O 25 de Abril que não vem nos manuais

Por: Beatriz Sertório a 2024-03-12

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Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975 - Episódios menos Conhecidos, de Irene Flunser Pimentel

“A História é escrita pelos vencedores”, é uma afirmação atribuída a George Orwell, mas reiterada por Irene Flunser Pimentel que, no 50º aniversário do 25 de Abril, dedicou um livro ao lado menos conhecido de um período tumultuoso da História de Portugal. Em Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975 - Episódios menos Conhecidos (Temas e Debates), a autora e investigadora doutorada em História Institucional e Política Contemporânea, recupera diferentes testemunhos e pontos de vista para uma compreensão global dos eventos que antecederam e sucederam a Revolução, culminando no controverso 25 de Novembro de 1975. Em conversa para a revista Somos Livros, falou dos motivos que a levaram a querer escrever este livro, da origem do desconhecimento em relação a alguns dos episódios evocados e das suas memórias sobre aquele que foi, nas suas palavras, o dia mais feliz da sua vida.


Define este livro como uma análise pessoal de diversos episódios menos conhecidos que ocorreram antes, durante e após o 25 de Abril. Volvidos cinquenta anos, qual é na sua opinião, o maior equívoco que persiste até hoje sobre o 25 de Abril de 1974?

Eu acho que não há grandes confusões sobre o 25 de Abril propriamente dito. Acho que já há bastante historiografia sobre o assunto, muitos testemunhos, sobretudo muitos livros, até de Capitães de Abril, sobre o que fizeram e onde estiveram nesse dia… Penso que já não há muitos equívocos. Talvez para denegrir o 25 de Abril muitas vezes utiliza-se o facto de o MFA ter começado por reivindicações ou protestos corporativistas e, portanto, teriam levado a cabo o golpe de estado por interesse próprio.  Mas não corresponde à realidade. Quer dizer, houve interesses corporativos, não há dúvida nenhuma, interesses próprios que tinham a ver com já treze anos de Guerra Colonial, de cansaço dos militares do quadro para fazerem sucessivas comissões... Toda a juventude masculina estava mobilizada automaticamente para quatro anos de serviço militar obrigatório, dois dos quais na guerra, e os que não queriam fazer a guerra, exilavam-se, tornavam-se refratários ou desertores. Portanto, há aqui todo um trabalho de cansaço da própria guerra e de uma perceção que foi mudada de que a guerra poderia ser ganha militarmente, e não politicamente como acabou por ser. 

E portanto nas primeiras reuniões o MFA começou, de facto, por discutir questões de interesse corporativo. Sobretudo, aquela lei de ’73 de Marcello Caetano que equiparava os alferes milicianos a capitães com apenas um pequeno curso na Academia Militar, enquanto os do quadro, profissionais, tinham de lá passar pelo menos quatro anos. Mas rapidamente a discussão passou para a questão da Guerra Colonial e de que maneira, ao fim ao cabo, isso deveria ser resolvido. Até que, numa das reuniões, chegou-se à conclusão que o próprio regime teria de ser derrubado, e que era essa a única forma de atuar. 

 

Sendo que, como disse, já muito se escreveu e falou sobre este assunto, porque é que quis escrever este livro?

Eu queria de certa forma fazer alguma coisa sobre o 25 de Abril e estava a trabalhar numa investigação sobre o relacionamento da PIDE com os serviços secretos das chamadas democracias durante a ditadura. Por outro lado, comecei a interessar-me pelas razões pelas quais a PIDE não atuou contra os militares no golpe de estado, com exceção de quatro ocorrências, e por outro lado, como é que ela vigiou os militares e as reuniões que antecederam o golpe de estado militar a partir de ‘73, mas nada fez. Portanto, foi um pouco por causa disso, até porque eu discuto muitas vezes este assunto com as pessoas e reparo que isso é uma das grandes questões que elas lançam. Resolvi então escrever sobre o que eu penso que são as razões e os motivos da imobilidade da PIDE, da rendição em poucas horas do próprio regime e, por outro lado, também de que forma os serviços secretos e os países do chamado Ocidente, porque ainda estávamos em tempo de Guerra Fria, reagiram ao 25 de Abril. E coloquei isso tudo num livro que dura cerca de um ano e meio, portanto, desde o 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975. 


Antes disso, na primeira parte do livro, refere-se ainda ao período pré-25 de Abril, onde menciona a importância da cultura juvenil e de alguns espetáculos culturais como as primeiras edições do festival Cascais Jazz e Vilar de Mouros. Uma sociedade que não investe na cultura é uma sociedade mais vulnerável a ideias extremistas e regimes autoritários?

Claro que sim. Eu penso que a cultura, a literacia, e dentro da cultura, também está a cultura política, a cultura artística, literária, historiográfica, é fundamental para as pessoas formarem as suas opiniões e lutarem pelas suas alternativas. Não é a ditadura que favorece o avanço cultural das pessoas, antes pelo contrário. Penso que é a democracia, apesar de ter imensos defeitos e de estar sempre a ser criticada, o espaço em que essa cultura pode desabrochar e desenvolver-se.

 

Esta entrevista será publicada na Revista Somos Livros (edição Mês do Livro 2024). Leia aqui a segunda parte.

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