“Que farei quando tudo arde?”

Por: Marisa Sousa a 2022-12-08

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Fahrenheit 451
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Leaves Of Grass
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Harry Potter e a Pedra Filosofal
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Crepúsculo
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O Que se Vê da Última Fila
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“O livro é a grande memória dos séculos. Se os livros desaparecessem, desapareceria a história e, seguramente, o homem.”
 — Jorge Luís Borges

Ray Bradbury defendia que “A ficção científica é a mais importante literatura da história mundial, porque é a história das ideias, a história da nossa civilização durante o seu próprio nascimento.” Diz Neil Gaiman, em O Que se Vê da Última Fila, que, por vezes, os escritores escrevem sobre um mundo que ainda não existe. Sobre o livro Fahrenheit 451, a obra seminal de Ray Bradbury, defende: “Este é um livro de alerta. Serve para nos lembrar que o que temos é valioso e que, por vezes, damos por garantido aquilo que valorizamos. Há três frases que tornam possível o mundo da escrita sobre o mundo que ainda não existe (…) e são simples:

E se…?
Se ao menos…
Se isto continuar assim ...”

 

"Este é um livro de alerta”


«Se isto continuar assim…», pensou Ray Bradbury, «já ninguém irá ler livros», e foi assim que o livro começou. Ele tinha escrito um conto chamado The Pedestrian, sobre um homem que é detido pela polícia só por estar a andar. O conto passou a fazer parte do mundo que ele estava a construir e Clarisse McLellan [uma das personagens de Fahrenheit 451] torna-se numa pedestre num mundo em que já ninguém anda.

«E se… os bombeiros incendiassem casas em vez de as salvar?», pensou Bradbury, entrando dessa forma na sua história.

«Se ao menos… os livros pudessem ser salvos», pensou. Se destruirmos todos os livros físicos, como é que ainda assim podemos preservá-los?”

 

”Se destruirmos todos os livros físicos, como é que ainda assim poderemos preservá-los”

 

O BOMBEIRO

Em 1951, Bradbury, o “poeta da ficção científica”1, escreveu o conto The Fireman (O Bombeiro) e cedo se apercebeu que o mundo que criou na breve narrativa exigia maior desenvolvimento. Para o concretizar, recorreu à Powell Library da UCLA que disponibilizava, na cave, máquinas de escrever que podiam ser alugadas à hora. A história expandiu-se assim. Quando a inspiração vacilava, deambulava pela biblioteca e olhava para os livros. Quando terminou a história, ligou para os bombeiros de Los Angeles e perguntou a que temperatura ardia o papel. A resposta — Fahrenheit 451 (233 graus Celsius) —, acabaria por dar o título ao livro.

 

“It is about people being turned into morons by TV”
— Ray Bradbury


Jaime Nogueira Pinto, no prefácio a Fahrenheit 451 (edição Saída de Emergência) esclarece que, quando saiu nos Estados Unidos, em 1953, a obra foi lida como “um manifesto contra a censura, como um panfleto contra todas as inquisições”, acrescentando que “hoje percebemos melhor o seu significado mais fundo, ou percebemos o livro à distância, de maneira diferente, e talvez mais interessante civilizacionalmente. Até porque é na nossa distância que as sombras de Fahrenheit 451 parecem incidir com maior crueza, como se vivêssemos agora o futuro adivinhado no livro.

Bradbury explicou que o livro não era sobre a censura do Estado, mas sim sobre o modo como a televisão estava a destruir o interesse das pessoas pela leitura e pela literatura. “Ao entrar hoje no mundo das redes sociais e ao assistir de relance a alguns shows populares de duvidosa ética e estética, percebemos que a visão de Bradbury transcende o piedoso e sempre correcto comentário anticensura para penetrar incisivamente no coração do futuro — o nosso presente.”, conclui Jaime Nogueira Pinto.

