncipes que a Fábula ou a História contam. |
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| O Mandarim vivia no fundo da China. |
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| Do Mandarim apenas conhecemos o semblante. |
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| A campainha estava posta sobre um livro. |
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| Ele soltará apenas um suspiro nesses confins da Mongólia. |
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| Para que tu herdes os seus carcanhóis, basta que toques essa campainha. |
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| Será então um cadáver. |
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| E tu verás nas tuas mãos mais ouro do que… |
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| Tu que me ouves e és um homem mortal, |
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| Não tocarás tu a campainha? |
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5. Descubra os animais que podem ser obtidos pela substituição de apenas uma letra da palavra inicial. Veja o exemplo.
6. Escolha a opção que completa a sequência.
7. Identifique a única figura que é igual à da primeira coluna.
8. Descubra as palavras da coluna do meio, atendendo a que começam da mesma forma que a palavra anterior e acabam da mesma forma que a palavra seguinte.
9. Consegue resolver os seguintes enigmas?
9. Ao desenho da flor corresponde um número e ao desenho do coração corresponde outro número. Descubra quais são estes números e coloque-os nos respetivos espaços.
10 – Por fim, responda à questão levantada pelo seguinte problema:
No supermercado, a D. Natércia protesta por ninguém lhe dar a vez. “Já não há cavalheiros como antigamente”, reclama em voz alta. Está na 7.ª posição e o Sr. Álvaro na antepenúltima. Atendendo a que os homens estão em posições seguidas e as mulheres também, e sendo ¼ da fila composta por mulheres, quantas pessoas há na fila?
Se teve dificuldades com algum destes exercícios, pode encontrar as soluções para os exercícios 1-4 no livro Exercite o seu Cérebro, de Vasco Catarino Soares, e para os exercícios 5-10 no livro Um Cérebro à prova de cansaço, de Sandra Carvalho Martins.