Por acaso, foi no fatídico dia 11 de março de 1975. Calhou. Tinha desfeito a minha tenda na Alemanha e comprado, para essa data, a viagem para Portugal. Na mala, um projeto de tese de doutoramento sobre a resistência contra a ditadura do Estado Novo. Na altura, mal imaginava que nunca mais sairia de terras lusas, a não ser para ir buscar, de carro, os pertences que me faziam mais falta ou para, de longe a longe, visitar familiares e amigos. Dava os primeiros passos na língua portuguesa, conseguia entender relativamente bem os jornais (o meu latim de liceu ajudava…), mas comunicava em francês, até ao momento em que decidi que falaria, daí em diante, ainda que com limitações, apenas e só em português.
O país fervilhava e eu atirava-me ao país, que me recebeu sem reservas. Havia uma energia no ar, um sentimento quase eufórico de liberdade, como se não tivessem rompido só as grades de Caxias, de Peniche, do Aljube, mas do país inteiro. Tinha consciência dos perigos de uma contrarrevolução e presenciei cenas dramáticas que ficaram gravadas na minha memória para sempre.
"O país fervilhava e eu atirava-me ao país, que me recebeu sem reservas. Havia uma energia no ar, um sentimento quase eufórico de liberdade, como se não tivessem rompido só as grades de Caxias, de Peniche, do Aljube, mas do país inteiro."
Tinha conhecido em 1973, em Madagáscar, numa conferência internacional sobre o racismo, o colonialismo e o apartheid, o homem que, dez anos mais tarde, viria a ser o meu companheiro de vida até que a morte nos separou. Sentia-me politicamente em casa: primeiro, no Partido Comunista, mais tarde, no Movimento Democrático Português (MDP). Senti que havia paixão e entrega abnegada, mas também senti o perigo de excessos. Vencido o regime opressor, tornara-se cada vez mais claro que os ventos não sopravam a favor da união, mas a favor da afirmação das diferentes forças politicas. Como dizia Brecht: depois dos esforços penosos das montanhas, vieram os da planície…
O sentimento de pertença e de acolhimento não excluía o confronto com realidades desconhecidas — até, por vezes, chocantes. Exigia uma adaptação a várias velocidades. Ensinou-me a adotar humildade e cautela perante as aparências. Saída de uma fornada do Maio de 68 (entrara, com 19 anos, na universidade, em 1967, em plena guerra do Vietname), com as suas idiossincrasias libertárias e de informalidades, cheguei a conhecer as mais finas senhoras portuguesas, adornadas com pérolas, em ambiente de burguesia média alta, cujo currículo de combate à repressão fazia os meus colegas das lutas estudantis parecer meninos de coro. Ao mesmo tempo, foi para mim estranho e contrário aos meus hábitos e expectativas observar mulheres jovens, da minha idade, profissionais, cultas, politicamente ativas e com ideias assertivas que, no contexto doméstico, se transformavam em tradicionais donas de casa, assumindo um papel que não problematizavam. Admito que possa estar a generalizar em demasia experiências pessoais. Recordo, no entanto, que, em Portugal, a esfera doméstica estava atribuída às mulheres, não apenas por tradição, mas de jure.
O país dos anos 70 era muito diferente de Portugal do século XXI e do Euro. Lisboa, comparada com o que é hoje, era uma cidade bastante degradada, quase sem esplanadas, de costas voltadas ao Tejo. Ainda há hoje, infelizmente, pobreza que precisa de ser eliminada, mas está longe do grau e da dimensão que encontrei quando cheguei. Fiz reportagens sobre bairros de lata onde vi habitar pessoas em estado indescritível. Percorri o país. Em aldeias do Norte, encontrei simpatia e hospitalidade em casas quase sem janelas, onde me ofereceram tudo que tinham — pão, toucinho, azeitonas e vinho, postos em cima de um baú que era a única mesa, da única divisão que existia. A cem quilómetros da capital, vi o olhar espantado de um bebé quando, de repente, se acendeu uma lâmpada pendurada sobre ele. A eletricidade tinha chegado à aldeia. Lá, num sítio comunitário, as gentes reuniam-se à volta dos comes e bebes. Os bolos eram enfeitados pelas mulheres com inscrições de açúcar “O povo está com o MFA”.
Barbara Tengarrinha | Nasceu na Alemanha em 1948. Formou-se em ciências políticas e sociais, pela Universidade de Marburg. Vive em Portugal desde 1975, motivada inicialmente por um projeto universitário. Ativa no PCP, mais tarde, no MDP, e, desde 2015 no LIVRE onde exerceu vários mandatos na sua Assembleia (órgão máximo entre congressos). Foi mandatária do LIVRE para as eleições europeias em 2019. Colaborou na publicação póstuma do livro de José Tengarrinha Lutas laborais e a formação da classe operária portuguesa, editado pelo Instituto de História da UL. Organizou a transferência do espólio de José Tengarrinha para a biblioteca da Faculdade de letras da UL. Integrou a comissão instaladora do Instituto José Tengarrinha, criado em 2024. Frequentou o curso superior do Conservatório Nacional (CN) e a pós-graduação em linguística/estudos alemães, na UL. Assumiu a presidência da Comissão Instaladora da Escola de Música do CN e lecionou alemão nesta instituição, de 1989 até à sua aposentação, em 2015. É autora do livro Alemão para Cantores, cuja 4.ª edição foi escolhida para integrar a representação da editora alemã Books on Demand, na Feira do Livro de Frankfurt, em 2017. Esteve casada durante 35 anos com José Manuel Tengarrinha, até ao seu falecimento, em 2018. É uma jardineira apaixonada e membro de um coro amador.