Luís Corte Real, editor da Saída de Emergência, confessa-se um pouco mais otimista do que Jaime Nogueira Pinto: “Sem dúvida que os norte coreanos, os chineses e os infelizes cidadãos de outras sociedades autoritárias, vivem nesse mundo; talvez até vivam num mundo mais terrível, pois nem a mente brilhante de Bradbury conseguiria esboçar todas as desumanidades de uma sociedade distópica em pleno século XXI. Para quem, como nós, vive numa sociedade livre e democrática, a ideia de não ter acesso a qualquer livro que pretenda é impensável — mesmo aos livros perigosos e incendiários (que também existem), escritos por ditadores lunáticos, e que inspiraram guerras e massacres que ceifaram milhões de vidas. Mas, ainda assim, se olharmos para o Fahrenheit 451 como uma metáfora que vai para além da proibição e destruição de livros, uma metáfora que nos fala da proibição de opinar, questionar, e de, no fundo, sermos seres humanos pensantes, então talvez encontremos uns laivos de Fahrenheit 451 na nossa sociedade atual. Uns laivos de “bombeiros incendiários” que, curiosamente, não nos chegam pelas mãos de ditadores de extrema-direita ou extrema-esquerda ou fanáticos religiosos — tradicionalmente os grandes censores —, mas, curiosamente, nos chegam pelas mãos de gente bem-intencionada. Refiro-me à cultura do cancelamento. Uma piada dita há vinte anos pode destruir uma carreira. Uma opinião que não vá ao encontro do que é considerado politicamente correto pode significar a humilhação nas redes sociais e, pior, a ostracização na vida real. Não defendo uma liberdade de expressão sem limites; afirmações alimentadas pelo ódio ou sustentadas em mentiras há muito desmascaradas devem ser censuradas — é uma questão de higiene social e de defesa da humanidade, caso contrário, ainda viveríamos em cavernas e vestiríamos apenas peles de animais. Mas é inegável que as redes sociais trouxeram alguma estupidificação à sociedade, uma nova era de censura e, pior, de autocensura, que a maioria de nós não previu. Ray Bradbury não só antecipou essa realidade como a imortalizou em um dos melhores romances de ficção científica de sempre.”

 

”Ray Bradbury não só antecipou essa realidade como a imortalizou em um dos melhores romances de ficção científica de sempre”
— Luís Corte Real

 

OS QUE QUEIMAM LIVROS

Para um apaixonado por livros, ver (ou sequer imaginar) o fogo a devorar as suas páginas é uma visão aterradora. As fundações da nossa evolução, enquanto seres humanos e enquanto humanidade, assentam na preservação de informação e de conhecimento. Ao longo da história, testemunhamos, mais do que desejaríamos, momentos em que a memória coletiva foi (e é) irremediavelmente atacada. Quanto da memória do mundo foi já engolido pelas chamas da apatia, da ignorância e do fanatismo ao longo dos séculos?

 

“Sem a leitura, não há profundidade de campo, nem contraste, nem matizes; sem a leitura, caímos facilmente no fanatismo."

— Jordi Nadal

 

Defendem alguns que a história é um processo cíclico. Talvez por isso, estas ameaças continuem a ocorrer, tantas vezes disfarçadas sob a capa do “bem comum”, por motivos “nobres”, combatendo “a obscenidade e a blasfémia”, em prole da preservação da moral e dos bons costumes.  “Quem sabe qual será o alvo de um homem com a cabeça cheia de livros?”, pergunta Bradbury (na voz de Beatty), em Fahrenheit 451.


Em 1840, em França, Pierre-Armand Dufau, diretor de uma escola para invisuais, onde o antigo aluno e atual professor, Louis Braille, havia desenvolvido o seu código de pontos em relevo, queimou mais de 70 livros que tinham sido impressos, utilizando o novo código. O motivo?  Dufau, que não era invisual, receava que, com o método Braille, os professores que não invisuais se tornassem dispensáveis.

Em 1873, a Sociedade para a Supressão do Vício de Nova Iorque (que tinha como selo oficial a imagem de um livro em chamas), fundada por Anthony Comstock, promoveu uma série de leis como forma de combater as “obscenidades”. Na lista de imoralidades figuravam livros de anatomia, destinados a estudantes de medicina, Leaves of Grass, de Walt Whitman e livros, ou outros suportes, que contivessem informação sobre contraceção. “Os livros alimentam bordéis”, terá declarado Comstock, a quem é atribuída a responsabilidade pela destruição de cerca de 15 toneladas de livros

 

“A noite passada, pensei em toda a gasolina que tenho espalhado, há dez anos para cá.
E pensei nos livros. E, pela primeira vez, notei que atrás de cada um desses livros, estava um homem.”

— Fahrenheit 451


Em 1933, na Alemanha, dezenas de milhares de livros foram queimados poucos meses após os nazis terem chegado ao poder. A 10 de maio, grupos liderados por estudantes, reuniram-se em 34 cidades universitárias para destruir cópias de livros (estima-se que tenham sido destruídos pelos menos 25 mil livros) considerados críticos do regime. Entre os visados, encontravam-se obras de escritores como Karl Marx, Helen Keller, Ernst Hemingway, Thomas Mann, Stefan Zweig, Sigmund Freud, Jack London, Henrich Heine, entre muitos outros. Em Berlim, quase 40 mil pessoas reuniram-se na Opernplatz para ouvir o ministro da Propaganda, Joseph Goebbels. "Não à decadência e à corrupção moral. Sim à decência e à moral na família e no Estado. Condeno às chamas os textos de Heinrich Mann, Ernst Gläser, Erich Kästner", ordenou. É da autoria de Henrich Heine a célebre frase: “Onde queimam livros, acabam também por queimar pessoas” que, infelizmente, viria a revelar-se uma dolorosa verdade.

A partir de 1973, no Chile e na Argentina, sob o domínio da ditadura, houve uma perseguição cerrada aos livros considerados “perigosos”. Durante décadas, normalizaram-se as imagens de homens fardados, a destruir e a queimar livros. Houve uma perseguição especial aos livros infantis. O livro de contos Torre de Cubos, de Laura Devetach, por exemplo, foi proibido por um decreto que determinava que o seu conteúdo, composto por "fantasia ilimitada", poderia ser prejudicial para as crianças. Na Argentina, a maior queima de livros ocorreu a 26 de junho de 1980, no distrito de Sarandi, em Buenos Aires: foram queimados quase um milhão e meio de livros.


OS QUE SALVAM LIVROS


Salomón Gerchunoff, que vivia no bairro Parque Vélez Sarsfield, em Córdoba, a segunda maior cidade da Argentina, decidiu remodelar a casa, aproveitando para esconder nas paredes da parte superior do quarto principal livros sobre política, mas também livros de César Vallejo, O Pequeno Príncipe e o livro infantil Um Elefante Ocupa Muito Espaço, de Elsa Bornemann, que também foi proibido pela ditadura. Entre os livros escondidos, constava um livreto de quatro páginas com duas odes de Pablo Neruda. No verso, um autógrafo na inconfundível tinta verde usada pelo Nobel chileno e a dedicatória: "Para Gerchunoff. Do seu amigo Pablo".

Após o golpe de Pinochet, ter um livro considerado perigoso era o suficiente para ser preso. Destruir todas as cópias tornou-se uma questão de vida ou de morte. Começava-se por tentar submergir os livros nas banheiras ou nos lavatórios, para que as páginas amolecessem e depois pudessem ser colocados na sanita. No entanto, os canos entupiam facilmente e a opção mais fácil era queimá-los: nos fornos ou nos fogões das cozinhas, ou, para ser mais rápido, em fogueiras feitas à noite, para evitar denúncias. Luis Costa, no entanto, não queimou tudo. Apesar do perigo, conseguiu salvar alguns exemplares. Numa situação limite, para evitar ser preso, comeu 30 páginas de um livreto.


 

OS QUE QUEIMAM LIVROS

Em 2002, no Maine, EUA, cinco pastores, não tendo obtido permissão para realizarem uma fogueira, rasgaram cópias de Harry Potter, de J.K. Rowling, alegando que a obra promovia a feitiçaria. Esta foi apenas uma das muitas manifestações de repúdio de que as obras de Rowling foram alvo, desde que foram publicadas.

Em 2009, no Afeganistão, cópias da Bíblia, traduzidas para dari e pashto, e enviadas aos militares da base área de Begram, por um grupo cristão, foram queimadas por militares dos EUA. O proselitismo é proibido pelas diretrizes militares.

Em 2015, a Biblioteca Central da Universidade de Mosul foi incendiada por militares do Estado Islâmico (ISIS), depois de ter sido bombardeada durante os confrontos para retomarem a cidade. O espaço, criado em 1967, uma das maiores bibliotecas do Iraque, albergava centenas de milhares de livros e manuscritos — muitos deles extremamente raros.

Em 2022, no Tennessee, EUA, por ordem de Greg Locke, um pastor conservador e negacionista, foram queimados exemplares da premiada obra de banda desenhada sobre o Holocausto, Maus, de Art Spiegelman — a única obra de banda desenhada que ganhou o prémio Pulitzer de Literatura (em 1992) —, livros da saga Harry Potter e Crepúsculo, de Stephenie Meyer. Durante a queima de livros, que foi filmada e transmitida ao vivo, é possível ouvir o pastor afirmar: "Temos um direito constitucional e um direito bíblico de fazer o que vamos fazer esta noite. A igreja tem o direito religioso de queimar materiais do oculto que considere ser uma ameaça aos seus direitos religiosos, liberdades e sistema de crenças." A banda desenhada já havia sido proibida nas escolas do condado de McMinn, por conter “oito palavrões e um desenho de uma mulher nua.”.

 

OS QUE SALVAM LIVROS

O bloguer Mosul Eye, que se apresenta como “historiador independente”, com o objetivo de salvar os livros que pudessem ter sobrevivido às chamas, apelou aos jovens para se reunirem na biblioteca. Mais de 50 alunos da Universidade de Mosul compareceram e, durante três meses, a pisar escombros, conseguiram salvar mais de 30.000 livros. Em 2017, iniciou uma campanha sob o mote “Let it Be a Book, Rising from the Ashes” (Que seja um livro, renascendo das cinzas), apelando à doação de livros e outros materiais impressos, em todas as línguas. Os livros começaram a chegar de todas as partes do mundo. Um instituto francês em Marselha prometeu doar cerca de 20 toneladas de livros para a campanha.

 

Alia Muhammad Baker, bibliotecária-chefe da Biblioteca Central de Al Basrah, a biblioteca pública de Bassorá, Iraque, trabalhou arduamente durante anos para tornar sua biblioteca num local de encontro e um recurso valioso ao serviço da comunidade, consciente que estava da herança inestimável que esta biblioteca representava. Quando a invasão do Iraque começou, em 2003, preocupada com a segurança do acervo, viu negada a permissão que pediu às autoridades iraquianas para transferir os livros para um local mais seguro. Assim que os escritórios do Governo se mudaram para a biblioteca e foi colocada uma arma antiaérea no telhado, Alia começou a “contrabandear”, todas as noite, tantos livros quantos conseguia esconder no seu carro. Quando os britânicos invadiram Bassorá e os funcionários do Governo abandonaram a biblioteca, Alia conseguiu convencer o dono do restaurante situado ao lado da biblioteca a pedir ajuda. Os vizinhos que acorreram a prestar auxílio, ajudaram a passar os livros por cima do muro para a sala de jantar do restaurante. A biblioteca foi incendiada antes que conseguissem salvar todos os livros, mas devido aos esforços de todos, 30.000 livros escaparam ao fogo. Assim que o conflito acalmou, Alia e o marido, alugaram um camião e distribuíram os livros pelos funcionários da biblioteca e pelos seus amigos. A biblioteca foi reconstruída e reaberta em 2004 e Alia foi reintegrada como bibliotecária-chefe.
 

Citamos apenas alguns exemplos. Infelizmente, a história está repleta deles. Assustadoramente, o presente é fértil em muitos outros. Hoje mesmo, a esta hora, alguém estará a tomar a decisão de destruir um, dois, dez, cem, mil livros. Tomando emprestadas as palavras do grande poeta Sá de Miranda: “Que farei quando tudo arde?”.

 

A MEMÓRIA É UMA ARMA CARREGADA

 

"A maior homenagem que alguém pode fazer a um poema ou texto que ama é aprendê-lo de cor, by heart ou par coeur. Não by brain, apenas com a cabeça, mas de cor, de coração. Porque a expressão é vital.”

 

Assim que 10 pessoas sabem um poema de cor, não há nada que a KGB, a CIA ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviver”.
—George Steiner

 

A peça By Heart, de Tiago Rodrigues, estreou em 2013. Durante o espetáculo, Tiago Rodrigues ensina um poema a 10 pessoas. Essas 10 pessoas nunca viram o espetáculo e não fazem ideia que poema vão aprender de cor, à frente do público. Enquanto as ensina, ele vai desfiando histórias sobre a sua avó quase-cega misturadas com histórias sobre escritores e personagens de livros que, de algum modo, estão ligados à sua avó e a ele próprio.

By Heart é uma peça sobre a importância da transmissão, do invisível contrabando de palavras e ideias, que apenas guardar um texto na memória pode oferecer. É sobre um teatro que se assume como esse lugar de transmissão do que não pode ser medido em metros, euros ou bytes. É sobre o esconderijo seguro que os textos proibidos sempre encontraram nos nossos cérebros e nos nossos corações, garantia de civilização mesmo nos tempos mais bárbaros e desolados. Em última análise, By Heart é uma recruta para a resistência, que só termina quando os 10 guerrilheiros souberem o poema de cor.

 

QUANDO SHAKESPEARE DESAFIOU ESTALINE

“Em 1937, Congresso de Escritores Soviéticos. Foi o pior ano. Um dos piores anos. As pessoas desapareciam como moscas todos os dias. Os amigos de Boris Pasternak juntaram-se à sua volta. E disseram-lhe: se falares no congresso, eles prendem-te. E se não falares, eles prendem-te na mesma, por insubordinação irónica. Havia duas mil pessoas presentes. Jdanov, o assassino político estalinista, estava lá sentado no palco. Foi um congresso de três dias. Todos os discursos eram: obrigado ao irmão Estaline. Obrigado ao pai Estaline. Obrigado ao novo modelo de verdade estalinista.

E nem uma palavra de Pasternak. No terceiro dia, os amigos disseram-lhe: faças o que fizeres, eles vão prender-te. Por favor, talvez pudesses dizer alguma coisa. Algo que possamos guardar connosco enquanto estiveres preso. Pasternak era um homem incrivelmente bonito. Tinha mais de um metro e oitenta. Quando ele se levantava, toda a gente dava conta. Ele levanta-se. Dizem-me que o silêncio se ouvia até Vladivostok. E quando Pasternak se levanta e sobe ao palco, ele diz um número. Um número.

E duas mil pessoas levantam-se. Era o número de um certo soneto de Shakespeare. Um soneto que ele traduzira para russo. E que os russos dizem ser, a par de Pushkin, um dos maiores textos da língua russa. Mas é Shakespeare. É uma tradução.

When to the sessions of sweet silent thought
I summon up remembrance of things past.


Um soneto de Shakespeare sobre a memória. E quando Pasternak diz esse número, as duas mil pessoas levantam-se e recitam o soneto de cor. Recitam em russo. E dizia tudo. Dizia: não nos podem tocar. Não podem destruir Shakespeare. Não podem destruir a língua russa. Não podem destruir o facto de sabermos de cor o que Pasternak nos deu. E não o prenderam. É uma das grandes histórias.”

 

“Dizia: não nos podem tocar. Não podem destruir Shakespeare.”
— George Steiner

George Steiner, in Da Beleza e da Consolação, citado em By Heart e Outras Peças Curtas, de Tiago Rodrigues (Imprensa da Universidade de Coimbra)

 

“A PUBLICAÇÃO DA ALMA HUMANA”
 

“E toda a minha alma está nos sinos,
Só que a música não salva dos abismos.”

— Ossip Mandelstam, excerto do poema “Caminheiro”


“O poeta russo Ossip Mandelstam foi perseguido, preso, e morreu em Vladivostok. Todos os livros e poemas de Ossip foram confiscados. Então Nadejda Mandelstam, a sua mulher, ensinava um poema a dez pessoas. Reunia amigos e desconhecidos na sua cozinha. E ensinava um poema de Mandelstam a dez pessoas de cada vez. Isso significava que ao fim de 60 poemas, havia 600 pessoas que os sabiam de cor. E quando cada uma das pessoas que tinha aprendido um poema na cozinha de Nadejda o ensinava a dez outras pessoas, então aí o número aumentava incontrolavelmente. E estavam salvos. Nada podia pará-los. Esta é, parece-me, a forma mais profunda de publicação. A publicação da alma humana.”

George Steiner, in Da Beleza e da Consolação, citado em By Heart e Outras Peças Curtas, de Tiago Rodrigues (Imprensa da Universidade de Coimbra)

“E estavam salvos. Nada podia pará-los. Esta é, parece-me, a forma mais profunda de publicação. A publicação da alma humana.”
— George Steiner

 

“Outrora, os livros atraíam algumas pessoas, aqui e ali, um pouco por todo o lado. Pessoas que podiam dar-se ao luxo de serem diferentes. Havia espaço para isso no mundo. Mas depois o mundo encheu-se de olhos, de cotovelos e de bocas. A população duplicou, triplicou, quadruplicou. Os filmes e a rádio, as revistas, os livros foram ficando todos ao mesmo nível, uma espécie de pudim pastoso como norma comum.

A mente dos homens anda a tal velocidade neste carrossel movido pelas mãos dos editores, exploradores, radiodifusores que, nesse movimento centrífugo, se perde tudo o que seja pensamento, considerado desnecessário, uma perda de tempo!”

Vê agora porque os livros são temidos e odiados? Porque mostram os poros do rosto da vida. As pessoas confortáveis querem apenas rostos lisos como cera, sem poros, sem pelos, sem expressão.

— Fahrenheit 451

 

LICENÇA DE PORTE DE ARMA

“Pergunte-se: o que é que, acima de tudo, queremos neste país? Queremos ser felizes, não é certo? (…) Bem, e não são? Não lhes damos oportunidade de andarem de um lado para o outro, de se divertirem? É só para isso que vivemos, não é? Para o prazer, a excitação. E tem de admitir que a nossa cultura é generosa na oferta de ambos.” (Fahrenheit 451)

Ray Bradbury temia que as pessoas lessem apenas as manchetes. No século XXI, assiste-se a um fenómeno ainda mais preocupante: muitos leem apenas as manchetes (aquelas que, tantas vezes, são definidas para caçar cliques em teias sujas) e não conseguem interpretar o que leem, deturpando a mensagem, cuspindo-a mais adiante, mal mastigada, no rio quase pantanoso que desagua nas redes sociais.

Há palavras que estão em vias de extinção, estraçalhadas por impensáveis abreviaturas ou pela superficialidade de um emoji. Queimamos impunemente a terra onde plantávamos ideias e o solo está cansado. Pouco do que é produtivo nasce de um solo árido. Para onde foram as grandes plantações de argumentos articulados e pensamentos estruturados? O cruzamento de ideias, o respeito pela opinião diametralmente oposta?

Bradbury alertou para a perda da memória. Hoje, confiamos as nossas informações a memórias externas, a grandes corporações, à rede, esse deus omnipresente e omnisciente. A rede sabe o que comemos, o que vestimos, onde passamos férias, quem são os nossos amigos, o que amamos e o que detestamos, com quem trocamos mensagens, o que ouvimos, o que vemos. A rede sabe tudo. Até de que cor são os nossos sonhos e os nossos medos. É possível reescrever o que um dia foi dito e feito. É possível criar factos alternativos, construir pós-verdades. É possível apagar tudo. “As pessoas de cor não gostam do Little Black Sambo. Queime-se. As pessoas brancas não se sentem bem com A Cabana do Pai Tomás. Queime-se. Alguém escreveu um livro acerca do efeito do tabaco no cancro dos pulmões? As tabaqueiras estão preocupadas? Queime-se o livro.” (Fahrenheit 451). Queime-se. Apague-se. Esqueça-se.

 

“O livro é uma arma carregada”
— Ray Bradbury

 

Olhe por um instante esses livros que tem consigo, na sua estante, na mesinha de cabeceira, na sua mesa, na sua mochila, ou, agora mesmo, nas suas mãos. Decore partes deles, imortalize as suas histórias, cheire-os, abrace-os.  Bradbury alertou: “O livro é uma arma carregada.”. Enquanto tem o privilégio e a licença para porte dessas armas, use-as bem.


1.Clara Barata, in “A liberdade reduzida a cinzas”, Público, janeiro 2000

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